Trecho em obra da Serra das Araras: rodovia ficará pronta em 2027, dois anos antes do previsto, diz CEO da Motiva Rodovias (Motiva/Divulgação)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 06h00.
O setor de infraestrutura brasileiro entrou no primeiro semestre de 2026 com uma mudança relevante de percepção sobre os próximos meses.
A parcela dos entrevistados que considera favorável o cenário para novos investimentos caiu de 54,2% no segundo semestre de 2025 para 37,8%, uma redução de 16,4 pontos percentuais. Ao mesmo tempo, a avaliação desfavorável subiu de 20,4% para 30,9%.
A explicação apresentada pelo setor passa por uma combinação de fatores domésticos e externos. Eleições, guerra no Oriente Médio, inflação, juros, preço do petróleo, custos de logística, protecionismo comercial e reforma tributária estão entre os elementos apontados por Gustavo Gusmão, sócio da EY-Parthenon para Governo e Infraestrutura, para explicar a maior cautela dos agentes.
O movimento ocorre apesar de o país ter encerrado 2025 com volume recorde de recursos destinados à infraestrutura. Os investimentos públicos e privados chegaram a R$ 280,4 bilhões no ano passado, maior valor da série histórica iniciada em 2010, com o setor privado responsável por R$ 220,5 bilhões, ou 78,6% do total.
O contraste ajuda a delimitar o resultado da pesquisa: a piora está na percepção sobre as condições para novos investimentos nos próximos seis meses, enquanto os investimentos realizados permanecem em patamar elevado.
Os números fazem parte da 15ª edição do Barômetro da Infraestrutura, pesquisa semestral da Associação Brasileira da Infraestrutura e das Indústrias de Base (ABDIB) em parceria com a EY-Parthenon, braço de estratégia e transações da EY, divulgado nesta quarta-feira, 12. O levantamento ouviu 233 gestores, investidores e especialistas entre 8 e 23 de junho de 2026.
“Esse recuo relevante da percepção favorável interrompe a trajetória de recuperação observada na edição anterior. O resultado sugere um ambiente mais cauteloso, em que a expectativa de continuidade dos investimentos permanece presente, mas com menor convicção quanto às condições de promoção de novos projetos no curto prazo”, afirma Gusmão.
A série recente do Barômetro mostra uma percepção volátil. No segundo semestre de 2024, 52,9% dos entrevistados consideravam o cenário favorável. A proporção caiu para 40,6% no primeiro semestre de 2025, recuperou-se para 54,2% no semestre seguinte e agora recuou para 37,8%, menor percentual das quatro edições apresentadas no levantamento.
A avaliação desfavorável fez o caminho inverso no período mais recente: passou de 20,4% no segundo semestre de 2025 para 30,9% no primeiro semestre de 2026. A parcela neutra aumentou de 25,4% para 30,4%, enquanto 0,9% não soube responder.
A piora das expectativas ocorre depois de um ano de forte volume de investimentos. Em 2025, os aportes públicos e privados em infraestrutura somaram R$ 280,4 bilhões, acima dos R$ 271,7 bilhões de 2024 e dos R$ 235,5 bilhões registrados em 2023.
O capital privado respondeu pela maior parcela do resultado. Foram R$ 220,5 bilhões em investimentos privados em 2025, ante R$ 59,9 bilhões de recursos públicos. Um ano antes, os valores haviam alcançado R$ 216,8 bilhões e R$ 54,9 bilhões, respectivamente.
A trajetória recente contrasta com a retração observada a partir de meados da década passada. O investimento total caiu de R$ 251 bilhões em 2014 para R$ 210,7 bilhões em 2015 e R$ 170,5 bilhões em 2016. Depois de atingir R$ 165,4 bilhões em 2020, avançou para R$ 179,3 bilhões em 2021, R$ 197,1 bilhões em 2022, R$ 235,5 bilhões em 2023, R$ 271,7 bilhões em 2024 e R$ 280,4 bilhões em 2025.
Apesar do recorde, a ABDIB avalia que permanece um déficit de investimentos no país. Segundo Venilton Tadini, presidente executivo da associação, o Brasil precisaria investir cerca de R$ 500 bilhões por ano, durante dez anos, para suprir esse hiato.
A eleição presidencial aparece entre os fatores de incerteza apontados pelo levantamento. A pesquisa perguntou aos participantes qual seria o efeito sobre os investimentos caso um candidato de oposição ao atual governo vencesse as eleições de outubro.
Nesse cenário, 43,8% afirmaram que a mudança deve impactar positivamente o volume de investimentos. Outros 26,2% esperam impacto negativo, 23% acreditam que os investimentos permaneceriam no nível atual e 7% não souberam responder.
No cenário de continuidade do atual governo, segundo o release, comunicado distribuído à imprensa, 31% dos participantes entendem que uma reeleição poderia ter impacto negativo sobre o volume de investimentos.
Independentemente do resultado eleitoral, a agenda fiscal e tributária foi apontada por 44,4% dos entrevistados como o principal tema para o próximo mandato federal.No recorte específico de infraestrutura, a ampliação dos programas de concessões e PPPs, Parcerias Público-Privadas, do governo federal lidera as prioridades, com 26,2%. Maior segurança jurídica nos contratos aparece com 24,6%, seguida por novas alternativas de financiamento, com 20,9%. A ampliação do apoio a concessões e PPPs subnacionais recebeu 16,6% das respostas, enquanto 11,2% mencionaram maior rapidez nos processos de licenciamento ambiental.
Além das eleições, o Barômetro aponta os efeitos da instabilidade geopolítica sobre petróleo, logística, inflação, juros, câmbio, cadeias de suprimento e comércio internacional entre os elementos que exigem maior atenção das empresas.
Quando questionados sobre o impacto do conflito no Oriente Médio sobre logística e preço do petróleo, 43,9% dos entrevistados apontaram impacto médio e 20,3%, alto. Somados, 64,2% dos participantes indicaram algum grau relevante de exposição dos negócios aos efeitos associados ao petróleo e à logística.
O protecionismo e a guerra comercial, especialmente os movimentos vindos dos Estados Unidos, também aparecem no levantamento. Para 38% dos entrevistados, o impacto sobre seus negócios é médio, enquanto 20,9% apontam impacto alto. A soma chega a 58,9%.
A reforma tributária é outra frente de atenção. Segundo o levantamento, 62% dos entrevistados afirmaram que suas empresas já estudam os impactos das mudanças nos contratos. Outros 13,4% ainda não começaram a avaliação, mas pretendem fazê-la em 2026, e 7% planejam iniciar o trabalho em 2027 ou posteriormente. Mais de 17% não souberam responder.
A percepção sobre o aproveitamento do potencial da União para investimentos em infraestrutura por meio de concessões e PPPs apresentou pequena melhora no primeiro semestre.
A avaliação positiva agregada — soma das respostas “sim, totalmente” e “sim, parcialmente” — passou de 53,2% no segundo semestre de 2025 para 54,6% no primeiro semestre de 2026. O avanço veio da parcela que considera o potencial parcialmente aproveitado, que subiu de 46,4% para 48,5%. A avaliação de aproveitamento total passou de 6,8% para 6,1%.
A parcela que considera o potencial federal “muito pouco” aproveitado caiu de 41% para 40,3%. Outros 4,6% disseram que ele não é aproveitado, ante 5% na edição anterior, e 0,5% não soube responder.
Apesar da melhora, a União permanece abaixo dos Estados na avaliação apresentada pelo Barômetro. Os municípios continuam como principal gargalo: 74% dos entrevistados consideram que o potencial municipal para atrair investimentos por meio de concessões e PPPs é pouco ou nada aproveitado.
Mesmo diante da maior cautela, os entrevistados continuam a identificar setores com perspectiva de aumento das intenções de investimento nos próximos três anos.
O saneamento básico lidera as menções no primeiro semestre de 2026, com 50,4%, seguido por rodovias, com 45,7%. O principal avanço ocorreu em ferrovias, que passaram de 32,8% no segundo semestre de 2025 para 40,9% e assumiram a terceira posição.
Energia elétrica recuou de 38,5% para 35,7%. Mobilidade urbana aparece com 30,9%, enquanto petróleo recebeu 24,8% das menções.
A evolução dos últimos levantamentos mostra mudanças na composição das prioridades. No segundo semestre de 2024, saneamento tinha 58,7% das menções, energia elétrica 45%, rodovias 35,4%, mobilidade urbana 31,4%, ferrovias 24,1% e infraestrutura social 22,8%.
No primeiro semestre de 2025, rodovias chegaram a 46,8%, saneamento a 45,4%, energia elétrica a 40,8%, ferrovias a 32,8%, petróleo a 27,6% e infraestrutura social a 24,6%. No segundo semestre, saneamento marcou 46,2%, rodovias 47,8%, energia elétrica 38,5%, ferrovias 32,8%, mobilidade urbana 30,4% e petróleo 26,3%.
Para Tadini, o avanço das ferrovias está relacionado ao maior peso da logística na competitividade da economia brasileira.
“O avanço de Ferrovias pode refletir a crescente relevância da agenda logística para a competitividade da economia brasileira. Devido a uma maior preocupação com eficiência operacional, integração de cadeias produtivas e redução dos custos de transporte, o modal ferroviário tem ganhado espaço no debate sobre ampliação da capacidade logística nacional”, afirma.