Em jantar com empresários, Bolsonaro fala sobre vacinação e reformas

Presidente criticou restrições de atividades decretadas por prefeitos e governadores e foi apoiado por parte dos participantes do evento na casa de Washington Cinel, da Gocil, em SP

O presidente Jair Bolsonaro se reuniu na noite desta quarta-feira com um grupo de pelo menos 20 empresários na casa de Washington Cinel, dono da empresa Gocil, do setor de segurança, no bairro dos Jardins, em São Paulo.

Segundo alguns dos participantes, os empresários demonstraram preocupação com a vacinação da população e a crise econômica atravessada pelo país, e voltaram a cobrar reformas estruturais.

De acordo com presentes à reunião, o presidente disse acreditar que o Congresso vai aprovar as reformas enviadas pelo governo. E repetiu algumas vezes que a pandemia não pode levar o Brasil à miséria total.

Elogio a 'tratamento precoce'

Em cerca de 10 minutos de discurso, Bolsonaro elogiou o “tratamento precoce” incentivado pelo prefeito de Chapecó (SC), cidade que visitou, apesar de a cidade estar com UTIs lotadas.

No campo econômico, elogiou o resultado do leilão de aeroportos, que arrecadou R$ 3,3 bilhões nesta quarta-feira como um sinal de confiança no país.

O que mais agradou aos empresários foi a defesa da austeridade fiscal feita por Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central.

Estavam presentes representantes de bancos, como Luiz Carlos Trabuco Cappi, presidente do Conselho de Administração do Bradesco, David Safra, presidente do Banco Safra, e André Esteves, líder do BTG Pactual.

Entre os nomes mais conhecidos estavam Rubens Ometto, da Cosan, Flávio Rocha, da Riachuelo, e o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf.

Boa parte dos presentes não faz parte dos signatários da carta aberta divulgada no mês passado em que empresários e economistas pedem ação responsável do governo para combater a pandemia.

Vários empresários fizeram elogios ao presidente. No grupo, contudo, havia mais empresários alinhados à ideia de Bolsonaro de não decretar um lockdown nacional, embora alguns presentes tenham dito que são favoráveis a algumas medidas de distanciamento social.

Segundo um empresário, “o jantar não foi de cobrança ou de demandas". Bolsonaro também defendeu a abertura das igrejas mesmo diante do pico de infecções e mortes pela Covid-19 no país,
controvérsia que chegou ao Supremo Tribunal Federal.

Participantes usam máscara

Ao GLOBO, um dos empresários disse que "quase 90%" dos presentes, segundo seus cálculos, estavam de máscara durante a maior parte do tempo.

Na saída do encontro, o ministro das Comunicações, Fábio Faria, salientou que tem dúvidas sobre a duração das medidas de isolamento propostas por governadores e prefeitos em todo o país. Embora a restrição de circulação seja indicada por cientistas como forma de frear a disseminação do vírus, ela vem sendo criticada diariamente por Bolsonaro.

— Os empresários demonstraram preocupação muito grande com o desemprego. Essas medidas de restrição temos que tomar cuidado — disse Faria.

Além de Bolsonaro e Faria, também estiveram no jantar os ministros da Economia, Paulo Guedes, da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, e da Saúde, Marcelo Queiroga.

Presidente e auxiliares descrevem empenho na busca de vacinas

Empresários ouvidos pelo GLOBO disseram que Bolsonaro e os demais integrantes do governo deixaram claro que estão fazendo o possível para dar agilidade à campanha de vacinação.

O ministro da Saúde falou sobre o imunizante feito pelo Instituto Butantan e garantiu que espera entregas de vacinas da Fiocruz, da Covax Facility, a coalizão da OMS, e da Sputnik V.

O discurso adotado pelo governo é diferente do que vinha sendo propagado por Bolsonaro até o início do ano, quando chegou a chamar a CoronaVac de “vacina chinesa do (João) Doria” e a ironizar os possíveis efeitos colaterais dos imunizantes já em uso no mundo.

— O empresariado está trabalhando junto conosco para modernizarmos o sistema de saúde — afirmou Queiroga ao deixar a casa de Cinel.

Assim como os outros ministros que falaram ao final do encontro, Queiroga usava máscara.

Imunização na iniciativa privada

Um dos participantes do jantar contou que o principal assunto foi a vacinação contra a Covid-19 e como o setor privado poderia ajudar.

Foi dito ao presidente que a principal preocupação dos empresários é acelerar a vacinação para que a economia reaja, mas que ficou uma impressão ruim para a opinião pública de que o setor privado queria comprar vacinas, imunizar seus funcionários e furar a fila dos grupos prioritários no país.

— Não se trata de furar a fila. As empresas querem adicionar novas doses de vacinas, com a contrapartida de doar uma parte delas ao SUS e vacinar quem está na linha de frente da economia. A questão é que nesse momento a oferta de vacinas é escassa — disse um participante durante o jantar.

Segundo essa fonte, o presidente do Conselho de Adminstração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, disse aos presentes durante o jantar que os bancos ajudaram como puderam nos piores momentos da crise com a liberação de crédito tanto para pequenas empresas como para pessoas físicas.

Empresários evitam críticas diretas

Outro participante do jantar contou que o tom do encontro foi bastante positivo e não houve criticas ao presidente, embora Bolsonaro tenha dito durante sua fala que os empresários "poderiam lhe dar porrada à vontade".

Entre outros empresários que pediram a palavra durante o encontro, estavam Claudio Lottenberg, do Hospital Albert Einstein; André Esteves, do banco BTG; e Alberto Saraiva, do Habib’s.

A organização do jantar planejou uma forma de acomodar os mais de 20 convidados e a comitiva do presidente em duas grandes mesas. Celulares não foram permitidos durante todo o encontro, que durou cerca de 2h30m.

O cerimonial pediu que os aparelhos fossem deixados na entrada da casa, como antecipou o colunista do GLOBO Lauro Jardim.

No último dia 23, Cinel já havia organizado um jantar em sua casa entre empresários e os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG).

Na ocasião, os políticos foram cobrados da reedição da MP 936, que autoriza a redução de jornada e salário e a suspensão de contratos. Na ocasião, Flavio Rocha, dono da Riachuelo, disse que, sem o programa governamental, poderia haver uma “onda de demissões devastadora”.

 

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