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Do Banco Master ao fundo nos EUA: o caminho do dinheiro para o Dark Horse, segundo a PF

Parte dos documentos liberados pelo ministro André Mendonça mostra como a PF investiga remessas ao exterior, fundo nos EUA e a participação de Flávio e Eduardo Bolsonaro na estrutura do filme

Dark Horse: O plano de negócios apresentado para Dark Horse previa uma bilheteria de US$ 100 milhões (Divulgação/-)

Dark Horse: O plano de negócios apresentado para Dark Horse previa uma bilheteria de US$ 100 milhões (Divulgação/-)

André Martins
André Martins

Repórter de Brasil e Economia

Publicado em 11 de setembro de 2026 às 09h04.

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A liberação parcial do sigilo de documentos da investigação sobre o Banco Master revelou novos detalhes sobre a estrutura financeira montada para viabilizar o Dark Horse, filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) que recebeu previsão de investimento de até US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões.

Os sigilos foram levantados na noite desta quinta-feira, 10, pelo relator do caso, o ministro André Mendonça, após pedido do presidente da Corte, o ministro Edson Fachin.

Os documentos analisados pela Polícia Federal indicam uma cadeia de movimentação que envolve o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, a empresa Entre Investimentos e Participações e o fundo americano Havengate Development Fund LP. A apuração busca esclarecer a origem dos recursos, a finalidade dos aportes e os beneficiários finais das transferências internacionais.

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e o senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, estão citados nos autos do processo.

Entre as hipóteses investigadas pela PF estão crimes como lavagem de dinheiro, processo de ocultação ou dissimulação da origem de recursos e evasão de divisas, envio ou manutenção irregular de valores no exterior.

Como funcionava a estrutura financeira investigada

Segundo os documentos reunidos pela PF, o dinheiro destinado ao projeto passou pela Entre Investimentos, empresa ligada a Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, e chegou ao fundo Havengate, nos Estados Unidos.

A escolha do fundo americano é um dos pontos analisados pelos investigadores. Criado em 2020 para um projeto imobiliário no Texas, o Havengate teria permanecido sem atividade relevante por quase quatro anos após o encerramento do empreendimento original.

A PF aponta que o fundo foi reativado em fevereiro de 2025 e passou a receber recursos relacionados ao filme. A primeira remessa identificada pela investigação teria sido de US$ 2 milhões.

Outro ponto analisado é a relação financeira entre o Banco Master e o Grupo Entre. Segundo os documentos citados na investigação, o banco teria realizado investimentos que somariam cerca de R$ 614 milhões em empresas ligadas ao grupo.

A PF também cita informações do Coaf, órgão de inteligência financeira, sobre a atuação de Freixo Júnior na criação de estruturas offshore, empresas ou fundos mantidos em jurisdições estrangeiras.

Na quarta-feira, 9, Mendonça homologou a delação premiada firmada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) com Antonio Carlos Freixo Jr., dono da Entre Investimentos e Participações. No acordo, Freixo detalha pagamentos ao fundo Havengate nos Estados Unidos, usado para financiar o filme "Dark Horse".

Eduardo Bolsonaro e a gestão de recursos nos EUA

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro aparece citado nos documentos como parte da apuração sobre a estrutura financeira internacional do projeto.

Segundo a investigação, a PF encontrou no celular de Daniel Vorcaro uma captura de tela atribuída ao parlamentar com orientações sobre como recursos poderiam ser administrados nos Estados Unidos.

A mensagem mencionaria a possibilidade de enviar a maior quantidade possível de valores por meio de um modelo que já estava em funcionamento.

Eduardo também aparece relacionado ao advogado Paulo Sergio Camin Calixto, identificado nos autos como seu defensor. Calixto é apontado nos documentos como um dos gestores ligados ao Havengate Development Fund LP.

Flávio Bolsonaro e as tratativas sobre o filme

O senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, também aparece nas investigações sobre o financiamento da obra. Documentos e mensagens analisados pela PF apontam que ele participou de conversas com Vorcaro sobre os aportes e pagamentos relacionados ao projeto.

As conversas já haviam sido reveladas pelo portal The Intercept em maio deste ano. Nos áudios e mensagens, o senador negociou e cobrou valores para o financiamento do filme, mesmo após Vorcaro já ter sido preso uma primeira vez, em novembro de 2025.

Mensagens analisadas pela Polícia Federal indicam que Flávio cobrava agilidade na liberação de recursos e demonstrava preocupação com pagamentos a integrantes da equipe internacional do filme. Entre os nomes citados nas conversas estão o ator Jim Caviezel, conhecido pelo papel principal em “A Paixão de Cristo”, e o diretor Cyrus Nowrasteh.

Em uma das tratativas, segundo os documentos, Flávio chegou a convidar Vorcaro para um jantar em São Paulo com o ator e o diretor do projeto. A iniciativa fazia parte das articulações para aproximar o banqueiro da produção e discutir a continuidade dos aportes.

A investigação também cita uma mensagem enviada por Flávio a Vorcaro na véspera da deflagração da operação policial. No texto, o senador afirma: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.

A defesa de Flávio afirma que não houve irregularidades no financiamento e que os recursos foram destinados à produção do filme. O senador também criticou as investigações e classificou a operação como uma tentativa de interferência política.

Em 22 de julho, de maneira sigilosa e que veio a público com a derrubada do sigilo, Mendonça abriu um inquérito para investigar o senador pela possível prática dos crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no contexto do financiamento do filme Dark Horse por Daniel Vorcaro.

As projeções do filme e as dúvidas econômicas

Além da origem dos recursos, a PF analisa a viabilidade econômica do projeto.

O plano de negócios apresentado para Dark Horse previa uma bilheteria de US$ 100 milhões. Segundo os investigadores, a projeção superaria em mais de três vezes o recorde histórico de arrecadação do cinema brasileiro, atribuído a “Minha Mãe é uma Peça 3”, com cerca de US$ 30 milhões em receita.

A diferença entre o orçamento previsto, a expectativa de retorno e os parâmetros do mercado audiovisual brasileiro é um dos elementos considerados pela investigação para avaliar a estrutura financeira da produção e apontar possíveis irregularidades.

O projeto também envolvia nomes internacionais e uma estratégia de lançamento com expectativa de alcance global, segundo documentos analisados pela PF.

Uma segunda investigação envolve Mário Frias

A divulgação dos documentos ocorre em meio a outra frente de investigação envolvendo Dark Horse. Nesta semana, a Polícia Federal deflagrou a Operação Make Up, autorizada pelo ministro Flávio Dino, com Mário Frias e a produtora do longa entre os alvos.

Essa investigação tem outro foco: a suspeita de irregularidades no uso de recursos públicos, incluindo repasses de emendas parlamentares ligados a entidades e empresas relacionadas à produção.

Mário Frias é apontado como produtor-executivo do filme e já era citado nas discussões sobre a viabilização do projeto.

Acompanhe tudo sobre:Supremo Tribunal Federal (STF)

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