Entenda de que forma a troca de presidente dos EUA pode afetar o Brasil

A primeira cobrança que deve vir de fora, com a saída de Donald Trump, é quanto à agenda ambiental, dizem especialistas

A saída de Donald Trump e a entrada do novo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, na Casa Branca simboliza uma mudança de discurso capaz de afetar o Brasil de diferentes maneiras. Isolado em algumas narrativas, agora sem o apoio dos EUA em muitas delas, o governo brasileiro deverá sofrer mais pressão externa em alguns pontos e precisará pensar em uma atuação menos combativa e mais aberta, avaliam especialistas.

“Acho que, de imediato, o que muda é o ambiente ideológico no qual o Brasil se insere”, afirma o professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Carlos Poggio, especialista em política americana. Além de o discurso trumpista perder força, a agenda norte-americana também passa a ter outros focos, deixando o Brasil sozinho em alguns discursos. “Biden traz temas que não interessam à política externa de Bolsonaro, como a questão do meio ambiente”, diz Poggio.

A mudança para um viés mais multilateral, passada a fase mais nacionalista de Trump,  também pode ter consequências em vários países, inclusive o Brasil. “O governo Trump bombardeou todas as organizações multilaterais. Já a visão de mundo democrata tende a ser mais alinhada com princípios do multilateralismo, relação com FMI, OMC, Acordo de Paris. Isso tudo é contra a visão que a administração Bolsonaro tem”, aponta o especialista em Relações Internacionais Wagner Parente, CEO da consultoria BMJ.

Mais isolamento

Para o analista político Thiago de Aragão, diretor de estratégia da Arko Advice, o maior prejuízo que o Brasil pode ter, se não sinalizar alguma mudança, “é ser esquecido ou ter uma opinião que não importa”. Segundo ele, o país já está isolado, mas a situação pode se agravar, caso o país não se mostre mais pragmático e menos ideológico. “Se a animosidade for acentuada, vai piorar. E a pior resposta que os Estados Unidos e os outros países podem dar é ignorar o Brasil”, diz.

Para Aragão, existe risco eventual de desentendimentos públicos com o novo presidente dos EUA, mas, assim como no resto das questões, isso vai depender mais do lado brasileiro do que do americano. “Biden não vai, a troco de nada, iniciar embates verbais com o Brasil. Não é do perfil dele. E o Brasil não é tão prioridade assim. Existem 15, 20 países mais importantes para a política americana”, diz. O mesmo vale para "reconciliações" e sinalizações positivas, que devem partir do Brasil.

O que pode acabar acirrando os ânimos em relação ao Brasil em alguns casos é o fato de o novo presidente ter uma relação mais sólida com o seu partido, o Democrata, do que Trump tinha com o partido Republicano. “Biden escuta  muito os democratas, e muitos têm uma visão bem negativa do Bolsonaro e de vários outros temas relacionados ao Brasil, como meio ambiente, direitos humanos e até a questão da covid-19”, diz Aragão.

Meio Ambiente

A primeira cobrança que deve vir de fora, com a saída de Trump, é quanto à agenda ambiental, avalia Wagner Parente, da BMJ. O desmatamento na Amazônia e a postura em relação ao aquecimento global são assuntos que devem ser atacados de imediato pelo novo governo dos EUA. “A pressão em cima da administração Bolsonaro aumenta muito nesse sentido”, afirma Parente. 

A cobrança não é surpresa. Biden falou abertamente sobre o assunto em 2020. “O presidente Bolsonaro precisa saber que, se o Brasil falhar na sua tarefa de guardião da floresta Amazônica, o meu governo irá congregar o mundo para garantir que o meio ambiente esteja protegido", disse, em março de 2020, à  revista Americas Quartely. A vice de Biden, Kamala Harris, também já se posicionou em várias ocasiões sobre o assunto, mesmo antes da campanha eleitoral. 

Além de ter mostrado que vai fazer pressão sobre o governo brasileiro em relação à Amazônia, Biden anunciou que os EUA voltarão para o Acordo de Paris sobre o clima e retornarão à Organização Mundial da Saúde (OMS), instituição que foi criticada pelo governo brasileiro, quando encontrava eco no discurso de Trump. A dúvida é, novamente, sobre qual será a resposta do Brasil às mudanças e às novas pressões. 

A permanência dos ministros Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente, é considerada pelos especialistas um sinal de que o governo não pretende mudar os rumos. “Não vejo expectativa de melhorar, porque, para a liderança da política externa brasileira, existe a percepção de que nada está errado ou precisa ser corrigido”, avalia o especialista da Arko Advice.

“O Brasil deve ser confrontado desde o início da gestão Biden em relação a isso, e deve haver atritos”, acredita Poggio. Há a possibilidade de sanções econômicas, caso o Brasil não cumpra acordos ou diminua o desmatamento na Amazônia. Mas, para Aragão, medidas mais drásticas são improváveis. “O que pode existir é a narrativa ficar mais agressiva, a pressão aumentar, mas isso acontece de forma escalonada. É extremamente megalomaníaco e insano pensar que haveria uma invasão, por exemplo”, diz. 

Para o analista da Arko Advice, é possível que os EUA condicionem o fechamento de acordos a metas de desmatamento, por exemplo, ou argumente que não pode avançar em algum acordo com o Brasil por questões ambientais. “Pode suspender importação de produtos. Isso não é sanção, é escolha comercial. Sanção é proibir a importação do seu produto para aquele país e proibir os aliados de comprarem. Isso não vai acontecer”, afirma. 

A pressão em relação ao meio ambiente também deve vir da União Europeia, que já condiciona a ratificação do acordo de livre comércio com o Mercosul, realizado no ano passado, a políticas ambientais mais rígidas. Em mais um sinal ao governo Bolsonaro, no último dia 12, o presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que “depender da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia”. 

Disputa com a China

A mudança no tom da disputa dos Estados Unidos com a China também pode afetar o Brasil. “A relação entre os dois continuará tensa, mas tende a ser menos enfática. A pressão não vai baixar, mas Biden dificilmente terá discurso tão agressivo quanto teve Trump, em relação a aspectos comerciais, divulgação de fake news e discurso de ‘vírus chinês’”, diz Parente. 

Mais uma vez, um movimento que isola o presidente Jair Bolsonaro, que se coloca como um crítico ferrenho da China. “Caso o Brasil não mude o discurso em relação aos chineses, vai se prejudicar, inclusive em relação à vacina, que é a consequência mais imediata que podemos ver agora”, diz Parente. Após tantos ataques, o Brasil já tem tido dificuldades para conseguir insumos do país para produção de imunizantes em território nacional. “É muito complicado ficar atacando a China se você não tem uma potência como os EUA para dar amparo a esse tipo de discurso”, avalia.

Segundo o especialista da BMJ, a postura do Brasil em relação a essa disputa pode prejudicar economicamente o país, já que a China é o maior consumidor de bens brasileiros. Outro efeito possível, acrescenta Aragão, é a mudança no fluxo das transações comerciais. Pode ser que haja intensificação do comércio entre Estados Unidos e China, de forma que o fluxo de dinheiro chinês diminua no Brasil. “Nesse caso, pode gerar um efeito em cadeia que afete a economia brasileira”, pondera. 

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