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Eleições: Homens brancos concentram maior fatia de recursos entre candidatos jovens, diz estudo

Pesquisa da Legisla Brasil mostra que homens brancos eram 26% das candidaturas jovens e chegaram a 49% dos eleitos em 2020; entre mulheres pretas, participação caiu de 5% das candidatas para 1% dos mandatos

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 11 de agosto de 2026 às 06h00.

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A distribuição dos recursos partidários entre candidatos jovens revela uma concentração que fica escondida quando se observa apenas o valor médio recebido nas campanhas. Em 2020, candidatos homens e brancos de 19 a 29 anos receberam, em média, R$ 13.781 em recursos partidários, enquanto a mediana do grupo ficou em R$ 1.094 — uma diferença de mais de 12 vezes.

Os dados fazem parte da pesquisa "Juventudes e participação partidária", da Legisla Brasil.

A distância entre os dois indicadores é bem menor nos demais grupos analisados. Entre homens negros, a média foi de R$ 5.999 e a mediana, de R$ 1.500. Para mulheres brancas, os valores ficaram em R$ 5.144 e R$ 1.500, respectivamente. Entre as mulheres negras, a média alcançou R$ 5.935 e a mediana, R$ 2.020 — a maior entre os quatro grupos.

A média é calculada pela divisão do volume de recursos pelo número de candidaturas, enquanto a mediana representa o valor que divide o grupo ao meio. Uma distância elevada entre os dois indicadores pode ocorrer quando valores maiores destinados a uma parcela das candidaturas elevam a média.

No caso dos homens brancos jovens, a média de financiamento foi mais de duas vezes superior à observada em qualquer um dos outros três grupos apresentados no levantamento.

O estudo analisou dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e entrevistou 62 jovens que são ou já foram filiados a 16 partidos de centro, direita e esquerda, segundo a organização. A etapa qualitativa também contou com uma consulta pública com 94 jovens filiados ou ex-filiados e dois grupos focais.

O financiamento aparece no levantamento como uma das barreiras enfrentadas pela juventude para transformar candidaturas em mandatos. Em 2024, uma candidatura jovem recebeu, em média, R$ 23.028, segundo a pesquisa. O valor equivale a 64% dos cerca de R$ 36 mil destinados, em média, às candidaturas mais velhas.

A diferença ocorre apesar do volume de jovens que entram na disputa eleitoral. Nas eleições de 2024, foram quase 30 mil candidatos de 18 a 29 anos. Segundo a pesquisa, os dados de quatro eleições entre 2018 e 2024 mostram que essa faixa etária apresentou taxas de sucesso eleitoral inferiores às dos candidatos mais velhos.

Nas eleições municipais de 2024, candidatos de 18 a 20 anos registraram taxa de sucesso de 7,1%, ante 16% entre aqueles de 35 a 44 anos. Os jovens de 18 a 29 anos responderam por apenas 6% dos vereadores eleitos naquele pleito, de acordo com o estudo.

“Embora não tenha dificuldade para entrar no partido, a juventude é barrada na hora de se eleger e isso desincentiva a participação dos jovens na política institucional”, afirma Synthya Maia, pesquisadora da Legisla Brasil e autora do estudo.

Homens brancos eram 26% dos candidatos jovens, mas chegaram a 49% dos eleitos

O recorte das eleições de 2020 mostra que a composição dos candidatos jovens também mudou de forma relevante na passagem das urnas para os mandatos. Os homens brancos representavam 26% das candidaturas analisadas no gráfico da pesquisa, mas passaram a responder por 49% dos eleitos.

Entre os homens pardos, a participação também aumentou: eles eram 24% dos candidatos e responderam por 31% dos eleitos. Para homens pretos, o movimento ocorreu na direção contrária, de 6% das candidaturas para 4% dos eleitos.

A redução foi mais acentuada entre as mulheres. Mulheres brancas representavam 19% das candidaturas e 9% dos eleitos. Entre mulheres pardas, a participação caiu de 19% para 5%. Para mulheres pretas, passou de 5% para 1%.

Somadas, as três categorias femininas correspondiam a 43% das candidaturas jovens apresentadas no gráfico de 2020, mas a 15% dos eleitos. Os percentuais do gráfico são arredondados e, por isso, a soma das categorias não necessariamente chega a 100%.

O levantamento encontra uma diferença semelhante ao analisar diretamente a taxa de sucesso eleitoral por gênero. Em todas as quatro eleições apresentadas — 2018, 2020, 2022 e 2024 —, mulheres de 18 a 29 anos tiveram desempenho inferior ao dos homens da mesma faixa etária.

Nas municipais de 2024, a taxa de sucesso eleitoral, calculada pela relação entre eleitos e candidatos, chegou a 16,9% entre os homens jovens e a 5,3% entre as mulheres jovens. Em 2020, a distância havia sido de 13,5% contra 3,3%.

A desigualdade também aparece quando o estudo compara homens e mulheres em diferentes idades. Em 2020, a razão entre a taxa de sucesso das mulheres e a dos homens foi de 0,24 entre candidatos de 18 a 20 anos e também entre aqueles de 21 a 24 anos. Entre pessoas com 60 anos ou mais, a razão chegou a 0,42. Quanto mais próximo de 1, menor seria a diferença entre os gêneros.

Os dados indicam, portanto, que a diferença entre homens e mulheres na conversão de candidaturas em mandatos era maior justamente entre os candidatos mais jovens.

Após o primeiro mandato, diferença entre jovens e mais velhos diminui

Outro dado do estudo ajuda a delimitar onde está o principal obstáculo identificado pela pesquisa. Quando a análise passa da primeira eleição para a reeleição de vereadores, os jovens alcançam taxas semelhantes ou superiores às dos políticos mais velhos.

Em 2020, 57% dos vereadores jovens que disputaram a reeleição tiveram sucesso, ante 53,6% dos mais velhos. Em 2024, as taxas foram de 64,6% e 59,3%, respectivamente.

“Isso nos faz levantar a hipótese de que o que falta aos jovens é, principalmente, oportunidade e investimento para conseguir realizar seu trabalho e colocá-lo à prova da avaliação dos eleitores”, afirma Fernando Haddad Moura, diretor executivo da Legisla Brasil.

A pesquisa também ouviu jovens sobre a relação com as legendas. Entre as demandas citadas estão formação política, participação nos espaços de decisão, mentorias e apoio financeiro. Em uma escala de zero a cinco, a confiança média nos partidos ficou em 2,5 e subiu para 3,5 quando os entrevistados avaliaram a própria legenda.

Apesar das críticas relatadas no levantamento, 80% dos participantes da consulta pública afirmaram que pretendem continuar politicamente ativos.

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