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Eleição do cansaço? Milhões de brasileiros vão às urnas em disputa acirrada e com menor entusiasmo

Pesquisas mostram confronto apertado entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto relatos de diferentes capitais indicam mobilização desigual pelo país

Eleições 2026: votação começa no Brasil com parte do eleitor longe do engajamento de outros pleitos (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Eleições 2026: votação começa no Brasil com parte do eleitor longe do engajamento de outros pleitos (Rovena Rosa/Agência Brasil)

RESUMO +

Mais de 158 milhões de brasileiros estão aptos a votar neste domingo, 4, em uma eleição presidencial novamente polarizada entre Luiz Inácio Lula da Silva e um candidato da família Bolsonaro. Apesar da disputa apertada nas pesquisas e de grandes atos na reta final, relatos de diferentes capitais apontam um ambiente de menor mobilização em parte do país. Para Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group, o cenário reflete cansaço, desalento e descrédito de parte do eleitorado com as principais forças políticas.


Mais de 158,7 milhões de brasileiros estão aptos a ir às urnas neste domingo, 4, para escolher, pela segunda eleição consecutiva, entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e um candidato de sobrenome Bolsonaro como protagonistas da disputa presidencial.

Desta vez, no lugar do ex-presidente Jair Bolsonaro, está seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (PL). A disputa chega à véspera da votação apertada nas pesquisas, mas sem que a polarização nacional tenha produzido, em todas as partes do país, o mesmo grau de mobilização observado nas ruas há quatro anos.

Um levantamento do Datafolha reforça essa percepção. Pesquisa divulgada nesta semana mostrou que 47% dos brasileiros avaliam que há menos interesse da população na eleição deste ano do que em 2022.

Outros 44% percebem um envolvimento maior, 6% consideram o interesse semelhante e 3% não souberam responder. O instituto ouviu 2.506 pessoas, entre 29 de setembro e 1º de outubro, em 152 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

O ambiente contrasta com o equilíbrio da corrida presidencial. Pesquisas divulgadas neste sábado, 3, mostram Lula e Flávio separados por poucos pontos. No Datafolha, Lula aparece com 45% dos votos válidos e Flávio com 42%, em empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. Na Quaest, o cenário é ainda mais estreito: 46% para Lula e 45% para Flávio nos votos válidos, também em empate técnico. Os levantamentos têm metodologias e amostras diferentes e não devem ser comparados como uma única série histórica.

Na avaliação de Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group, a aparente contradição entre uma eleição competitiva e um eleitorado menos mobilizado ajuda a definir o ambiente político de 2026. Em entrevista ao Eleições em Pauta, da EXAME, ele classificou o pleito como uma eleição marcada pelo cansaço.

“Eu concordo inteiramente com essa análise. É uma eleição do — podemos usar a palavra — cansaço. Podemos usar a palavra falta de esperança, desalento, descrédito nas duas principais forças políticas”, afirmou.

Para Garman, diferentemente de 2022, nem o campo lulista nem a direita chegam à votação com suas bases demonstrando o mesmo nível de entusiasmo em torno dos candidatos.

“O que fica muito claro é que a eleição é muito diferente de quatro anos atrás. Não estamos vendo uma base mobilizada, entusiasmada com seu respectivo candidato, nem no campo lulista, nem no campo da direita”, disse.

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Campanhas terminam com atos maiores

A menor mobilização percebida ao longo da campanha não significa ausência de grandes manifestações políticas. Na reta final, Lula e Flávio conseguiram reunir apoiadores em atos maiores, numa tentativa de demonstrar força antes da votação.

 

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Os eventos de encerramento das campanhas mostraram capacidade de mobilização das bases mais identificadas com os dois candidatos. O movimento, porém, convive com relatos de uma eleição menos presente no cotidiano de algumas das maiores cidades brasileiras.

Em São Paulo, por exemplo, a campanha estadual passou boa parte da reta final sem dominar as ruas da capital.

A percepção é de uma eleição com presença mais discreta de militância e material eleitoral em comparação com 2022. Um dos fatores é a própria configuração da disputa estadual: pesquisa Datafolha divulgada neste sábado mostra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) com 60% dos votos válidos, ante 35% de Fernando Haddad (PT).

O cenário é semelhante em Minas Gerais. Em Belo Horizonte, a reportagem encontrou uma campanha mais tranquila e com menos passeatas, carreatas, motociatas e grandes atos do que há quatro anos.

Na região Centro-Sul, a presença de militantes com bandeiras, alto-falantes ou material eleitoral aparecem de maneira pontual.

“Hoje o pessoal passa, comenta alguma coisa, às vezes discute algum assunto de política no balcão, mas não fica aquele clima de eleição o tempo todo”, afirmou Rariúcha Miranda, proprietária de uma empresa de locação de veículos em Belo Horizonte.

Márcio Xavantes, médico ouvido pela EXAME na capital mineira, também percebe uma disputa menos presente no cotidiano. “Tenho notado menos tensão entre as pessoas, menos discussão política no comércio, menos clientes falando de eleição, ou a sensação de que a disputa está mais concentrada nas redes do que nas ruas”, disse.

Assim como em São Paulo, Minas chega à votação com um candidato ao governo estadual em posição confortável nas pesquisas. Levantamento Quaest divulgado neste sábado aponta Cleitinho Azevedo (Republicanos) com 54% dos votos válidos, ante 23% de Patrus Ananias (PT).

Centro de Belo Horizonte, em Minas Gerais: estado tem disputa fragmentada com liderança do senador Cleitinho (Republicanos)

Disputas estaduais acirradas mudam o clima nas ruas

O ambiente é diferente em estados nos quais a disputa pelo governo permanece mais competitiva ou representa um confronto direto entre forças políticas tradicionais.

Relatos ouvidos pela EXAME na Bahia, no Ceará e no Pará mostram campanhas mais presentes nas ruas, com carreatas, bandeiras, carros de som e discussões políticas incorporadas ao cotidiano das capitais.

Na Bahia, a disputa entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT) e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) devolveu ao estado uma polarização entre dois grandes grupos políticos. Os candidatos ampliaram as agendas na reta final, com carreatas e eventos em diferentes regiões.

A disputa presidencial também contribui para esse ambiente. A passagem de Lula por Salvador na terça-feira, 29, produziu o maior ato de sua campanha até aquele momento. Nas ruas, nas redes sociais e em conversas cotidianas, a eleição aparece de maneira mais intensa do que em capitais onde as disputas estaduais estão mais encaminhadas.

Em Fortaleza, bandeiraços, carreatas, motociatas e carros de som ganharam espaço à medida que a votação se aproximou. A movimentação é mais perceptível nos fins de semana e em regiões como o entorno da Avenida da Universidade, onde está a Universidade Federal do Ceará (UFC).

A polarização também aparece nas conversas entre eleitores e nas redes sociais. Lá, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB) desafiou Elmano de Freitas (PT) e a força do PT no estado.

Já em Belém, a campanha ocupa as ruas desde agosto. A disputa entre a atual governadora Hana Ghassan e o Dr. Daniel, no reduto dos Barbalhos, é repleta de bandeiras, adesivos e músicas; candidatos fazem parte da paisagem das principais avenidas.

Alguns cruzamentos se transformaram em pontos recorrentes de concentração de apoiadores dos principais candidatos ao governo paraense, enquanto a disputa também se estendeu às redes sociais.

Os relatos ajudam a mostrar que a temperatura eleitoral não é uniforme no país. Onde há uma disputa estadual competitiva, a campanha local adiciona um segundo elemento de mobilização. E

m estados nos quais um candidato chega à reta final com ampla vantagem, a eleição tende a produzir menos manifestações visíveis no cotidiano.

Economia melhorou, mas avaliação de Lula pouco mudou

A avaliação de Garman sobre o cansaço eleitoral também passa pela economia. O Brasil chega à eleição com alguns indicadores positivos, mas com uma percepção sobre o governo que pouco se alterou durante a campanha.

O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 2% no segundo trimestre em relação ao mesmo período de 2025 e 0,5% na comparação com os três meses imediatamente anteriores, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo, inflação, alta mas menor do que da gestão Jair Bolsonaro (PL), a alta taxa de juros e custo de vida, aliados a um aumento do endividamento, continuaram entre as preocupações econômicas dos brasileiros.

“Houve uma expectativa de melhora grande entre a base lulista com a volta do presidente Lula ao poder. Não houve essa melhora das condições de vida. A renda subiu, mas o custo de vida também permaneceu elevado, e a classe média, endividada. Isso leva a esse senso de estagnação”, afirmou Garman.

Os indicadores econômicos não se converteram em uma melhora expressiva da avaliação presidencial durante a campanha.

No início de setembro, 31% consideravam o governo Lula ótimo ou bom e 42%, ruim ou péssimo, segundo o Datafolha. No levantamento realizado entre 29 de setembro e 1º de outubro, a avaliação positiva estava em 35%, e a negativa, em 41%. As oscilações ocorreram dentro ou próximas da margem de erro dos levantamentos.

“Houve uma certa frustração vis-à-vis às expectativas do campo progressista sobre o terceiro mandato do presidente Lula”, disse Garman.

Do outro lado, Flávio Bolsonaro atravessou uma campanha marcada por crises e controvérsias relacionadas ao caso Master, à sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e ao financiamento do filme Dark Horse, mas chegou à reta final competitivo nas pesquisas.

Para Garman, o senador também enfrenta um problema de mobilização: embora tenha herdado parcela relevante do eleitorado ligado ao ex-presidente, não reproduz automaticamente a relação de Jair Bolsonaro com essa base.

Eurasia vê eleição praticamente 'meio a meio'

O Eurasia Group atribui atualmente uma probabilidade de 55% de vitória a Lula, mas Garman ressalta que a projeção tem “viés de baixa” e descreve a disputa como praticamente equilibrada.

A consultoria utiliza três modelos para avaliar a corrida: um considera a aprovação do governante com base em um banco histórico de mais de 500 eleições; outro observa quais temas são considerados prioritários pelos eleitores e qual candidato tem vantagem neles; e um terceiro considera intenções de voto e probabilidade eleitoral.

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Segundo Garman, o primeiro modelo favorece Lula, enquanto o segundo aponta vantagem para Flávio. No terceiro, há equilíbrio.

“A bem da verdade, quando a gente olha os nossos modelos de previsão eleitoral, parece uma eleição meio a meio”, afirmou.

O pequeno favoritismo atribuído a Lula decorre, segundo Garman, da vantagem normalmente associada a quem ocupa o governo e de vulnerabilidades identificadas pela consultoria na campanha de Flávio. Ao mesmo tempo, ele afirma que medidas anunciadas pelo governo na reta final produziram pouco efeito perceptível sobre o apoio ao presidente.

“Isso é uma má notícia para a campanha do PT, porque sugere que essa vantagem de incumbência pode estar menor”, disse.

Abstenção é uma das incógnitas

O menor interesse também coloca a abstenção no centro das dúvidas sobre a eleição. Para Garman, uma participação abaixo do esperado pode alterar não apenas o tamanho do eleitorado que comparecerá às urnas, mas também a composição desse grupo.

“Se isso pode levar a uma abstenção maior? Pode. Mas eu diria que, claramente, nós vamos ter uma taxa de abstenção de pelo menos 20%, que é o que a gente vê historicamente”, afirmou.

Na avaliação do analista, uma abstenção significativamente acima do padrão histórico tornaria mais difícil antecipar qual campo político seria mais prejudicado.

“Se a abstenção for maior do que isso, talvez o perfil de quem fica em casa mude um pouco. Aí não fica tão claro se o perfil de quem fica em casa é mais de esquerda ou mais de direita”, disse.

Assim, a eleição chega ao domingo com duas imagens aparentemente contraditórias: pesquisas que indicam uma das disputas presidenciais mais apertadas dos últimos anos e uma parcela expressiva dos eleitores que percebe menos interesse no pleito do que em 2022.

“Uma incógnita nessa eleição é a taxa de abstenção e como os institutos estão calibrando isso”, afirmou Garman. “A gente entra no domingo com um pouco de incerteza.”


Perguntas frequentes

Quantos brasileiros podem votar nas eleições de 2026? +

O Brasil tem 158.745.463 eleitores aptos a votar no primeiro turno das eleições de 2026, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Quando será o primeiro turno das eleições de 2026? +

O primeiro turno será realizado neste domingo, 4 de outubro.

Como estão Lula e Flávio Bolsonaro nas pesquisas? +

Os levantamentos divulgados na reta final mostram uma disputa apertada. Datafolha e Quaest, por exemplo, registraram empate técnico entre os dois candidatos considerando suas respectivas margens de erro.

Por que a eleição de 2026 é chamada de “eleição do cansaço”? +

A expressão é usada por Christopher Garman, do Eurasia Group, para descrever o que ele avalia como desalento e menor entusiasmo de parte do eleitorado com as duas principais forças políticas do país.

O interesse pela eleição é menor do que em 2022? +

Segundo o Datafolha, 47% dos entrevistados percebem menos interesse da população nesta eleição do que em 2022, enquanto 44% consideram que o envolvimento é maior.

Qual é a projeção do Eurasia Group para a eleição? +

Segundo Christopher Garman, o Eurasia Group atribui 55% de probabilidade de vitória a Lula, mas considera que essa estimativa tem viés de baixa. O analista descreve a disputa como uma eleição praticamente “meio a meio”.

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