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Estrangeiros acham o Brasil um dos piores lugares do mundo

Insegurança, péssimos serviços públicos e alto custo de vida: o Brasil cai ainda mais no ranking dos melhores lugares para um estrangeiro viver
 (Reuters/Ricardo Moraes)
(Reuters/Ricardo Moraes)
Por Lourival Sant'Anna Publicado em 03/05/2017 16:58 | Última atualização em 03/05/2017 16:58Tempo de Leitura: 6 min de leitura

Reportagem publicada originalmente em EXAME Hoje, app disponível na App Store e no Google PlayPara ler reportagens antecipadamente, assine EXAME Hoje.

É quase sempre desconcertante ouvir a opinião de estrangeiros sobre nosso país. Nossa auto-imagem em geral destoa de como somos vistos por pessoas de fora — para bem e para mal. Mas o resultado da pesquisa Expat Insider 2016, realizada com 14.272 expatriados associados à rede InterNations, é preocupante. De 67 países avaliados, o Brasil ficou em 64.º lugar no ranking dos melhores lugares para um estrangeiro viver. Só Nigéria, Grécia e Kuwait são piores. Taiwan, Malta, Equador, México e Nova Zelândia são os cinco primeiros colocados.

O questionário, feito com pessoas de 174 nacionalidades, abordando 43 aspectos da vida em outro país, não é importante apenas para a auto-estima dos pesquisados. Boa parte desses entrevistados é composta por executivos e profissionais de empresas multinacionais e por seus familiares. A decisão de uma empresa de investir num país e o sucesso da empreitada dependem de muitos fatores, entre eles a imagem que os executivos nutrem a seu respeito, e como se sentem nele. É, noutras palavras, um ativo econômico estar bem nesse ranking.

Mas o que há de tão profundamente errado com o Brasil, para os estrangeiros que passam por aqui? No relatório da pesquisa, o capítulo sobre o Brasil tem o terrível título “No festa for this country” (“Sem festa para este país”). O Brasil vem numa queda livre no ranking elaborado anualmente: 42.º em 2014, 57.º em 2015 e 64.º no ano passado, quando a pesquisa divulgada esta semana foi realizada.

Um dos motivos é a relação entre os salários pagos pelas multinacionais e o custo de vida nas grandes cidades brasileiras, onde se concentram os profissionais estrangeiros e suas famílias. No ano passado, 11% dos entrevistados disseram que seu salário não era suficiente para viver no Brasil. Mais da metade — 58% — se declarou preocupada com seu futuro financeiro, e 53% disseram que o custo de vida é alto (a média mundial foi de 32%). É preciso considerar, aqui, não só os preços das coisas, quando convertidos e comparados com outros países, mas também o fato de que, no Brasil, não se pode contar com serviços públicos, como saúde, educação, transporte e até segurança. Quase tudo entra no orçamento familiar.

Dois outros pontos negativos destacados no Brasil são a incerteza política e, claro, a criminalidade. Apenas 16% consideraram a estabilidade política um fator positivo, quando na média mundial esse item alcançou 61%. E apenas 20% classificaram sua segurança pessoal como boa, ante uma média de 77% no mundo.

O clima, naturalmente, é um ponto alto reconhecido no Brasil: apenas 8% lhe deram uma nota negativa, enquanto no mundo essa média é de 22%. “Infelizmente, o país não parece ter muito mais a oferecer para melhorar a qualidade de vida dos expatriados, ficando em 62.º nesse item”, observa o relatório.

A infra-estrutura de transporte, por exemplo, é considerada ruim por 60% dos entrevistados no Brasil — ante 25% no mundo. Na categoria “atendimento de saúde e bem-estar”, o país está em 61.º lugar. Apenas 35% acham que a saúde não é cara, em comparação com 55% no mundo, e 36% disseram estar descontentes com sua qualidade.

A atitude dos brasileiros em relação às crianças (no caso, os filhos dos expatriados) foi considerada muito boa por 55% dos entrevistados, enquanto no mundo esse índice atingiu apenas 39%. Entretanto, só 28% acham boa a qualidade da educação, ante 64% na média mundial. E 55% dos pais estrangeiros temem pela segurança de seus filhos no Brasil, quando no mundo são apenas 11%. Por tudo isso, no Índice de Vida Familiar, o Brasil ficou em último lugar, de um total de 45 países avaliados.

O estereótipo da cordialidade é confirmado na pesquisa: 85% consideraram positiva a amabilidade (friendliness) da população e 81%, sua atitude em relação a residentes estrangeiros. Sessenta e três por cento dos expatriados disseram que é fácil fazer amigos brasileiros. No mundo, esse índice é 45%. Esses tópicos levaram o Brasil para o 11.º lugar na categoria Amabilidade. Isso, apesar de 70% afirmarem ser muito difícil viver no Brasil sem falar português. Taiwan ficou em primeiro lugar no ranking geral e também entre os dez mais bem colocados em todas as categorias. A ilha para onde fugiram os capitalistas chineses depois da revolução comunista na China em 1949 se destaca na qualidade e no preço baixo dos serviços de saúde. Declararam-se completamente satisfeitos com seus empregos 34% dos expatriados em

Taiwan, quando a média mundial é 16%. Além disso, 90% elogiam a cordialidade dos taiwaneses em relação aos estrangeiros. As ilhas agradam os expatriados. Malta vem em segundo lugar no ranking geral. A ex-colônia britânica no Mediterrâneo ficou no topo dos rankings sobre facilidade de se estabelecer no país, adaptar-se à cultura local e fazer amigos.

O Equador liderou os rankings anteriores, pela mesma razão que levou Taiwan a desbancá-lo: a qualidade e o baixo custo do atendimento à saúde. Entretanto, a crise econômica causada pela queda do preço do petróleo (seu principal produto de exportação) e de outras commodities rebaixou o país ao terceiro lugar. A facilidade de se estabelecer no México foi o principal fator que o levou ao quarto lugar na lista.

Kuwait, Grécia e Nigéria figuraram nos últimos lugares do ranking também nos anos anteriores. O que empurra os kuwaitianos para baixo é a falta de amabilidade e de qualidade de vida, na percepção dos estrangeiros. Junto com Catar e Arábia Saudita, o Kuwait recebeu as piores notas das mulheres. Todos os países árabes do Golfo Pérsico estão nas 15 últimas posições no Índice da Vida Familiar, por causa das dificuldades religiosas e culturais e do calor insuportável. O Kuwait nem sequer figura nesse índice, que reúne 45 países, porque não houve entrevistados suficientes para responder a esse item. Ou seja, a grande maioria dos profissionais estrangeiros simplesmente não vai com suas famílias para o emirado.

O que mantém a Grécia na penúltima posição é a relação entre os salários pagos aos estrangeiros e o custo de vida. Apenas 25% dos entrevistados estão satisfeitos com sua situação financeira, frente à média mundial de 64%. E 53% dizem que sua renda não é suficiente para cobrir suas despesas. A Nigéria também tem um custo de vida muito alto: muitos executivos disputam as poucas habitações adequadas para viverem em segurança, conforto e limpeza. O país está em 60.º lugar em qualidade de vida, dada a precariedade do acesso a saúde, água potável, etc. Apenas 2% dos expatriados estão satisfeitos com as opções de lazer no país. Pelos olhos dos expatriados, muitas vezes enxergamos melhor o que sempre esteve ao nosso redor, que de tão familiar se tornou invisível.