Luciana Costa: diretora crítica alta da taxa de juros (BNDES/Divulgação)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 28 de junho de 2026 às 09h00.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ampliou sua atuação no financiamento de infraestrutura rodoviária e deverá aprovar R$ 27 bilhões em crédito para o setor em 2026.
"Historicamente, o BNDES aprovava R$ 3 bilhões por ano no setor de rodovias. Hoje, o nosso pipeline é de mais de R$ 27 bilhões para este ano, e no ano passado a gente aprovou R$ 23 bilhões, no ano anterior R$ 24 bilhões", afirma a diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática, Luciana Costa, em entrevista exclusiva ao programa EXAME INFRA durante a Bienal das Rodovias, da Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR).
Segundo a executiva, o movimento marca uma mudança no modelo de financiamento do banco, com maior participação do mercado de capitais e redução de subsídios diretos às operações. A instituição passou a combinar debêntures, cofinanciamento com bancos privados e estruturas de Project Finance non recourse.
Nessa modalidade, as garantias para o financiamento são somente os direitos emergentes da concessão, como as receitas provenientes das tarifas de pedágio, não sendo exigidas garantias corporativas dos sócios ou fianças bancárias.
“O financiamento dos projetos virou Project Finance non recourse, algo que o banco fazia pouco e agora virou prática. Saimos de uma média de R$ 2 bilhões por ano para mais de R$ 20 bilhões no setor de rodovias”, diz Costa.
O avanço ocorre em meio a um ciclo de expansão das concessões rodoviárias federais, que, segundo a diretora, podem alcançar cerca de R$ 400 bilhões em investimentos no país. A diretora afirma ainda que o ambiente regulatório e a previsibilidade contratual sustentam a atratividade do setor para investidores.
Entre as preocupações, a executiva criticou ainda o nível atual dos juros no país e afirmou que a velocidade de queda da taxa de juros segue como variável central para o ritmo de novos investimentos em infraestrutura no Brasil.
“A infraestrutura é de longo prazo, e o investidor não olha só um ano. A velocidade dessa queda vai determinar a velocidade do investimento em infraestrutura no país”, afirma.
O BNDES tem ampliado sua atuação em infraestrutura. Quais mudanças ocorreram no modelo de financiamento?
Concessão depende de três coisas: do concessionário, do poder concedente e do financiamento. E o BNDES é o maior banco de infraestrutura da América Latina. Sob a gestão do presidente Mercadante, a partir de 2023, se elimina o subsídio na taxa de juros, na TLP. Então a gente trabalha com custo de mercado e entrou no mercado de capitais. Nós passamos a financiar rodovias com debêntures e a cofinanciar com o mercado de capitais e bancos privados. E o financiamento dos projetos virou Project Finance non recourse, algo que o banco fazia pouco e agora virou prática.
Como o BNDES evoluiu o volume de aprovações no setor de rodovias?
Historicamente, o BNDES aprovava dois, três bilhões por ano no setor de rodovias. Hoje o nosso pipeline é de mais de R$ 27 bilhões para este ano, e no ano passado a gente aprovou R$ 23 bilhões, no ano anterior R$ 24 bilhões. Então a gente saiu de uma média de R$ 2 bilhões para mais de 20 bilhões por ano.
O Brasil precisa aumentar o investimento em infraestrutura para cerca de 4% do PIB. O que falta para isso?
Infraestrutura não cria demanda. A demanda já existe. O Brasil é exportador líquido de alimentos, tem reservas relevantes de minerais críticos e uma demanda logística já dada. O país avançou muito na regulação de infraestrutura, em rodovias, aeroportos e saneamento. O Brasil é um país que honra contratos, e isso é reconhecido por investidores internacionais.
O pipeline de projetos é suficiente?
Sim. O BNDES tem quase 400 projetos em estruturação atualmente; são 300 e poucos projetos em estruturação. A Infra S.A. tem mais de 100 projetos em estruturação. O importante é que a gente mantenha isso. A gente não pode diminuir a velocidade. O ciclo não pode ser interrompido, porque infraestrutura… o ciclo não começa assim.
Qual o papel da taxa de juros nesse processo?
O Banco Central tem autonomia e isso precisa ser respeitado. Mas precisamos ter um debate sobre a velocidade da queda da taxa de juros. A infraestrutura é de longo prazo, e o investidor não olha só um ano. A velocidade dessa queda vai determinar a velocidade do investimento em infraestrutura no país.
Quais são as próximas inovações do banco?
O foco é ampliar mercado de capitais e atrair capital internacional. O BNDES tem balanço grande, mas finito. Precisamos de investidores privados, fundos internacionais e instrumentos globais. Estamos estudando chamadas para alocação de equity em infraestrutura, para que fundos internacionais participem da gestão e estruturação de investimentos no Brasil.