Demissões, brigas e lives: 100 dias do governo Bolsonaro nas redes sociais

O modelo de comunicação online adotado pelo presidente pode aproximá-lo da população — mas o tiro, que parece certeiro, pode sair pela culatra
Bolsonaro: juntando Twitter, Facebook e Instagram, o presidente tem um total de 20,5 milhões de seguidores (Ricardo Moraes/Reuters)
Bolsonaro: juntando Twitter, Facebook e Instagram, o presidente tem um total de 20,5 milhões de seguidores (Ricardo Moraes/Reuters)
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Tamires Vitorio

Publicado em 10/04/2019 às 06:00.

Última atualização em 10/04/2019 às 11:43.

São Paulo — O governo Bolsonaro completa nesta quarta-feira (10) a marca de 100 primeiros dias recheados de polêmicas nas redes sociais.

De anúncios oficiais a brigas entre apoiadores, o modelo de comunicação adotado pelo presidente e por seus seguidores tem o potencial ao mesmo tempo de aproximá-los da população e de gerar crises do nada.

A maioria das postagens nas redes sociais do presidente é, de forma geral, sobre atos do governo. No entanto, são as mais polêmicas e ideológicas que ganham um alcance maior entre os usuários.

O tuíte "grande dia", por exemplo, disparado momentos depois de o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) anunciar que iria embora do Brasil, teve 83.255 curtidas e 9.442 retuítes (embora Bolsonaro afirme que a postagem não teve relação alguma com o parlamentar).

Outro tuíte sobre a reforma da Previdência principal pauta econômica do governo e decisiva para a saúde das contas públicas foi retuitado 6.935 vezes e recebeu 45.605 likes.

O comportamento pode ser explicado pela forma como o algoritmo utilizado na maioria das redes sociais altera o feed do internauta com base em suas preferências.

"As redes sociais amplificam publicações que causam medo, paranoia, raiva ou irritação nas pessoas porque o algoritmo entende que este tipo de reação, que é mais comum, é o que importa", afirma Jaron Lanier, cientista de computação e autor do livro “Dez Argumentos Para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais”.

Outro ponto que facilita a propagação das polêmicas é o caráter imediatista das redes. “Temas mais complexos e técnicos demandam conhecimentos que nem todo mundo tem, mas, quando você fala sobre assuntos mais ideológicos, aumenta o número de pessoas que podem conversar sobre aquilo”, explica Eric Messa, coordenador do Núcleo de Inovação em Mídia Digital da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP). 

O maior exemplo disso foi o tuíte que o presidente fez no Carnaval, que incluía um vídeo com conteúdo pornográfico.

A publicação seria deletada duas semanas depois, um dia após após a revelação de que os advogados da dupla retratada nas imagens ingressaram com pedido de um mandado de segurança ao Supremo Tribunal Federal (STF) para a exclusão.

Na época, o assunto se tornou um dos mais comentados no Twitter, com uma repercussão negativa que se estendeu a outros países.

"Diplomatas mundo afora questionaram se a conta do presidente era fake, desacreditaram que uma figura como ele pudesse postar algo do tipo. Essas coisas podem gerar desconfiança e uma perda de credibilidade do país", diz Leandro Consentino, cientista político e professor no Insper.

Não só autoridades estrangeiras se questionaram sobre a autoria dos tuítes. A dúvida pairou no ar e, quando questionado em um café com jornalistas, o presidente disse: “O meu Twitter é de minha responsabilidade. Quem tem minha senha tem minha confiança". 

Juntando Twitter, Facebook e Instagram, Bolsonaro tem um total de 20,5 milhões de seguidores, número que cresce diariamente. Sempre que os followers aumentam, ele comemora com uma postagem especial. 

Espuma ou realidade?

Mas o número alto de followers e likes, divulgados pelo presidente como termômetro para a aceitação do governo, não significam necessariamente aprovação do governo no conjunto da sociedade.

"Tomar a popularidade do presidente nas redes como termômetro para saber se o governo é ou não bem visto é bastante perigoso. As redes apenas reforçam o ambiente dos seus apoiadores e isso não representa a sociedade absoluta", afirma Consentino. "Este é um problema grave do governo como um todo, e eles acreditam que os apoiadores formam a opinião pública e quem não concorda é visto como inimigo da Pátria e não é assim que as coisas funcionam em uma democracia."

Uma pesquisa da agência de reputação Bold Lion analisou uma amostra de mil seguidores de Bolsonaro no Twitter e constatou que um quinto deles é composto por robôs. No ranking de perfis analisados (que incluem João Amoêdo, Fernando Haddad, Reinaldo Azevedo, Tiririca e a deputada federal Carla Zambelli), o presidente fica atrás do jogador de futebol Neymar Junior (21,52%) e do primeiro-ministro italiano Giuseppe Conte (23,08%) na quantidade de perfis falsos que o seguem. O petista Fernando Haddad vem logo depois de Bolsonaro no ranking, com 17,54%.

Um possível lado positivo das lives semanais no Facebook realizados pelo presidente e dos tuítes quase diários é uma aproximação entre o presidente e o povo.

"Independentemente da posição política, a estratégia de Bolsonaro é bastante interessante para os dias de hoje porque é uma forma de envolver parte da população que, historicamente, é pouco engajada quando o assunto é política", afirma Messa. 

Apesar de as redes parecerem a forma favorita do governo de se pronunciar, nenhum dos especialistas ouvidos por EXAME acredita que essa forma de comunicação ameaça as mais tradicionais. "Se o que for postado no Twitter se tornar mais importante que o Diário Oficial da União, teremos uma desorganização do Estado", garante Consentino.

Para Messa, cada canal de comunicação tem o seu papel específico. "A melhor estratégia é usar todos os canais para, com cada um, ter um objetivo próprio", diz. "Porém ainda precisamos de um tempo para adquirirmos um conhecimento sobre essa área para tratarmos de assuntos de forma mais polida e aprofundada do que o nível de discussão que é feito hoje." 

A guerra dos tuítes

O imediatismo e o amplo alcance das redes sociais também têm um potencial de gerar crises. O marco disso, para Consentino, foi o tuíte do vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), que antecedeu a demissão do então secretário-geral da República, Gustavo Bebbianno, em fevereiro.

No Twitter, o vereador publicou que o presidente não havia conversado com o secretário — fato desmentido pela revista Veja, que divulgou uma série de áudios trocados entre o presidente e Bebbianno no WhatsApp.

"Por conta do que Carlos postou, o presidente 'passou recibo' de que havia contado uma mentira e isso o deixou numa saia justa", diz Consentino. "A atuação dos filhos de Bolsonaro nas redes sociais tem causado desconforto em um governo que já não está calmo", afirma.

Outro tuíte de Carlos também gerou mal-estar para pessoas próximas do governo. Em março, o "zero dois" de Bolsonaro comentou notícia sobre a resposta de Moro à decisão de Maia de não priorizar, naquele momento, a votação do projeto anticrime. Já no Instagram, Carlos postou uma foto e na legenda fez uma pergunta: “Por que o presidente da Câmara está tão nervoso?”.

Outro embate que balançou a base do governo foi entre Joice Hasselmann e Kim Kataguiri. Os dois deputados, ao discutirem a articulação da reforma da Previdência, trocaram insultos.

A briga ganhou destaque em jornais ao redor do Brasil e, para Consentino, pode ser um prato cheio para a oposição. "Eles podem se aproveitar da divisão entre os parlamentares, explorando isso para tentar puxar cada um para um lado e jogar com essa divisão. Essa é uma tática bastante antiga e produtiva de qualquer grupo. Se antes a gente não sabia que Joice e Kim tinham problemas um com o outro, agora todo mundo sabe", pondera. 

O filósofo Olavo de Carvalho, considerado guru do bolsonarismo e próximo de figuras do seu núcleo interno, é outro que costuma gerar polêmica com suas publicações, muitas vezes carregadas de palavrões.

Na última sexta-feira (5), Carvalho alimentou a polêmica acerca da então possível e hoje confirmada  demissão do ministro da educação, Ricardo Vélez Rodriguez, que havia sido sua indicação.

"Não vou fazer nada contra ele, mas garanto que não vou lamentar se o botarem para fora do ministério", escreveu Olavo em seu perfil no Facebook.

Na segunda-feira (8), o presidente usou sua conta no Twitter para confirmar a demissão de Vélez.

Outras figuras do governo também já entenderam que as redes sociais são parte central da estratégia bolsonarista e uma forma de chamar a atenção do presidente e seus apoiadores.

Na última quinta-feira (4), o ex-juiz e atual ministro da Justiça e Segurança Pública do Brasil, Sérgio Moro, fez um perfil no Twitter. "É um instrumento poderoso de comunicação", publicou. 

Importado dos "states"

A receita que Bolsonaro usa nas redes sociais é bastante parecida com aquela seguida pelo presidente americano Donald Trump: tuítes curtos, controversos e com críticas à mídia ou à oposição. Outros tuítes simplesmente expõe propostas e conquistas do governo.

Mas, assim como em outras esferas, o Brasil e os Estados Unidos têm grandes diferenças também no uso das redes sociais.

"Nos Estados Unidos, coisas bastante parecidas acontecem, mas, pela concentração de renda, mais pessoas estão na internet", diz Consentino. 

Os algoritmos e o imediatismo ajudam os presidentes a se fortalecerem nas redes sociais. "Bolsonaro e Trump claramente trabalham e conseguem poder do mesmo jeito e dependem das redes sociais para fazer as pessoas sentirem medo e ficarem com raiva, espalhando fake news e teorias da conspiração. Pessoas como eles se tornam mais poderosas nas redes sociais", conta Lanier.

"Mesmo se um dia as redes sociais se voltarem contra Bolsonaro e Trump, outros políticos se beneficiarão dos algoritmos." É só aguardar para ver.