Crimes virtuais: Brasil teve mais de 2 milhões de registros de golpes em 2025 (Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 27 de julho de 2026 às 06h00.
Apesar da queda dos crimes violentos e dos roubos registrada pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026, o Brasil ainda está longe de viver uma realidade mais segura. Para Leonardo Silva, coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os indicadores melhoraram, mas continuam elevados no total.
"Os números diminuíram, mas continuam em patamares muito altos", afirma o especialista em entrevista à EXAME.
Em 2025, o Brasil ainda registrou 40.775 mortes violentas intencionais e 830.890 roubos e furtos de celulares, mesmo após quedas de 8,2% e 13,4%, respectivamente.
Segundo ele, a redução das mortes violentas e dos roubos convive com uma mudança no perfil da criminalidade.
Enquanto os crimes patrimoniais tradicionais recuam, os estelionatos avançam, impulsionados pela digitalização da vida cotidiana e pela adaptação das organizações criminosas. No ano passado, o Brasil registrou 2,2 milhões de casos de estelionato.
Nos últimos anos, afirma Leonardo, a migração de atividades para o ambiente digital abriu novas oportunidades para a atuação das quadrilhas.
"Tudo aquilo que fazíamos antes de maneira física, conseguimos fazer agora de maneira online: pagar as contas, fazer compra, se relacionar, interagir com outras pessoas. Sobretudo o celular tem ganhado cada vez mais protagonismo na vida cotidiana da população", diz.
Para o coordenador do Fórum, a facilidade proporcionada pela tecnologia também ampliou as possibilidades para os criminosos. Foram 258 golpes por hora, com crescimento acumulado de 429,8% desde 2018.
"Isso que é uma facilidade para a população representa uma baita janela de oportunidade para as quadrilhas, que vão se especializando na aplicação de golpes", afirma.
Segundo ele, as organizações criminosas passaram a desenvolver um ecossistema de ferramentas e serviços voltado especificamente para a prática de fraudes eletrônicas.
Na avaliação do pesquisador, a estrutura do Estado ainda não acompanhou essa transformação.
"O processo de formação das polícias prioriza os crimes no meio físico. E as ferramentas de investigação para os estelionatos, sobretudo aqueles que ocorrem em meio virtual, são completamente diferentes daquelas utilizadas para os crimes que ocorrem em meio físico", afirma.
Segundo Leonardo, investigações desse tipo exigem rastreamento de dados, verificação de IP, triangulação de informações, rastreamento financeiro e quebra de sigilo. "Nem sempre as polícias estão preparadas para lidar com esse tipo de crime, que muitas vezes é cometido por quadrilhas que não estão nem no Brasil."
Para o coordenador do Fórum, ampliar os investimentos é importante, mas a resposta passa também por uma maior integração entre os órgãos públicos. "A questão orçamentária é importante, sim. Mas a gente tem necessidade de integrar não só as diferentes forças. A gente tem visto cada vez mais a importância da Receita Federal, do COAF e do próprio Banco Central. É uma integração, de fato, interagências."
Ao comentar os indicadores do anuário, Leonardo afirma que a melhora dos índices de homicídios e roubos não elimina a sensação de insegurança da população. Isso porque, apesar da queda, crimes como roubos e furtos de celulares continuam em níveis elevados e afetam diretamente o cotidiano dos brasileiros.
"Quando olhamos homicídio e letalidade policial, identificamos zonas de concentração. Não é que as pessoas sejam mortas de maneira homogênea no território. No caso do roubo e furto de celular, quando olhamos isso no mapa, vemos que acontece na cidade inteira. Isso impacta diretamente a percepção de segurança da população, porque todo mundo conhece alguém que teve um celular roubado ou furtado", diz.
Leonardo acrescenta que a ampla disseminação de câmeras de monitoramento também influencia essa percepção.
"É diferente de ouvir que teve um roubo. Outra coisa é ver como aquele roubo aconteceu, reconhecer a sua rua, reconhecer aquele caminho por onde passa cotidianamente."
Para as eleições de 2026, o coordenador do Fórum defende que o debate sobre segurança pública seja pautado por propostas estruturais e baseadas em evidências.
Na avaliação dele, o país precisa ampliar a integração entre os órgãos públicos e superar modelos que, segundo afirma, não produziram melhorias estruturais na segurança pública nas últimas décadas.