Tarcísio e Haddad: debate foi marcado por disputa pela paternidade das realizações no estado de São Paulo (Globo/ Bob Paulino/Divulgação)
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 23h47.
Última atualização em 30 de setembro de 2026 às 00h48.
O último confronto cara a cara entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) antes do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026 foi marcado pela nacionalização e segurança pública.
O encontro aconteceu nesta terça-feira, 29, durante o debate da Globo.
Os candidatos, desde o primeiro bloco, discordaram sobre a paternidade de feitos para o estado. Tarcísio defendeu que os avanços foram possíveis pelo trabalho da sua gestão, enquanto Haddad afirmou que o governo federal foi responsável por enviar recursos ao estado.
A economia também teve parte importante do debate, com Tarcísio criticando a atuação de Haddad à frente do Ministério da Fazenda e as contas do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em um dos momentos mais quentes do debate, Tarcísio chamou Haddad de Pinóquio, enquanto o petista disse que o atual governador não “aceita os dados”.
As últimas pesquisas mostram Tarcísio na liderança com larga vantagem, acima de 50% das intenções de voto. Se esse cenário acontecer no próximo domingo, o governador pode ser reeleito no primeiro turno.
Tanto Tarcísio quanto Haddad estiveram com seus principais aliados na plateia do debate. Márcio França, candidato a vice, e as candidatas ao Senado, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) acompanharam o petista. André do Prado (PL), Guilherme Derrite (PP) e Felício Ramuth (MDB) estiveram do lado do atual governador. O prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), também esteve presente.
No primeiro bloco, com temas determinados a serem escolhidos pelos candidatos, Haddad começou perguntando para Tarcísio sobre segurança pública e o avanço do crime organizado no estado.
O ex-ministro questionou a atuação do governo estadual na área e afirmou que Tarcísio estaria negando a presença de organizações criminosas em determinadas regiões do estado.
“As primeiras notícias da presença do CV [Comando Vermelho] são nesta região. Quando afirmei isso em uma entrevista, você debochou. Você vai continuar negando esse fato? E, se não, como vai combater essa situação?”, perguntou.
Em resposta, Tarcísio defendeu os resultados da política de segurança de sua gestão e disse que o estado alcançou os menores indicadores criminais da série histórica.
“Agradecendo a Deus, fizemos um trabalho muito sério. Chegamos aos menores indicadores da nossa história. Fizemos uma operação conjunta com a polícia boliviana, operação no setor de transportes, no setor de combustíveis. A cada três dias tivemos uma operação diferente”, afirmou.
O governador também citou ações contra a concentração de usuários de drogas na região central da capital paulista.
“Temos que comemorar o fim da Cracolândia, essa chaga na região central. A nossa polícia trabalhou. O menor indicador da história. Vamos continuar combatendo o crime com firmeza, sabemos que tem muita coisa para fazer”, disse.
Haddad rebateu dizendo que os indicadores de segurança ainda apresentam problemas e citou dados sobre violência contra grupos específicos e roubos de celulares. “Estamos batendo recorde de feminicídio, de crimes raciais e contra a comunidade LGBT. Em cada dez celulares roubados no Brasil, três são no estado e dois na cidade de São Paulo”, afirmou, mencionando o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
O candidato do PT também criticou o afastamento do comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, coronel José Augusto Coutinho, em abril de 2026, após recomendação do Ministério Público, e questionou a atuação do governo no combate ao crime organizado.
“Você tem hoje uma infiltração inclusive nas organizações sociais da saúde. Precisamos ter uma agência antifacção com presença da Polícia Federal e da Receita Federal, sem disputa de protagonismo. Quem precisa estar acima de tudo é o cidadão”, afirmou Haddad.
O petista defendeu ainda a criação de mecanismos de integração entre as forças de segurança. “Você vai fazer um boletim de ocorrência em tempo real, permitindo o planejamento das agendas das forças policiais. A Polícia Civil de São Paulo é uma das mais mal pagas do país”, disse.
Tarcísio respondeu que o combate ao crime depende da atuação conjunta das polícias Civil e Militar e citou medidas adotadas durante sua gestão.
“O Ministério Público não combate o crime sozinho. Temos uma competente Polícia Militar e uma competente Polícia Civil. Fizemos concurso, incorporamos novos policiais e melhoramos os indicadores”, afirmou.
O governador também mencionou mudanças na carreira da Polícia Civil. “A gente mudou a carreira da Polícia Civil, permitiu a ascensão. Todo policial civil pode chegar à classe especial, algo que era um tabu e não existia aqui”, disse.
Na sequência, Haddad citou o ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União Brasil), ao criticar a relação política de Tarcísio com aliados e pessoas próximas a grupos investigados. Leite foi preso durante operação que investiga a infiltração do crime organizado no setor de transporte na cidade de São Paulo.
O petista também afirmou que o governo estadual precisaria agir diante de suspeitas de infiltração do crime organizado em diferentes áreas da administração.
“Você tem hoje uma infiltração inclusive nas organizações sociais da saúde. Precisamos ter uma agência antifacção com presença da Polícia Federal e da Receita Federal”, disse.
Tarcísio respondeu que a relação com Milton Leite e outros aliados foi institucional e negou que integrantes citados pelo adversário tivessem participação no governo estadual.
“A questão do palanque com a família Leite, a relação sempre foi institucional. O que eu sempre tratei com eles foi saneamento básico dos mananciais, habitação, duplicação da Iguatemi, ponte do Grajaú, aquilo que diz respeito à vida do cidadão. Eles não têm nada no governo do estado de São Paulo, absolutamente nada”, afirmou.
O governador também mencionou uma operação policial envolvendo um vereador do PT e criticou a participação de Haddad em eventos políticos com pessoas que, segundo ele, não deveriam estar presentes.
“A questão do vereador do PT, você sabe disso, a operação foi esse ano. Você não deveria ter estado no palanque com uma líder do PCC atacada pelo Ministério Público. O ministro das Cidades sabia desse risco, e a gente avisou”, disse Tarcísio.
Ele afirmou ainda que o governo estadual tem atuado contra organizações criminosas e voltou a citar ações de inteligência.
“A gente está combatendo o crime organizado. É muito triste ver você querer tomar para si uma propriedade junto com a Carbono Oculto. A Carbono Oculto foi desenhada aqui em São Paulo, começou aqui em São Paulo. Nossa inteligência trabalhou nisso”, declarou.
No segundo embate direto entre os candidatos, Tarcísio questionou Haddad sobre propostas para a área da saúde. O petista respondeu criticando o funcionamento da rede estadual, especialmente na Baixada Santista.
Haddad afirmou que a situação da saúde em São Paulo é “muito delicada” e citou filas de atendimento do SUS. “No governo estadual, nós tivemos que repor o piso da saúde. Distribuímos isso entre todos os governadores, sem nenhuma discriminação, como é nossa obrigação. Contudo, a fila do SUS andou 42% mais rápido no Brasil e aqui apenas 32%”, afirmou.
Segundo o candidato do PT, determinados procedimentos teriam registrado aumento de espera no estado. “Tem um relatório do Tribunal de Contas da União que diz que, em determinados procedimentos de cirurgia em São Paulo, a fila aumentou 300%. A fila não anda porque o planejamento é mal feito. Você entra em três filas: da consulta, do exame e da cirurgia”, disse.
Haddad também criticou a estrutura da Baixada Santista e afirmou que São Paulo é o único estado sem financiamento estadual para o Samu, segundo sua declaração. Ele defendeu a criação de hospitais-dia para desafogar hospitais gerais.
Tarcísio respondeu citando a criação da Tabela SUS Paulista, mecanismo estadual de complementação de recursos para procedimentos realizados por hospitais filantrópicos e municipais, além da abertura de novos leitos.
“A gente entregou o hospital de Peruíbe, entregamos hospitais que estavam no imaginário das pessoas. Vamos entregar a maternidade de São Vicente, um centro de especialidades novo em Cubatão e um hospital no Guarujá”, afirmou.
O governador disse que a política de complementação de recursos permitiu ampliar a capacidade da rede.
Segundo Tarcísio, o estado abriu 8,8 mil leitos durante sua gestão e reduziu a fila de cirurgias eletivas. “São Paulo historicamente fazia entre 720 mil e 750 mil cirurgias por ano. Estamos fazendo mais de 1,4 milhão. Nós tínhamos, em 2022, 570 mil pessoas esperando uma cirurgia eletiva. Hoje temos 156 mil”, afirmou.
Haddad contestou os números apresentados pelo governador e voltou a criticar o modelo de atendimento. Segundo ele, a fila do SUS ainda é um problema e a gestão estadual precisa ampliar o uso de tecnologia.
“A previsão era fazer 70 hospitais-dia. Hoje vou precisar de menos porque vou precisar fazer a reformulação do Cross [Central de Regulação de Ofertas de Serviços de Saúde]. O estado de São Paulo está ficando para trás pelo baixo investimento em tecnologia. Você está no tempo do telefone fixo”, afirmou.
Tarcísio rebateu dizendo que o governo estadual já utiliza ferramentas digitais na saúde. “Você está por fora, Haddad. Hoje a gente faz gestão de UTI por telemedicina. Estamos incorporando a inteligência artificial na saúde, saúde digital”, declarou.
O governador também citou a expansão de hospitais e ambulatórios. “Inauguramos 14 novos hospitais. Na Baixada Santista, vamos fazer um ambulatório médico de especialidades. O Hospital Santa Casa e o Hospital Brasilândia são projetos únicos, dois entregues e inaugurados”, disse.
Ao final do bloco, o debate voltou a tratar de recursos federais e estaduais. Haddad afirmou que parte dos investimentos em São Paulo teve participação do governo federal. Tarcísio respondeu citando medidas adotadas durante o governo Jair Bolsonaro e criticou gestões anteriores do PT.
“Sabe por que não ficou pronto? Por que a Lava Jato aconteceu. E aconteceu por causa do PT”, afirmou Tarcísio. Haddad respondeu que recursos federais foram fundamentais para investimentos no estado.
No segundo bloco do debate, Haddad iniciou o confronto questionando Tarcísio sobre a transparência dos benefícios fiscais concedidos pelo governo paulista.
“Você vai manter essa caixa-preta no seu segundo mandato?”, perguntou Haddad.
Tarcísio rebateu e afirmou que teria adotado medidas para revisar incentivos tributários no estado. O governador direcionou a fala para políticas voltadas às mães atípicas — termo usado para se referir a mães de crianças com deficiência ou necessidades específicas de cuidado. O governador afirmou que pretende ampliar ações de apoio psicológico e atendimento especializado.
“Primeiro, vamos criar a assistência psicológica, incluir a saúde mental na nossa rede de saúde. Vamos criar em São Paulo as Casas das Mães Atípicas, como criamos as Casas das Mulheres Paulistas”, disse.
Tarcísio também citou a expansão de centros voltados ao atendimento de pessoas com transtorno do espectro autista (TEA). “Vamos abrir os Centros TEA. Já inauguramos dois e estamos construindo outros”, afirmou.
O governador disse ainda que pretende alterar regras de jornada para servidoras públicas que sejam mães atípicas. “Vamos mexer na jornada de trabalho das nossas servidoras mães atípicas, com jornada reduzida”, afirmou.
Haddad retomou o tema dos benefícios fiscais antes de responder sobre as políticas para mães atípicas e voltou a defender maior transparência sobre renúncias tributárias no estado de São Paulo.
Sobre o atendimento a crianças com deficiência, o petista afirmou que uma das situações que mais o marcou durante a campanha foi uma visita a mães atípicas na capital paulista.
“O dia mais triste da minha campanha foi quando eu visitei as mães atípicas aqui da cidade de São Paulo. Eu fiquei perplexo. Mãe que tem que ficar o dia inteiro com o filho. Você acabou com o auxílio nas escolas, com o profissional que auxilia a criança na escola”, disse.
Haddad também criticou a contratação de profissionais na rede estadual de ensino. “Falta profissional porque Tarcísio não faz concurso, nem para professor nem para assistente”, afirmou.
Tarcísio rebateu a declaração e disse que a afirmação era incorreta. O governador afirmou que os profissionais de apoio foram mantidos nas escolas e anunciou novas medidas para atendimento de estudantes com deficiência.
“Nós mantivemos esses profissionais. Vamos ter sala sensorial nas escolas para acalmar crises”, declarou.
Haddad citou ainda sua atuação como ministro da Educação e afirmou ter criado o BPC na Escola, programa voltado à inclusão de crianças e adolescentes com deficiência que recebem o Benefício de Prestação Continuada.
“Quando fui ministro da Educação, fiz o BPC na Escola, o maior programa de inclusão do Brasil. Foram 400 mil crianças atendidas”, afirmou.
Na sequência, Tarcísio levou o debate para a situação econômica do país e questionou Haddad sobre o equilíbrio das contas públicas no governo federal.
O governador citou empresas em recuperação judicial e dificuldades de acesso ao crédito. “Empresas endividadas estão encurtando suas operações de crédito, quebrando. O que você tem a falar para os pais de família perdendo seus empregos? Você acha que o Brasil precisa de ajuste fiscal? Você convenceria o presidente a fazer esse ajuste no próximo mandato?”, perguntou.
Haddad respondeu citando a situação fiscal herdada pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) após a gestão Jair Bolsonaro (PL).
“Quando eles herdaram o governo federal, tinham R$ 200 bilhões de déficit. Bolsonaro deu calote de precatório e para os governadores”, afirmou.
O petista também rebateu críticas sobre juros e destacou medidas adotadas pelo governo federal. “Agora vai reclamar da taxa de juros, ela está igual ao que recebemos. Nós estamos pagando salário mínimo acima da inflação, ajustamos o imposto de renda”, disse.
Tarcísio respondeu que o problema, segundo ele, seria a relação do governo com o setor produtivo. “O problema é tratar mal o empreendedor. Existe um negacionismo fiscal, porque o governo gasta muito”, afirmou.
Haddad citou a aprovação da reforma tributária e dados de emprego para defender a política econômica do governo federal.
“Estamos falando de geração de empregos. Aprovamos a maior reforma tributária do Brasil. Vocês querem voltar para a época do Milei aqui?”, questionou, em referência ao presidente da Argentina, Javier Milei.
Tarcísio respondeu afirmando que Milei recebeu um grande desafio e está fazendo um bom trabalho. O governador citou ainda o desempenho econômico do estado de São Paulo e a geração de empregos durante sua gestão.
Haddad voltou a criticar as contas estaduais e afirmou que São Paulo teria transformado um superávit em déficit orçamentário. “Você transformou o superávit em déficit. Isso é dado do seu governo. São Paulo está crescendo 0,5% pelo segundo ano seguido”, afirmou.
Tarcísio respondeu dizendo que o estado encerrou o período com superávit primário e explicou que o resultado orçamentário citado pelo adversário estaria relacionado a mudanças contábeis e à transição de governo.
“Terminamos em superávit primário. Não tem problema fiscal em São Paulo. Quem tem problema fiscal é a União”, afirmou o governador.
Nos dois últimos blocos, Haddad e Tarcísio discutiram saneamento, com críticas do petista a privatização da Sabesp, companhia de saneamento do estado. Haddad afirmou que o atual governador prometeu que a conta de água diminuiria com a destatização.
O candidato à reeleição do Republicanos rebateu a fala e disse que o processo era necessário para destravar investimento no estado.
Ao debate educação, os dois voltaram a discordar de indicadores e resultados de São Paulo. Haddad afirmou que a gestão atual andou de lado nos resultados de alfabetização. Tarcísio rebateu dizendo que São Paulo recebeu o selo ouro do Ministério da Educação do governo Lula.
Nas considerações finais, o candidato do PT gastou quase 40 segundos do seu tempo para falar sobre a eleição presidencial entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL) e pedir voto ao atual presidente. Tarcísio reforçou que Flávio é seu candidato na disputa nacional.
O debate foi dividido em quatro blocos. O primeiro e o terceiro blocos tiveram 20 minutos cada. Em todos eles, foram realizadas duas rodadas de 10 minutos dedicadas a temas pré-determinados.
Cada candidato pode escolher um dos seis temas previamente definidos pelo Jornalismo da Globo e exibidos em um telão. Depois do assunto, os candidatos deveriam selecionar uma das regiões metropolitanas do estado. Outro bloco teve tema livre.