Flávio e Gaspar: senador do PL tenta dar sinalização após dificuldade de atrair partidos de centro (PL/Flickr/Divulgação)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 6 de agosto de 2026 às 08h29.
Última atualização em 6 de agosto de 2026 às 08h31.
A escolha do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente reforça a agenda de segurança pública de Flávio Bolsonaro (PL), mas reduz o espaço para uma estratégia voltada ao eleitorado feminino. A avaliação é de Cila Schulman, presidente do Instituto Ideia.
O senador havia sinalizado nos últimos meses que pretendia escolher uma mulher para a chapa, segmento no qual enfrenta maior dificuldade eleitoral.
Na avaliação da analista, a composição deixa sem resposta a tentativa de aproximação com as mulheres, eleitorado no qual Flávio apresenta dificuldades e que, segundo ela, permanece majoritariamente alinhado ao presidente Lula.
Hoje, a vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PL) entre as mulheres chega a 10 pontos percentuais em diferentes pesquisas eleitorais. Na eleição deste ano, 83 milhões de mulheres vão votar, 52% do eleitorado.
A escolha por Gaspar ocorreu depois do fracasso das negociações do PL com PP, União Brasil e Republicanos. As siglas decidiram manter neutralidade na eleição presidencial para evitar conflitos em diretórios regionais, principalmente no Nordeste.
O próprio senador admitiu a dificuldade em atrair outras legendas nos últimos dias.
A dificuldade levou Flávio a formar uma chapa puro-sangue, expressão usada quando os candidatos a presidente e vice pertencem ao mesmo partido.
“Ele está bastante isolado e teve de encontrar um vice do próprio partido”, diz Schulman.
Na segunda-feira, 4, durante sabatina realizada pelo G4 e o Antagonista, Flávio afirmou que Daniele Marques, ex-presidente da Caixa Econômica Federal durante o governo Jair Bolsonaro, era sua favorita para o cargo. A indicação, no entanto, não recebeu o aval do Republicanos.
Gaspar tem trajetória ligada ao Ministério Público e à segurança pública. No Congresso, ganhou projeção como relator da CPMI do INSS, comissão parlamentar que investigou descontos irregulares em benefícios de aposentados e pensionistas.
Ao anunciar o vice nesta quarta-feira, 5, Flávio citou essas duas áreas como fatores decisivos para a escolha.
O deputado é alvo de um pedido de investigação na Polícia Federal por um suposto estupro de vulnerável, que resultou em uma gravidez. Gaspar nega as acusações e forneceu material genético para exames.
Para Schulman, a decisão tende a consolidar características que já estão associadas ao candidato e ao seu grupo político.
"Do ponto de vista estratégico, parece uma decisão de reafirmar os votos que já são dele. Quando se prioriza alguém da segurança pública, com esse discurso e sendo um homem, reforçam-se atributos do próprio Flávio”, diz.
Schulman afirma que a campanha ficou “mais masculina” não apenas pela escolha de um homem, mas também pelo perfil político e pela temática representada por Gaspar. A segurança pública também preocupa as mulheres, ressalta a presidente do Ideia, mas o estilo adotado pelo deputado pode estabelecer um diálogo mais direto com o público masculino.
Em conversa com à EXAME, o líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante, diz que Alfredo Gaspar é uma “unanimidade” dentro do partido.
Segundo ele, a experiência do deputado na segurança pública e em temas ligados a corrupção terá peso na campanha.
Sobre uma vice mulher, a leitura do deputado é que as sinalizações serão feitas com as propostas de Flávio para este público.
Sóstenes ainda minimiza a falta de coligações e afirma que a neutralidade das siglas de centro não significa um rompimento de seus principais quadros com a candidatura.
Como exemplo, citou a presença da senadora Tereza Cristina (PP-MS), que chegou a ser cogitada para a vaga de vice, no evento de anúncio de Gaspar.
O deputado disse ainda que a falta de tempo de TV no primeiro turno não será tão determinante. A leitura é que em um eventual segundo turno, com o tempo dividido, a campanha terá oportunidade de mostrar ao eleitor os projetos do senador.
A segurança pública ocupa espaço relevante entre as demandas do eleitorado. Na pesquisa Meio/Ideia divulgada nesta quarta-feira, 5, mostra que 10,9% dos entrevistados consideram a melhora da segurança uma prioridade para o próximo presidente.
O combate à corrupção e a aplicação igualitária da lei lideram, com 33,1%, seguidos pela melhoria de saúde, educação e serviços básicos, com 20,9%, e pelo desempenho da economia, com 16,4%.
Embora não lidere o levantamento Meio/Ideia, a segurança pública aparece de forma recorrente entre as maiores preocupações dos brasileiros em pesquisas recentes. Em fevereiro, levantamento do Paraná Pesquisas mostrou que 22,2% apontavam o tema como o principal problema do país. Entre os homens, o percentual alcançava 25,1%; entre as mulheres, ficava em 19,7%, atrás da saúde.
Pesquisa Datafolha publicada em dezembro de 2025 colocou violência e segurança em segundo lugar entre os principais problemas nacionais, com 16% das menções. Já levantamento Genial/Quaest de novembro apontou a segurança como preocupação de 38% dos entrevistados, oito pontos percentuais acima da medição anterior.
Para Cila, a associação de Gaspar ao combate à corrupção, por causa de sua atuação na CPMI do INSS, pode ajudar a campanha a construir uma narrativa contra o governo Lula. Ela pondera, porém, que o tema atinge diferentes campos políticos e pode ter alcance limitado.
A analista também vê pouco potencial de crescimento no Nordeste apenas pela origem alagoana do vice. Gaspar exerce o primeiro mandato como deputado federal e vem de Alagoas, estado no qual o bolsonarismo já apresenta desempenho superior ao registrado em outras partes da região. “Não vejo tanto ganho assim”, afirma.