Brasil

Eleição no Ceará: polarização chega ao Senado, mas voto cruzado embaralha disputa

Luizianne, Capitão Wagner, Alcides Fernandes e Cid Gomes concentram a disputa pelas duas vagas, enquanto campanhas apostam tanto no voto de chapa quanto em combinações entre campos diferentes

Senado no Ceará: Cid e Luizianne estão no campo de Elmano, enquanto Wagner e Alcides apoiam Ciro. (Divulgação)

Senado no Ceará: Cid e Luizianne estão no campo de Elmano, enquanto Wagner e Alcides apoiam Ciro. (Divulgação)

Ana Luiza Serrão
Ana Luiza Serrão

Repórter de Invest

Publicado em 4 de outubro de 2026 às 07h30.

Priorizar nos meus resultados Google
RESUMO +

A polarização das eleições para presidente e governador também influencia a disputa pelo Senado no Ceará, mas campanhas e analistas apontam espaço para que eleitores combinem candidatos de campos políticos diferentes. Com duas vagas em disputa e dois votos disponíveis para cada eleitor, Cid Gomes (PSB), Luizianne (Rede), Capitão Wagner (União) e Alcides Fernandes (PL) chegam à reta final entre os principais nomes da corrida. Pesquisas recentes mostram uma disputa acirrada, mas adotam metodologias e formas de apresentação diferentes.


De Fortaleza, Ceará — A polarização das eleições nacional e estadual chega à disputa pelas duas vagas do Ceará no Senado, mas é percebida de formas diferentes pelas campanhas. Enquanto a coordenação de Luizianne (Rede) vê a eleição senatorial fortemente organizada em dois campos políticos, Capitão Wagner (União) e Alcides Fernandes (PL) reconhecem a influência, mas acreditam que a escolha para o Senado tem dinâmica própria.

Coordenador da campanha de Luizianne, João Alfredo faz uma leitura de que a disputa senatorial está diretamente vinculada aos embates entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), no plano nacional, e entre Elmano de Freitas (PT) e Ciro Gomes (PSDB), no Ceará.

"A polarização é muito clara, muito óbvia, muito presente nessa campanha", na sua avaliação, a qual considera que a eleição tende a se organizar entre duas duplas: Luizianne e Cid Gomes (PSB), associados às candidaturas de Lula e Elmano; e Capitão Wagner e Alcides Fernandes, ligados à oposição.

O cientista político Emanuel Freitas destaca, ainda, que Cid e Luizianne procuram se apresentar como integrantes de um mesmo grupo, enquanto Wagner e Alcides têm construído discursos mais individualizados para o Senado. Cid é o único dos quatro principais concorrentes que já ocupa atualmente uma das cadeiras em disputa.

A reportagem procurou a equipe de Cid Gomes e o próprio senador para comentar a sua candidatura e o cenário com os demais candidatos, mas, até o fechamento deste texto, não houve disponibilidade para uma entrevista.

Capitão Wagner, embora reconheça que "a eleição para o Senado está inserida no contexto político da disputa pelo Governo do Estado" e que existem alinhamentos estaduais e nacionais, ressalta que são oito candidaturas para duas vagas e que o eleitor pode combinar escolhas de campos distintos.

Ele afirma, inclusive, receber apoio de prefeitos ligados à reeleição de Elmano, apesar de integrar formalmente a aliança que apoia Ciro. Para ele, isso demonstra que a eleição senatorial "tem uma dinâmica própria" e que os votos não precisam seguir uma única lógica partidária ou de chapa.

O candidato também reconhece a presença do alinhamento nacional, mas sustenta que trajetória, experiência e propostas individuais entram na avaliação do eleitor. Já Alcides segue linha semelhante, afirmando que vê o acirramento, mas que o Senado "não precisa ser apenas uma reprodução dessa polarização."

Ao tratar da influência nacional, Alcides reconhece que o alinhamento pesa, inclusive pelo papel do Senado nas decisões do país e na relação com o governo federal. Ao mesmo tempo, procura demarcar uma autonomia para o mandato: "o alinhamento nacional existe, mas o mandato é do estado."

Analistas veem espaço para voto cruzado cearense no Senado

A doutora em ciência política e professora dos programas de pós-graduação da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e da Universidade de Fortaleza (Unifor), Mariana Dionísio, diz que "a disputa pelo Senado é um caso bastante interessante de como a polarização ideológica não necessariamente produz um voto integralmente polarizado."

"Como cada eleitor terá dois votos para o Senado, os números das últimas pesquisas para intenção de voto não devem ser lidos como uma disputa convencional de candidato único, porque é bastante provável que haja votos cruzados, na medida em que votos para composição do Senado tendem a ser mais personalistas", explica a especialista.

Para o consultor político Luciano Cléver, a polarização também influencia a corrida, mas tende a ser menos rígida do que nas disputas para presidente e governador. Na avaliação dele, a existência de quatro nomes que considera competitivos torna a eleição mais aberta a combinações entre candidatos de campos diferentes.

Cléver lembra que o chamado voto casado, em que uma chapa trabalha de forma intensa para que o eleitor escolha seus dois candidatos ao Senado, já teve peso em eleições anteriores. Mas vê que "certamente você vai ter muita gente votando, embaralhando, fazendo uma salada ideológica nesta (eleição) do Senado."

Assim como o fenômeno acompanha uma possibilidade de cruzamento também entre as escolhas para presidente e governador no Ceará, na sua visão. No Ceará, por exemplo, há eleitores que votam tanto em Ciro Gomes quanto em Lula, mesmo estes sendo de campos opostos nesta disputa.

Luizianne tenta ampliar a presença para além de Fortaleza

João Alfredo, coordenador da campanha de Luizianne, afirma que a candidata iniciou a corrida ao Senado em uma posição diferente dos adversários porque seu nome foi definido mais tarde. Segundo ele, Cid já era tratado como candidato à reeleição, enquanto Wagner e Alcides estavam politicamente colocados na disputa havia mais tempo.

"A estratégia da campanha não é uma única coisa. Ela tem vários aspectos. Primeiro, é uma apresentação da própria Luizianne, da sua trajetória, da sua história, que vai desde a época de vereadora, passando por deputada estadual, prefeita de Fortaleza por dois mandatos e deputada federal já por três mandatos", detalha.

A orientação da chapa é estimular o eleitor governista a utilizar os dois votos nos candidatos apoiados pelo presidente Lula. João Alfredo esclarece também que "não há uma disputa com Cid, não há. O Cid tem sido muito leal, muito correto com a campanha da Luizianne."

Luizianne tem buscado apresentar, principalmente, às pautas das mulheres, da juventude e das periferias. Entre as iniciativas destacadas pela campanha estão a criação do Hospital da Mulher e dos Centros Urbanos de Cultura, Arte, Ciência e Esporte (Cucas), enquanto ela ainda comandava a capital.

Wagner aposta em campanha própria e busca votos além da chapa

Capitão Wagner afirma que sua candidatura tem como principais bandeiras a segurança pública, a saúde e a inclusão das pessoas com deficiência. Ao apresentar sua trajetória, ele destaca passagens pela Câmara Municipal de Fortaleza, Assembleia Legislativa, Câmara dos Deputados e pela Secretaria de Saúde de Maracanaú.

Na segurança pública, Wagner diz defender o uso de ferramentas tecnológicas, o fortalecimento das forças policiais, a valorização dos profissionais e o enfrentamento às organizações criminosas. Também cita propostas voltadas a famílias atípicas, à proteção de pessoas expulsas de suas casas por facções e ao endurecimento da legislação contra a associação para o tráfico.

Na reta final, o candidato afirma buscar uma campanha de alcance estadual, com presença em Fortaleza, Região Metropolitana e interior. Segundo ele, 23 prefeitos já declararam apoio à candidatura, além de outras adesões em negociação. "A disputa pelo Senado precisa representar todo o Ceará", diz.

Embora integre formalmente a aliança que apoia Ciro, Wagner procura reforçar uma identidade própria para a candidatura, buscando "dialogar diretamente com o eleitor, independentemente da forma como ele se posiciona em outras disputas."

Alcides quer consolidar uma candidatura própria na oposição

Alcides Fernandes integra o mesmo campo estadual de Wagner e Ciro, enquanto mantém uma identidade política ligada ao partido e ao eleitorado conservador. Ele enxerga que "existe uma polarização política no Brasil e ela também aparece no Ceará, mas a eleição para o Senado não precisa ser apenas uma reprodução dessa polarização."

O candidato pontua que o eleitor bolsonarista constitui uma parcela importante de sua base, mas afirma que busca dialogar também com outros segmentos. Entre os temas apresentados pela candidatura estão segurança pública, combate às facções, responsabilidade no uso de recursos públicos e atuação voltada aos municípios.

Alcides também tenta construir uma identidade própria dentro do campo de oposição. Embora reconheça pontos de convergência com Capitão Wagner, afirma que os dois têm trajetórias diferentes e, segundo ele, complementares.

O candidato também procura desvincular sua campanha da projeção política do filho, o deputado federal André Fernandes (PL). Ele reconhece que há parceria e diálogo entre os dois, mas sustenta que sua candidatura não é uma extensão da atuação do filho e diz que quer ser avaliado por sua trajetória, suas posições e pelo trabalho que pretende desenvolver no Senado.

Cid chega à disputa com atuação em educação e infraestrutura

Cid chega à disputa pela reeleição com um mandato iniciado em 2019. Antes de chegar à Casa, foi deputado estadual, prefeito de Sobral por dois mandatos e governador do Ceará também por duas vezes, além de ter comandado o Ministério da Educação em 2015.

Cid propôs a criação e presidiu a Subcomissão Permanente da Alfabetização na Idade Certa, instalada para acompanhar políticas públicas nessa área. Dos trabalhos do colegiado surgiu a proposta que transformou o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada em política de Estado.

O senador também integra atualmente comissões como a de Educação e Cultura e a de Serviços de Infraestrutura. E a atuação relacionada ao Ceará também passa por infraestrutura e financiamento de projetos públicos.

Pesquisas mostram disputa acirrada para o Senado

A pesquisa Atlas/Focus, realizada entre 23 e 28 de setembro, mostra o ex-governador, irmão de Ciro Gomes (PSDB), que hoje está aliado à chapa governista, com 26,3%; Luizianne com 25,7%; Wagner com 21,7% e Alcides com 18,5%. O levantamento ouviu 1.808 eleitores e tem margem de erro de dois pontos percentuais.

Outros levantamentos apresentam distâncias diferentes, o que exige cautela na comparação. Os institutos adotam metodologias e formas de apresentação que não são necessariamente idênticas, especialmente em uma eleição na qual cada entrevistado pode indicar dois candidatos.

No Datafolha do dia 25, Cid tinha 23%, Wagner 20%, Luizianne 19% e Alcides 9%. Com margem de erro de três pontos, Cid, Wagner e Luizianne estavam tecnicamente empatados. Já o Real Time Big Data, do dia 26, registrou Cid com 26%, Luizianne com 21%, Alcides com 20% e Wagner com 20%.


Perguntas frequentes

Quantas vagas para o Senado estão em disputa no Ceará? +

O Ceará elege dois senadores nesta eleição. Por isso, cada eleitor pode escolher dois candidatos diferentes para o Senado.

Quem são os principais candidatos ao Senado pelo Ceará? +

A matéria destaca quatro candidatos entre os principais nomes da disputa: Cid Gomes (PSB), Luizianne (Rede), Capitão Wagner (União) e Alcides Fernandes (PL). Ao todo, oito candidaturas concorrem às duas vagas.

O que é voto cruzado na eleição para o Senado? +

É a possibilidade de o eleitor combinar candidatos de campos políticos diferentes em seus dois votos para senador. Analistas ouvidos pela reportagem avaliam que a polarização política influencia a disputa, mas não necessariamente leva o eleitor a escolher dois nomes do mesmo grupo.

Como a polarização influencia a disputa pelo Senado no Ceará? +

As campanhas apresentam leituras diferentes. A coordenação de Luizianne considera que a eleição está fortemente ligada aos campos formados nas disputas nacional e estadual. Capitão Wagner e Alcides Fernandes reconhecem a influência desses alinhamentos, mas defendem que a corrida ao Senado também possui uma dinâmica própria.

O que mostram as pesquisas para o Senado no Ceará? +

Na Atlas/Focus realizada entre 23 e 28 de setembro, Cid tinha 26,3%, Luizianne 25,7%, Wagner 21,7% e Alcides 18,5%. No Datafolha do dia 25, Cid aparecia com 23%, Wagner com 20%, Luizianne com 19% e Alcides com 9%. Já o Real Time Big Data do dia 26 registrou Cid com 26%, Luizianne com 21%, Alcides com 20% e Wagner com 20%.

É possível comparar diretamente as pesquisas para o Senado? +

Os resultados de institutos diferentes devem ser analisados com cautela. Os levantamentos podem utilizar metodologias e formas distintas de apresentar as intenções de voto, uma questão especialmente relevante na eleição para o Senado porque cada eleitor pode indicar dois candidatos.

Cid Gomes e Luizianne fazem campanha juntos para o Senado? +

Segundo a campanha de Luizianne, a estratégia é estimular os eleitores do campo governista a utilizar os dois votos nos candidatos apoiados pelo presidente Lula. O coordenador João Alfredo afirma que não existe disputa da campanha de Luizianne com Cid e destaca a atuação dos dois dentro do mesmo campo político.

Capitão Wagner e Alcides Fernandes estão no mesmo campo político? +

Os dois integram o campo de oposição estadual citado na matéria, mas procuram reforçar identidades próprias em suas campanhas ao Senado. Wagner afirma buscar votos independentemente das escolhas do eleitor para outros cargos, enquanto Alcides reconhece a polarização política, mas sustenta que a eleição senatorial não precisa reproduzi-la integralmente.

Acompanhe tudo sobre:SenadoCearáEleições 2026

Mais de Brasil

Governo zera impostos federais da gasolina a duas semanas do 2º turno das eleições

Campanha de Lula nega notícia sobre ligação com Vorcaro e diz que vai à Justiça

Pesquisa AtlasIntel: aprovação de Lula cai a 44,7% e desaprovação chega a 53,4%

Pesquisa AtlasIntel 2º turno: Flávio Bolsonaro abre 5,4 pontos de vantagem sobre Lula