Durigan: ministro da Fazenda afirma que as autoridades brasileiras já estavam investigando as empresas apontadas pelos EUA como ligadas ao narcotráfico (Washington Costa/MF/Flickr/Divulgação)
Publicado em 3 de julho de 2026 às 14h10.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta sexta-feira, 3, que as pessoas e empresas atingidas pelas recentes sanções dos Estados Unidos por suposta ligação com facções criminosas já eram alvo de investigações das autoridades brasileiras.
Em entrevista ao G1, ele também disse que a atuação do governo norte-americano no caso desperta preocupação por representar uma possível "interferência" em assuntos internos do Brasil.
As declarações foram dadas no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou uma operação para desarticular uma organização criminosa especializada na lavagem de dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas. Segundo Durigan, a ofensiva demonstra que as apurações já estavam em andamento antes das medidas anunciadas por Washington.
"Essas empresas já estavam sendo investigadas no Brasil, pela Polícia Federal, pela Receita [Federal]. A gente já sabia, não tem novidade. Hoje mesmo a polícia faz uma operação, quer dizer que a investigação já estava em curso há um tempo", afirmou o ministro ao portal.
Ao todo, a Polícia Federal cumpriu 11 mandados de prisão temporária. Entre os presos está Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, sancionada pelos Estados Unidos na última quarta-feira, 1º, por suposta ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Já o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, também alvo das sanções americanas, é considerado foragido.
O governo dos EUA anunciou nesta quarta-feira, 1º, que aplicou sanções contra pessoas e empresas por ligação com a facção PCC (Primeiro Comando da Capital).
A lista de alvos tem o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, de Santos, SP e Stella Nunes Henrique de Oliveira, que é sua parente, foi sua secretária e é sócia de uma empresa com ele. As seguintes empresas também foram sancionadas:
As sanções fazem parte da primeira rodada de medidas econômicas anunciadas pelos Estados Unidos desde que o governo do presidente Donald Trump classificou, em junho, facções criminosas brasileiras como organizações terroristas internacionais.
Para Durigan, embora o combate às organizações criminosas seja uma prioridade compartilhada pelos dois países, ainda não está claro qual é o objetivo da atuação norte-americana.
"Essas organizações são, de fato, muito ruins e causam terror social no Brasil. E aí, o que a gente fica com dúvida, tanto nós, quanto a população brasileira, é o que será feito com isso. E esse espaço de ataque, esse espaço de interferência dos Estados Unidos no Brasil, sem que a gente saiba exatamente o que se pretende com isso, é o que nos preocupa", declarou ao G1.
Os alvos das sanções anunciadas nesta quarta-feira são acusados pelo governo americano de operar uma rede de lavagem de dinheiro que teria recebido mais de US$ 190 milhões em sete meses.
A rede atuaria principalmente na Flórida e em São Paulo, segundo o Departamento do Tesouro, que impõe as sanções. Em janeiro de 2026, o FBI prendeu na Flórida seis pessoas acusadas de participar do esquema, que teriam ligação com o grupo de criminosos em São Paulo. Shimada é apontado como chefe do esquema.
A lavagem teria sido feita por meio de um esquema envolvendo uma rede chinesa de distribuição de eletrônicos e uma plataforma chinesa de comércio eletrônico, além de criptoativos. Com isso, o dinheiro obtido com o tráfico nos Estados Unidos era trazido de volta ao Brasil, em benefício do PCC. Stella é apontada como colaboradora do esquema. Os dois foram alvo de sanções, assim como as empresas utilizadas no esquema.
“Essa designação é mais um passo do governo dos Estados Unidos para abordar e reconhecer a crescente presença da geração de receita ilícita do Primeiro Comando da Capital dentro de nossas fronteiras”, disse Gene Lange, subsecretário interino para Terrorismo e Inteligência Financeira, no comunicado que anunciou as sanções. “Não podemos permitir que o crime organizado no Hemisfério Ocidental estabeleça operações em solo americano que contribuam para a criminalidade e a ilegalidade.”
Esta é a primeira designação de sanções a pessoas ou empresas brasileiras por ligação com facções desde que os grupos PCC e Comando Vermelho foram designados como terroristas, no final de maio.
O governo brasileiro foi contra a medida, por entender que essa designação abriria espaço para medidas dos Estados Unidos contra o Brasil, com risco para o ambiente de negócios no país.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, defendeu a medida e fez um pedido direto ao presidente Donald Trump, em maio, para que ela fosse adotada.