Produção da cinebiografia de Jar Bolsonaro é investigada (Divulgação/-)
Publicado em 10 de setembro de 2026 às 13h10.
Última atualização em 10 de setembro de 2026 às 13h15.
A Polícia Federal (PF) investiga uma suposta organização criminosa que teria articulado emendas parlamentares, contratos públicos e empresas privadas em uma rede de movimentações financeiras que inclui a produtora GoUP, do filme Dark Horse, obra sobre Jair Bolsonaro, e entidades comandadas pela empresária Karina Ferreira da Gama.
A operação deflagrada nesta quinta-feira, 10, colocou no centro do caso o deputado federal Mário Frias e a empresária Karina Ferreira da Gama, presidente do Instituto Conhecer Brasil (ICB) e da Academia Nacional de Cultura (ANC). Segundo a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), Frias é apontado como líder do núcleo político da suposta organização criminosa, enquanto Karina aparece como integrante do núcleo operacional responsável pela gestão das entidades e pela relação com empresas contratadas.
A apuração reúne suspeitas sobre o uso de recursos de emendas parlamentares, mecanismo pelo qual deputados e senadores indicam a destinação de verbas públicas, contratos firmados por organizações sociais e pagamentos entre empresas ligadas aos investigados.
Segundo a decisão judicial, a conexão entre diferentes investigações ocorreu após a identificação de vínculos financeiros e operacionais entre fraudes envolvendo recursos municipais e estaduais em São Paulo e verbas federais destinadas por meio de emendas parlamentares.
A partir desse entendimento, o ministro Flávio Dino determinou que inquéritos e medidas cautelares que tramitavam na Justiça Estadual de São Paulo fossem transferidos para o STF. A decisão considerou a existência de uma possível atuação coordenada entre diferentes núcleos e a presença de autoridade com foro por prerrogativa de função, direito previsto para determinados cargos públicos.
A operação autorizou buscas em 53 endereços de pessoas físicas e jurídicas, apreensões pessoais contra 11 investigados, suspensão das atividades do Instituto Conhecer Brasil e da Academia Nacional de Cultura, além da proibição de contratação com o poder público para 22 empresas.
A investigação é baseada em auditorias da Controladoria-Geral da União (CGU) e em Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão responsável por identificar movimentações financeiras consideradas suspeitas.
Segundo a decisão do STF, Mário Frias teria ocupado a posição de liderança política dentro da estrutura investigada. A PF analisa a destinação de R$ 2 milhões em emendas parlamentares individuais para o Instituto Conhecer Brasil por meio de dois termos de fomento.
Os recursos foram destinados a projetos vinculados ao governo federal, entre eles o Jovem Empreendedor, ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e o Lutando pela Vida, relacionado ao Ministério do Esporte.
De acordo com a investigação, parte dos valores pagos pelo instituto teria alcançado empresas e prestadores ligados ao grupo investigado.
A PF também analisou transferências realizadas por Frias para a produtora Go Up Entertainment Ltda., ligada a Karina Gama. Segundo a decisão, foram identificados pagamentos que totalizaram R$ 645,4 mil em menos de dois meses, valor considerado pelos investigadores incompatível com os rendimentos declarados pelo parlamentar no período.
A investigação aponta que empresas beneficiadas por recursos recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil também teriam relações comerciais ou financeiras com pessoas ligadas ao deputado e à empresária investigada.Outro ponto analisado envolve pagamentos realizados com a cota parlamentar da Câmara dos Deputados para empresas do grupo, incluindo serviços descritos como relacionados a CRM Político, ferramenta usada para gestão de relacionamento com eleitores.
Karina Ferreira da Gama aparece na decisão como peça central do núcleo operacional. Além de presidir o Instituto Conhecer Brasil e a Academia Nacional de Cultura, ela é ligada a empresas como a Go Up Entertainment e a GO7 Assessoria.
A investigação aponta que as entidades teriam recebido recursos públicos e contratado empresas que, segundo a PF, apresentavam vínculos familiares, societários ou financeiros entre si.
Entre os indícios analisados estão cotações de preços consideradas fictícias pela CGU. A auditoria identificou propostas de fornecedores diferentes com textos semelhantes, datas próximas e sinais de que teriam sido produzidas pela mesma pessoa ou equipamento.
A CGU também registrou casos em que empresas citadas nos processos negaram ter apresentado os orçamentos utilizados nas contratações.
A produção do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, aparece na investigação por causa da relação financeira envolvendo a produtora Go Up Entertainment, empresa ligada a Karina Gama.
Segundo a PF, a produtora recebeu R$ 750 mil da NTT Brasil, empresa ligada a Heric Dias. Antes disso, editoras associadas ao empresário haviam recebido R$ 700 mil do Instituto Conhecer Brasil em contratos financiados com recursos públicos.
Os investigadores analisam se houve uma triangulação financeira entre empresas contratadas pelo instituto e companhias ligadas aos investigados.
A investigação também identificou despesas relacionadas à produção audiovisual, incluindo gastos de hospedagem durante as filmagens em São Paulo.
A PF avalia se recursos movimentados entre empresas que receberam pagamentos do Instituto Conhecer Brasil foram posteriormente utilizados em atividades relacionadas à produção audiovisual, hipótese que ainda será analisada no decorrer do processo.Um dos contratos analisados envolve o projeto Jovem Empreendedor, que recebeu R$ 1 milhão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
A proposta previa capacitar 2.250 alunos e 250 multiplicadores, além da distribuição de materiais pedagógicos. Segundo a CGU, porém, o contrato terminou sem comprovação da realização das atividades previstas.
A auditoria apontou que videoaulas foram disponibilizadas após o encerramento do contrato e apresentavam baixa visualização.
Outro projeto investigado foi o Lutando pela Vida, também no valor de R$ 1 milhão, destinado a aulas de jiu-jitsu em Pirassununga, no interior de São Paulo.
A PF e a CGU analisaram contratos de fornecimento de equipamentos esportivos. A empresa responsável por uniformes e tatames teria negado, segundo os investigadores, a entrega dos materiais previstos.
A investigação também envolve contratos do Instituto Conhecer Brasil com a Prefeitura de São Paulo, incluindo o projeto Wi-Fi Livre SP, iniciativa de conectividade pública.
O contrato, segundo a decisão, alcançou cerca de R$ 108 milhões e levou a investigação estadual a analisar a rede de empresas subcontratadas pela entidade.
Entre elas está a Urban Connect Serviços e Tecnologia, antiga Favela Conectada, que recebeu R$ 7,87 milhões diretamente das contas do Instituto Conhecer Brasil.
Segundo a decisão do STF, relatórios de inteligência policial apontam o controlador da empresa, Alex Leandro Bispo dos Santos, como integrante relevante do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa com atuação nacional.
A menção ao grupo criminoso foi um dos elementos usados pelo ministro Flávio Dino para justificar a dimensão interestadual da investigação e a transferência do caso para o STF.
A operação investiga suspeitas de:
As acusações ainda serão analisadas no curso da investigação. Os citados terão direito de apresentar suas versões e se defender no processo.
A investigação segue sob responsabilidade da Polícia Federal, com acompanhamento do Supremo Tribunal Federal.