Em depoimento evasivo à CPI, Queiroga nega pressão por cloroquina

Senadores reclamam da falta de respostas objetivas sobre temas importantes, como a opinião do ministro sobre a prescrição de cloroquina e o decreto para acabar com lockdown
 (Jefferson Rudy/Agência Senado/Flickr)
(Jefferson Rudy/Agência Senado/Flickr)
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Alessandra Azevedo, de Brasília

Publicado em 06/05/2021 às 12:39.

Última atualização em 06/05/2021 às 12:41.

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, negou nesta quinta-feira, 6, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, que tenha recebido orientação do presidente Jair Bolsonaro para recomendar o uso de cloroquina no tratamento precoce de covid-19. Chefe da pasta desde 23 de março deste ano, Queiroga também garantiu que, no período, não autorizou a distribuição do medicamento.

“Não tenho conhecimento de estar havendo distribuição de cloroquina na nossa gestão”, disse o ministro. Segundo ele, não há nenhuma pressão para que o medicamento seja mantido nos protocolos do Sistema Único de Saúde (SUS) para tratamento da doença. "Não há pressão nenhuma", afirmou. "Na minha gestão, não houve qualquer tipo de pressão de quem quer que seja para manutenção de qualquer fármaco em protocolo clínico e diretriz terapêutica", disse. 

Perguntado pelo relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), se concorda com a recomendação e se compartilha do ponto de vista do presidente, Queiroga respondeu apenas que era uma “questão técnica”, e que, por isso, não iria se manifestar. "Está sendo elaborada um protocolo clínico, e sou a última instância decisória. Se manifesto opinião aqui, vou invalidar todo esse procedimento", disse.

A postura evasiva de Queiroga, especialmente quando perguntado sobre a cloroquina, incomodou boa parte dos senadores — entre eles, o relator e o presidente, senador Omar Aziz (PSD-AM), que alegaram que o ministro estava se negando a responder perguntas importantes de forma objetiva. Aziz chegou a dizer que, se ele mantivesse essa postura, seria melhor já terminar o depoimento. 

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) também criticou a falta de resposta e insistiu na pergunta sobre a recomendação de cloroquina. “Não é possível que o senhor não tenha uma opinião sobre a cloroquina”, disse o senador. Ainda sem resposta, ele comentou que "estamos muito mal de Ministro da Saúde”, se ele não tem nada a declarar sobre esse tipo de questionamento.

Evasivo

Além de não ter falado se concorda com a prescrição da cloroquina, Queiroga não comentou sobre a situação do ministério quando tomou posse, nem disse se estava de acordo com o decreto que Bolsonaro anunciou que assinaria para acabar com o lockdown. Ele argumentou que não faria “juízo de valor” sobre assuntos de competência do Planalto.

O que o presidente falou comigo acerca desse tema é que ele queria assegurar a liberdade das pessoas. Assegurar a liberdade das pessoas, eu concordo", respondeu Queiroga sobre o decreto, após insistência na pergunta por parte de Renan. "O que nós vamos adotar são medidas para evitar essas situações extremas onde haja fechamentos de cidades. Nessa questão de fechamentos nacionais, não há também um consenso acerca desse tema", disse.

O ministro deixou claro, entretanto, que não foi ele que sugeriu a medida e assegurou que não está participando da elaboração do decreto, o que levou Renan a perguntá-lo se Bolsonaro contava com um “assessoramento paralelo”, como apontou o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, em depoimento na terça-feira, 4. Queiroga disse que não tem “conhecimento disso” e que, por isso, também não comentaria o assunto.

A situação rendeu discussões entre os senadores. Renan e o vice-presidente da comissão, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), apontaram para uma tentativa de obstrução dos trabalhos. Já governistas acusaram o relator de “induzir” respostas, ao que Aziz respondeu que falar a verdade é obrigação de Queiroga, como testemunha. “Ele fez um juramento aqui”, lembrou. 

No início do depoimento, Queiroga também evitou responder o que faltou ao Brasil, na opinião dele, para evitar o alto número de mortes e o colapso no sistema de saúde. “Não temos uma resposta exata para essa situação, porque lidamos com um vírus que tem uma imprevisibilidade biológica extrema”, disse. Novamente, ele só respondeu após insistência na pergunta. 

Queiroga admitiu que faltou “fortalecimento do Sistema Único de Saúde”. Segundo ele, o país, antes da pandemia, estava com “UTIs lotadas, dificuldades nos pronto atendimentos, problemas em formação de médicos especialistas”. Para ele, “é um dos pontos que faltaram, sobretudo para atender os pacientes com síndromes respiratórias agudas graves”.

Um dia depois do ex-ministro Nelson Teich ter afirmado que saiu do ministério porque não tinha autonomia para conduzi-lo, o atual ministro fez questão de ressaltar que gestão dele é "autônoma". Segundo ele, não houve, por exemplo, nenhuma pressão para colocar pessoas indicadas pelo presidente em cargos importantes no Ministério da Saúde.