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Há 64 anos, Bahia não tem voto ‘descasado’ para governador e senador

Desde 1947, o eleitorado baiano elegeu 23 senadores, mas apenas dois venceram em uma composição diferente da chapa do governador eleito

Chapa governista: PT vê histórico ao seu favor com chapa puro sangue (PT/Divulgação)

Chapa governista: PT vê histórico ao seu favor com chapa puro sangue (PT/Divulgação)

Leo Almeida
Leo Almeida

Colaborador

Publicado em 4 de outubro de 2026 às 08h00.

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RESUMO +

A Bahia não elege um governador e senadores de campos políticos adversários na mesma eleição desde 1962, segundo levantamento da EXAME com os resultados estaduais desde 1947. Naquele ano, Antônio Lomanto Júnior venceu a disputa pelo governo, enquanto Josaphat Marinho e Antônio Balbino, que apoiavam Waldir Pires, foram eleitos para o Senado. Desde a retomada das eleições diretas para governador, em 1982, os vencedores do governo e do Senado mantiveram a vinculação política de suas chapas — um histórico que volta ao debate na eleição de 2026.


A política baiana tem uma particularidade que poucos estados brasileiros compartilham: a vinculação entre as chapas majoritárias. Quem vota para governador costuma votar, no mesmo bloco, para senador. O resultado é um intervalo de mais de seis décadas sem uma eleição descasada na Bahia — situação em que o eleitor escolhe um governador de uma força política e, simultaneamente, um senador de uma composição adversária.

A única exceção ocorreu em 1962. Antônio Lomanto Júnior foi eleito governador após enfrentar Waldir Pires. Na disputa pelo Senado, porém, os dois candidatos apoiados por Waldir — Josaphat Marinho e Antônio Balbino — foram eleitos, superando os nomes ligados a Lomanto, Dantas Júnior e Lima Teixeira.

Embora Josaphat e Waldir tenham feito campanha juntos naquele pleito, os dois não eram filiados ao mesmo partido. O próprio Josaphat explicou a situação em entrevista ao Globo em 1986, quando voltou a disputar o governo baiano contra Waldir Pires.

Questionado na época sobre como dois socialistas e antigos aliados haviam chegado à disputa pelo governo, apoiados por forças políticas opostas, Josaphat afirmou que os dois nunca haviam militado no mesmo partido e que a aliança de 1962 havia ocorrido em torno de uma "composição partidária".

O que mudou a partir de 1982

Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (UFBA), o analista ouvido pela EXAME explica que a vinculação entre as chapas majoritárias se consolidou a partir da redemocratização. Antes disso, o arranjo político era diferente.

"Waldir Pires, o cabeça da chapa de Balbino e Josaphat, foi derrotado, assim como os candidatos ao Senado com Lomanto, Lima Teixeira e Dantas Jr. Na verdade, o casamento de chapas passa a ocorrer a partir de 1982, quando voltamos a eleger governadores. Aí sim começa a vinculação, que se mantém", afirmou.

O professor vai além e aponta um segundo tabu que pode ruir em 2026. "De acordo com as pesquisas de intenção de voto, só haverá desvinculação agora se ACM Neto ganhar o governo. Se isso ocorrer, aliás, vai se quebrar um outro tabu muito mais longevo. Desde 1958 ninguém se elegeu governador da Bahia sem apoio em pelo menos um dos níveis de governo, o federal ou o estadual", explica.

ACM Neto, segundo o analista, estaria exatamente nessa condição. "ACM Neto é oposição nos dois níveis. Depois de 1958, todos os candidatos a governador nessas condições foram derrotados. Inclusive ele em 2022."

A leitura é de que a Bahia construiu, ao longo de décadas, uma estrutura política em que o governador eleito precisa estar alinhado ou com o Palácio do Planalto, ou com a máquina estadual, ou com ambos. Sem esse apoio, a máquina pública não se move, os prefeitos não aderem e a governabilidade fica comprometida desde o primeiro dia. Neto, se eleito, enfrentaria um cenário em que seu campo político não controla nem o governo federal — comandado por Lula — nem o governo estadual, que estará nas mãos do PT até a posse.

Quase quebras

O tabu da vinculação entre governador e senador já esteve em risco em outras duas ocasiões recentes.

Em 2018, quando Rui Costa buscava a reeleição, sua chapa era composta por Jaques Wagner (PT) e Angelo Coronel (então filiado ao PSD) para o Senado. O pessedista apareceu atrás nas pesquisas do então candidato Irmão Lázaro (PSC). Contudo, Coronel se elegeu com 32,97% dos votos válidos, enquanto o postulante do PSC alcançou 15,37%.

Outro caso em que o tabu ficou em risco foi em 2022. Era prevista uma eleição tranquila para Otto Alencar ao Senado, mas o cenário era indefinido para seu aliado Jerônimo Rodrigues (PT) na disputa contra ACM Neto (União Brasil) pelo Governo do Estado. Apesar do embate difícil, o petista acabou eleito no segundo turno e, junto de seu aliado, para o Senado.

Em ambos os casos, a vinculação se manteve — mas por margens que, em determinados momentos, pareceram ameaçadas.

Tabu deve ser mantido

Este ano, a chapa majoritária do PT é composta por Jerônimo e os dois ex-governadores, Jaques Wagner (PT) e Rui Costa (PT). A composição puro-sangue do PT é considerada uma "superchapa" pelos petistas e lidera as pesquisas na disputa eleitoral deste ano. Assim, se o histórico se mantiver, Jerônimo Rodrigues deve ser eleito governador e levar consigo os dois senadores de sua chapa.

O cenário oposto — ACM Neto vencendo o governo e elegendo senadores de oposição — quebraria uma tradição de mais de seis décadas. E, segundo o analista, colocaria o ex-prefeito em uma posição inédita: a de governador sem apoio nem no Palácio do Planalto nem no próprio governo estadual que pretende substituir.

No entanto, conforme pesquisa Quaest divulgada neste sábado, 3, Jerônimo Rodrigues é favorito para a reeleição. O levantamento trouxe o atual governador com 52% dos votos válidos, enquanto Neto pontuou 48%. Assim, o governador seria reconduzido ao cargo ainda no primeiro turno.

Em relação ao Senado, o instituto apontou, na véspera da eleição, que Rui Costa detém 33% dos votos válidos, sendo seguido por Jaques Wagner com 30%. Os dois candidatos da chapa de ACM Neto, o ex-ministro de Jair Bolsonaro, João Roma (PL), e o senador Angelo Coronel (Republicanos), pontuaram, respectivamente, 17% e 18%.

O histórico de chapas

Para dar visibilidade ao tabu histórico na eleição baiana, a EXAME realizou um levantamento com todas as chapas de governador e senador eleitas desde 1947. Confira:

1947

Governador: Otávio Mangabeira (UDN, PSD, PRP)

  • Senador - Pereira Moacir (PSD)

1950

Governador: Régis Pacheco (PSD, PTB, PRP, PL)

  • Senador - Landulfo Alves (PTB)

1954

Governador: Antônio Balbino (PTB, UDN, PST)

  • Senador - Juracy Magalhães (UDN)
  • Senador - Lima Teixeira (PTB)

1958

Governador: Juracy Magalhães (PL, UDN, PDC, PSB, PSP)

  • Senador — Otávio Mangabeira (UDN)

1962 - Voto descasado

Governador: Antônio Lomanto Júnior (PL, PR, UDN, PTB)

  • Senador - Josaphat Marinho (PST)
  • Senador - Antônio Balbino (PSD)

1982

Governador: João Durval (PDS)

  • Senador: Luiz Viana Filho (PDS)

1986

Governador: Waldir Pires (PMDB)

  • Senador - Ruy Bacelar (PMDB)
  • Senador: Jutahy Magalhães (PMDB)

1990

Governador - ACM (PFL)

  • Senador - Josaphat Marinho (PFL)

1994

Governador: Paulo Souto (PFL)

  • Senador - ACM (PFL)
  • Senador - Waldeck Ornelas (PFL)

1998

Governador: César Borges (PFL)

  • Senador - Paulo Souto (PFL)

2002

Governador: Paulo Souto (PFL)

  • Senador - ACM (PFL)
  • Senador - César Borges (PFL)

2006

Governador: Jaques Wagner (PT, PMDB, PSB, PTB, PPS, PCdoB, PRB, PV, PMN)

  • Senador - João Durval (PDT) - Apoiado por Wagner

2010

Governador: Jaques Wagner (PT, PP, PSB, PDT, PCdoB, PRB, PHS e PSL)

  • Senador - Walter Pinheiro (PT)
  • Senador - Lídice da Mata (PSB)

2014

Governador: Rui Costa (PT, PP, PSD, PR, PDT, PTB, PCdoB, PMN)

  • Senador - Otto Alencar (PSD)

2018

Governador - Rui Costa (PT, PP, PSD, PDT, PSB, PCdoB, PR, PRP, PMB, Podemos, Avante, PMN, PROS, PTC)

  • Senador - Jaques Wagner (PT)
  • Senador - Angelo Coronel (PSD)

2022

Governador: Jerônimo Rodrigues (PT, PCdoB, PV, MDB, PSD, PSB, Avante)

  • Senador - Otto Alencar (PSD)

Perguntas frequentes

Desde quando a Bahia não elege governador e senador de chapas adversárias? +

Segundo o levantamento da EXAME apresentado na matéria, a última ocorrência foi em 1962. Desde então, os candidatos eleitos para o governo e para o Senado estiveram vinculados ao mesmo campo político na eleição estadual.

O que aconteceu na eleição da Bahia em 1962? +

Antônio Lomanto Júnior foi eleito governador após enfrentar Waldir Pires. Para o Senado, porém, venceram Josaphat Marinho e Antônio Balbino, que faziam parte da composição política apoiada por Waldir, derrotando os candidatos ligados a Lomanto.

O que é voto descasado para governador e senador? +

Na definição utilizada pela reportagem, ocorre quando o eleitorado elege para governador um candidato de determinado campo político e, simultaneamente, escolhe para o Senado candidatos vinculados a uma composição adversária.

Quando se consolidou a vinculação entre as chapas na Bahia? +

Segundo o professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (UFBA) ouvido pela EXAME, essa vinculação se consolidou a partir de 1982, quando os eleitores voltaram a escolher diretamente o governador. Desde aquela eleição, os vencedores do governo e do Senado estiveram associados politicamente.

O tabu eleitoral da Bahia já esteve perto de ser quebrado? +

Sim. A matéria destaca as eleições de 2018 e 2022. Em 2018, Angelo Coronel apareceu atrás de Irmão Lázaro em pesquisas durante a campanha, mas acabou eleito ao Senado junto com Jaques Wagner, enquanto Rui Costa venceu o governo. Em 2022, Otto Alencar venceu a eleição para senador e seu aliado Jerônimo Rodrigues conquistou o governo no segundo turno.

Quem disputa o Senado na chapa de Jerônimo Rodrigues em 2026? +

A chapa de Jerônimo Rodrigues tem os ex-governadores Rui Costa e Jaques Wagner, ambos do PT, como candidatos às duas vagas para o Senado. A composição majoritária é formada exclusivamente por nomes petistas.

O que a pesquisa Quaest citada mostra sobre a eleição na Bahia? +

Na pesquisa citada na matéria, divulgada no sábado, 3, Jerônimo Rodrigues aparece com 52% dos votos válidos para governador, enquanto ACM Neto registra 48%. Para o Senado, Rui Costa tem 33% dos votos válidos, Jaques Wagner 30%, Angelo Coronel 18% e João Roma 17%. Pesquisa eleitoral representa um retrato do período em que foi realizada e não uma previsão do resultado.

Qual outro tabu político pode ser quebrado na Bahia em 2026? +

Segundo o analista ouvido pela EXAME, desde 1958 nenhum candidato conseguiu se eleger governador da Bahia sem apoio político no governo federal ou no estadual. Ele afirma que ACM Neto disputa a eleição de 2026 como oposição aos dois níveis de governo, o que poderia romper esse histórico caso seja eleito.

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