Eleições: de fato, o que muda aos olhos da comunidade internacional e investidores?

Fundos seguem atentos às escolhas para o Congresso enquanto analistas políticos ressaltam a importância das relações internacionais em um cenário geopolítico em transformação
 (Leandro Fonseca/Exame)
(Leandro Fonseca/Exame)
Carla Aranha
Carla AranhaPublicado em 02/10/2022 às 06:36.

Em um contexto global volátil, as eleições no Brasil estão sendo observadas com especial interesse. “Trata-se de um momento de transformação no cenário geopolítico global, com uma guerra na Europa, a crise do gás natural e discussões sobre o futuro da democracia no mundo”, diz Scott Mainwaring, professor de ciências políticas na Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos.

“Neste momento, países como os Estados Unidos estão atentos ao processo político no Brasil a fim de estreitar alianças e conduzir uma série de pautas, que vão de meio ambiente à segurança”, analisa Mainwaring. "Discussões a esse respeito têm sido realizadas, já que o Brasil é um país importante na América Latina."

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Do outro lado do oceano, acadêmicos, diplomatas e representantes do mercado financeiro têm debatido o que esperar do Brasil em 2023, em reuniões e eventos em universidades, embaixadas e escritórios de fundos de investimento. Segundo fontes diplomáticas em Washington, os olhares se voltam não só para o Palácio do Planalto, mas também para o Congresso. Com quase 90% dos 513 deputados federais na disputa por um novo mandato, a expectativa é de poucas mudanças – o que, aos olhos da comunidade internacional, não é algo necessariamente ruim.

Do ponto de vista do investidor, a perspectiva de uma continuidade pode contar pontos para o Brasil. “As instituições financeiras estão a par das minirreformas, com aprovação de marcos importantes como o do saneamento, gás e ferrovias, além da independência do Banco Central, algo considerado positivo”, diz Fernando Dutra, adido econômico adjunto da Embaixada do Brasil em Washington. “Nos Estados Unidos e outros países, a expectativa é de que o Congresso continue atento a essas pautas”.

Fundos de investimento ressaltam ainda a atuação do Banco Central diante da inflação e da política monetária como um fator decisivo para a avaliação de risco do Brasil. “O Banco Central, como uma instituição independente, provou credibilidade ao ser uma das primeiras instituições do mundo a combater a inflação com vigor e determinação”, disse Amer Bisat, líder de mercados emergentes da BlackRock.

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Em relatório divulgado nesta quarta, dia 28, a S&P Global aponta que o Reino Unido já está em uma recessão “moderada”, com um crescimento do PIB de 0,2% no segundo trimestre e uma queda de 1,6% nas vendas do varejo em agosto. A economia da Europa também vai começar a encolher, segundo a agência de risco, no último trimestre deste ano. Em 2022, a expectativa é de um crescimento do PIB na zona do euro de apenas 0,3%.

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Na Europa, a inflação crescente, que chegou a 9,1% em agosto, e a escalada no preço do gás natural se tornaram motivo de preocupação crescente. “A perspectiva é de incertezas econômicas e geopolíticas que tornam o cenário difícil, com preços exorbitantes de energia alimentando a inflação e os bancos centrais recalibrando a taxa de juros”, na avaliação da S&P Global.

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Uma inflação de dois dígitos na Alemanha, com um aumento da ordem de 43,9% nos preços da energia em setembro, vem impactando as projeções a respeito da maior economia do bloco europeu. O país deve crescer 1,4% este ano, com uma recessão de 0,4% em 2023, segundo institutos de pesquisa econômica alemães. A Alemanha, no entanto, corre o risco de derrapar mais feio, com uma queda de até 7,9% no PIB no ano que vem, caso o inverno seja severo e o gás utilizado pela indústria tenha que ser racionado – o alerta é do Instituto Kiel de Economia Mundial e do Instituto Halle de Pesquisa Econômica.

O risco de recessão nos Estados Unidos, país mais rico do mundo, também permanece elevado. “Em um contexto global desafiador, o Brasil aparece como um país em crescimento, embora ainda haja algumas lições de casa”, diz Dutra. “Ainda não fizemos a reforma tributária e precisamos avançar mais na pauta de redução do chamado custo Brasil”.


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