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Flávio é o maior derrotado, mas tarifaço será guerra de narrativas, dizem analistas

O governo Donald Trump anunciou novas tarifas aos produtos brasileiros após uma investigação feita contra o Brasil, por meio da Seção 301, iniciada em julho de 2025

Flávio Bolsonaro: os analistas ponderam que Flávio mantém força entre os eleitores bolsonaristas e continua como o nome mais competitivo desse campo (Vittor Sales/Divulgação pré-campanha Flávio Bolsonaro/Divulgação)

Flávio Bolsonaro: os analistas ponderam que Flávio mantém força entre os eleitores bolsonaristas e continua como o nome mais competitivo desse campo (Vittor Sales/Divulgação pré-campanha Flávio Bolsonaro/Divulgação)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 17 de julho de 2026 às 09h38.

O novo tarifaço dos Estados Unidos coloca Flávio Bolsonaro (PL) como o principal derrotado político neste primeiro momento, mas deve abrir uma guerra de narrativas durante a campanha presidencial, avaliam analistas políticos ouvidos pela EXAME.

O governo Donald Trump anunciou novas tarifas aos produtos brasileiros após uma investigação feita contra o Brasil, por meio da Seção 301, iniciada em julho de 2025.

No começo de junho, o USTR, um órgão do governo americano, concluiu que o Brasil age de forma não razoável no comércio bilateral, por práticas como o uso do Pix, a taxação do etanol americano e a falta de combate à corrupção e ao desmatamento.

Uma série de exceções, que inclui café, carne, frutas e partes de aviões, entre outros, foi adicionada pela gestão Trump.

O governo Lula disse que a decisão americana tem motivos políticos e culpa a família Bolsonaro. Flávio, por sua vez, afirmou que o tarifaço ocorreu porque Lula atacou Trump e o governo americano. 

Para Cila Schulman, CEO do instituto de pesquisa Ideia, o senador foi prejudicado pela atuação política de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, junto ao governo americano.

“Agora vai ser a chamada guerra de narrativas. Por enquanto, o maior derrotado é Flávio, que foi meter a colher em um assunto negativo, mal engendrado na gênese pelo irmão Eduardo. Amanhã, também pode chamuscar Lula”, afirma.

Segundo Schulman, a principal mudança para a disputa eleitoral será a entrada da política externa em uma campanha tradicionalmente concentrada em temas domésticos, como economia, segurança pública, saúde e corrupção.

“O que é certo é que o tema da soberania e das tarifas estará na campanha que começa oficialmente em agosto. Política externa nunca é tema de eleição brasileira. Desta vez, veremos a relação com os Estados Unidos no debate a partir da economia”, diz.

Na avaliação de Fabio Zambeli, diretor de Public Affairs, área de relações institucionais e assuntos públicos do Grupo In Press, o cenário tende a favorecer Lula com mais clareza do que no primeiro tarifaço.

"A família Bolsonaro já está politicamente associada às sanções impostas pelos Estados Unidos ao Brasil. Essa vinculação foi construída pela atuação de Eduardo Bolsonaro e de seus aliados junto ao governo americano no ano passado, e suas sequelas continuam sendo administradas pela candidatura de Flávio", afirma.

Tarifaço permite a Lula mudar o eixo da campanha

Para Zambeli, embora a decisão tenha respaldo formal em uma investigação comercial, as declarações de integrantes do governo Trump politizam a medida e deixam mais visível a conexão entre a Casa Branca e o bolsonarismo.

Na visão do analista, o episódio favorece Lula ao reforçar um discurso de defesa da soberania nacional.

"O presidente entraria na campanha submetido a um plebiscito sobre a própria gestão, carregando problemas de avaliação, imagem e rejeição. O tarifaço permite deslocar parcialmente esse eixo. Trump volta a ocupar a cena política brasileira e Lula passa a disputar a eleição também como chefe de Estado diante de uma pressão externa, e não apenas como governante cobrado pelo desempenho doméstico", diz o analista.

Zambeli afirma que a relação com o governo americano poderia beneficiar o bolsonarismo no debate sobre segurança pública.

Flávio teve uma vitória recente com a definição do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo governo americano. Uma das principais preocupações dos brasileiros, a segurança pública é um dos temas em que Lula e PT enfrentam dificuldades.

O problema para o senador, segundo o analista, é que a agenda passou da segurança para a economia. Quando a proximidade com Washington aparece associada a tarifas, barreiras comerciais e possíveis perdas para empresas, trabalhadores e setores produtivos, a defesa política se torna mais difícil.

“Vejo o episódio como bastante negativo para Flávio. Ele se soma a uma sequência de crises políticas, familiares e partidárias e ajuda a formar uma espécie de policrise em torno da candidatura”, diz Zambeli.

O analista pondera que Flávio mantém força entre os eleitores bolsonaristas e continua como o nome mais competitivo desse campo. O início oficial da campanha também poderá abrir espaço para uma recuperação.

"O quadro imediato, porém, é crítico: o tarifaço fortalece a narrativa de Lula, amplia a rejeição potencial ao adversário e coloca Flávio na posição desconfortável de explicar por que sua proximidade com o governo americano não impediu, ou teria contribuído politicamente para, uma medida contrária aos interesses econômicos brasileiros", afirmou.

A leitura dos analistas dialoga com a pesquisa Genial/Quaest divulgada na quinta-feira, 16, que mostrou avanço da percepção favorável a Lula no episódio e maior associação do tarifaço à família Bolsonaro.

Os dados mostram que 51% dos entrevistados concordam com a avaliação de Lula, enquanto 30% concordam com a versão apresentada por Flávio Bolsonaro, de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não teria sido incentivado a taxar produtos brasileiros.

A pesquisa também mostra que 42% dos eleitores afirmam que o tarifaço aumenta a vontade de votar em Lula, alta de três pontos percentuais em relação ao levantamento anterior. Já 27% dizem que a medida aumenta a disposição de votar em Flávio Bolsonaro, queda de três pontos na comparação com junho.

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