Debate presidencial na Globo: veja os principais destaques

Embate foi o último entre os presidenciáveis antes do primeiro turno das eleições, marcado para domingo, 2 de outubro
 (Globo/ João Miguel Júnior/Divulgação)
(Globo/ João Miguel Júnior/Divulgação)
Por Alessandra Azevedo, Carla Aranha, Gilson Garrett Jr

Publicado em 30/09/2022 às 02:17.

Última atualização em 30/09/2022 às 02:17.

O debate com candidatos à Presidência da República na TV Globo, nesta quinta-feira, 29, foi marcado por muitas trocas de acusações e pouco tempo dedicado à discussão de propostas. O embate foi o último entre os presidenciáveis antes do primeiro turno das eleições, marcado para domingo, 2 de outubro.

Os candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), os dois mais bem posicionados nas pesquisas eleitorais, não fizeram perguntas diretas um para o outro, mas protagonizaram discussões via pedidos de resposta, principalmente no primeiro bloco.

No total, foram 19 pedidos de resposta ao longo do debate. De acordo com as regras do encontro entre os presidenciáveis, um candidato tinha direito a um minuto de resposta caso fosse ofendido ou tivesse uma mentira contada a seu respeito. Bolsonaro foi o que mais pediu, com nove, sendo cinco negados e quatro concedidos. Lula veio logo em seguida, com seis pedidos, quatro concedidos.

O petista acusou Bolsonaro de formar quadrilhas em diferentes circunstâncias, como na compra de vacinas contra a covid-19 e no caso da rachadinhas. "Ele [Bolsonaro] falar que montei quadrilha? Com a quadrilha da rachadinha dele, que decretou sigilo de 100 anos? Falar de quadrilha comigo?", disse Lula.

Bolsonaro pediu direito de resposta e acusou os filhos de Lula de corrupção. "Mentiroso. Ex-presidiário, traidor da pátria. Que rachadinha? Teus filhos roubando milhões de empresas. Que CPI é essa, da farsa", afirmou, em relação à CPI da Covid, que investigou irregularidades do governo federal durante a pandemia.

Corrupção

A corrupção foi tema levantado também em outros momentos. Em um deles, o petista disse que, nos governos dele, houve combate à corrupção. "Criamos uma coisa chamada Portal da Transparência. Depois criamos a fiscalização da CGU, depois criamos a Lei de Acesso à Informação", listou.

Bolsonaro também negou envolvimento em corrupção ao ser acusado por Ciro Gomes (PDT) de manter “práticas corruptas” como os governos do PT. “Que mentira, Ciro. Corrupção generalizada onde, Ciro? Onde? Me aponte uma fonte de corrupção”, disse. "Me acusar sobre imóveis de 32 anos atrás, pelo amor de Deus”, continuou.

Bolsonaro negou que integrantes do governo teriam recebido propina em troca da compra de vacinas contra a covid-19. “O que achou a meu respeito? Nada. Que dinheiro de propina? Não tem dinheiro de propina", disse. “Nada tem contra meu governo, nada. Deixe de mentir. Tome vergonha na cara, Lula”, disse.

Questionado pelo candidato Padre Kelmon (PTB) sobre corrupção, Lula disse que foi "absolvido" em todos os processos. "Eu acho que candidato está desinformado ou lê o que quer. Eu tive 26 denuncias mentirosas feitas por um juiz que depois virou ministro do governo de Bolsonaro. Eu fui absolvido no Brasil pela Suprema Corte e pela ONU. Na quarta-feira, 28, fui absolvido em uma outra ação pelo ministro Gilmar Mendes", afirmou o candidato do PT.

Bolsonaro disse que Lula foi condenado por corrupção em três instâncias e que "o processo deixou de existir porque [Lula] tem amiguinho no STF, que disse que ele tem que ser julgado em Brasília, não em Curitiba". O presidente também disse que Lula "usava os mais pobres como massa de manobra para ganhar voto".

O presidente afirmou que os governos do PT promoveram “uma roubalheira” no país. “Lula foi chefe de uma grande quadrilha”, disse. “Não podemos continuar no país da roubalheira", acrescentou. Bolsonaro disse que acabou "com a mamata", em especial "da grande mídia".

Padre Kelmon insistiu em fazer perguntas a Lula sobre corrupção. "O senhor é responsável pela corrupção, o senhor é um descondenado e nem deveria estar aqui", afirmou. Em seguida, chamou o ex-presidente de "cínico", o que deu início a uma intercalação entre os dois candidatos. 

Já Bolsonaro foi questionado sobre o chamado orçamento secreto, que disse ser "totalmente administrado pelo relator, ou da Câmara ou do Senado". "Não existe, da minha parte, qualquer conivência com esse orçamento”, disse. Ele também foi questionado sobre o apoio do Centrão.

"Não tem como aprovar projeto de lei se não tiver o mínimo urbanidade com eles [deputados do Centrão]”, disse Bolsonaro. Segundo ele, se forem desconsiderados os deputados do Centrão, “sobram 200 deputados”. Ele negou, no entanto, ter cedido cargos em troca de apoio do grupo.

“Me indique qual ministério eu dei em troca de apoio. Tem o Ciro Nogueira, que é um cargo político. Os raros parlamentares, como Tereza Cristina, não foram em troca de apoio parlamentar. Não existe, no meu governo, troca de cargo por apoio parlamentar”, disse.

Privatização

Ciro Gomes levantou a questão da privatização da Petrobras, que voltou ao radar recentemente. A venda de estatais deve ser "uma ferramenta estratégica em projetos de desenvolvimento", disse. Ciro citou setores, como o siderúrgico, em que, segundo ele, as privatizações foram bem sucedidas no passado.

O candidato do PDT disse que deverá estudar a finalidade de cada estatal caso seja eleito, sem aprofundar o tema. Soraya Thronicke (União Brasil) afirmou que não venderia a Petrobras. "Não, a princípio não [privatizaria a Petrobras]. Eu gostaria de saber quantas estatais chegaram às mãos do atual governo. É uma empresa [a Petrobras] que dá lucro, uma atividade importante. Temos que falar dessas que ficam por debaixo dos panos", defendeu.

Simone Tebet (MDB) disse que seu governo será "parceiro da iniciativa privada", em debate com Felipe D´Ávila (Novo). "Aquilo que é bom ter que ficar na mão do Estado, tem que cuidar da saúde do povo, da educação", disse. "O que seria do agro se não tivesse o fomento do Banco do Brasil? A Caixa Econômica subsidia a construção de casas populares. Vamos privatizar estatais deficitárias, mas manter aquelas que são essenciais e estão dando certo", concluiu.

Lula afirmou que, se eleito, vai fortalecer o BNDES, a Caixa Econômica Federal, e o Banco do Brasil “porque são coisas que funcionam”. “Se tiver uma estatal que não presta para nada, ela vai deixar de existir", disse, respondendo a uma pergunta feita por Tebet sobre privatizações. 

Discussões

Diante de acusações mútuas, de apoio aos candidatos que estão na liderança das pesquisas eleitorais, o tom acabou escalando. Soraya perguntou se padre Kelmon temia "ir para o inferno" em função da gestão da pandemia realizada pelo presidente Jair Bolsonaro, de quem o candidato seria próximo.

Bolsonaro acusou Soraya de pedir cargos no governo. "A senhora seria muito dócil comigo, por exemplo, se eu tivesse atendido a senhora em todos os cargos que a senhora pediu para mim, por ofício, assinado", disse, após ser perguntado sobre a intenção dele de dar um golpe de Estado.

Segundo o presidente, Soraya "gosta de cargos, deitar e rolar" e, "como não conseguiu, se tornou inimiga nossa". Ele afirmou que a candidata usou o nome dele para se eleger senadora em 2018. Soraya respondeu que ele "deu, sim, cargos, que são divididos entre os apoiadores" e lembrou que Bolsonaro postou vídeo pedindo votos para ela nas últimas eleições.

Soraya perguntou a Bolsonaro o que ele quer dizer quando fala que "só vai respeitar as eleições se elas forem limpas", declaração feita em sabatina na TV Globo, e se o presidente "pretende dar um golpe de Estado" caso perca as eleições. Bolsonaro disse que esse não era o tema da rodada, sobre segurança pública, e não respondeu a nenhuma das perguntas.

Em seguida, Soraya perguntou se o presidente tomou vacina contra a covid-19. Novamente, ele não respondeu. "Comprei milhões de doses de vacina. Vacinou-se quem quis. Quem não quiser tomar vacina, que não tome", disse. O Palácio do Planalto decretou, no ano passado, sigilo de 100 anos sobre as informações que constam no cartão de vacinação do presidente da República.

Cultura e educação

No bloco de tema livre, coube ao Padre Kelman a questão referente à política cultural. Perguntado sobre o assunto por Bolsonaro, disse que a cultura foi "desprezada" em governos anteriores. "Havia peças teatrais de pessoas sem roupa e chamando isso de cultura", afirmou. "Isso é usar o dinheiro público para promover o desrespeito ao corpo humano, que deve ser valorizado. Então, é preciso investir na juventude para que o jovem adquira o conhecimento necessário", disse.

Com o debate se encaminhando para o final, Padre Kelmon se queixou de "falta de respeito" dos interlocutores. "Estamos precisando todos aqui de catequese, inclusive os jornalistas, e não sair acusando de falso padre", afirmou. "Se vocês aqui tratam o padre desse jeito, imagina o que fazem com o povo brasileiro", acrescentou.

O tema era educação, levantado por Soraya, com quem o candidato do PTB já havia entrado em discordância, que acabou sendo pouco debatido. Na réplica, a candidata do União Brasil criticou a falta de propostas. “O senhor não estudou e está parecendo o seu candidato que é nem-nem: nem estuda e nem trabalha", disse, em referência a Bolsonaro.

Padre Kelmon também criticou a política de cotas raciais. "Somos todos irmãos, o índio, o preto, o marrom. Somos todos brasileiros. Essa política cria mais divisão", afirmou. "Raça só existe uma, a humana. Precisamos enxergar o outro como um irmão. Essas pessoas de esquerda estão com retórica de dividir para dominar", disse o candidato do PTB.

“A lei de cotas é o pagamento que o Brasil tem de 350 anos de escravidão. Com a lei de cotas a gente conseguiu dar ao povo periférico o direito de estudar", disse Lula sobre o assunto.

Para a cultura, o candidato do PT defendeu uma descentralização. "Eu tenho feito reuniões em todas as capitais, com todo mundo, do povo periférico a artistas famosos, em como a gente vai transformar a cultura. As pessoas não têm noção de quanto dinheiro e investimento um show gera. Quero estabelecer uma cultura nacionalizada, sem ficar dependente do eixo Rio-SP", afirmou o ex-presidente.

Lula levantou a questão de programas voltados à cultura em pergunta direcionada a Ciro. "Minha proposta é recriar o Ministério da Cultura e rever as leis de fomento", respondeu Ciro. Ele também afirmou que, caso seja eleito, pretende rever as leis de fomento à expressão cultural. "Praticamente se concentram todos os recusos em São Paulo e no Rio. Quero adaptar as leis de fomento para que haja uma cota às expressões de cultura popular", afirmou.

Pautas ideológicas

“O governo que nos antecedeu não tinha qualquer compromisso, respeito com a família brasileira”, disse Bolsonaro. Ele classificou a gestão petista como “o governo que quis impor uma agenda de ideologia de gênero, ensinando crianças em sala de aula a se interessar por sexo precocemente, e um governo que quer liberação das drogas”.

O presidente garantiu que manterá o Auxílio Brasil de R$ 600, caso seja reeleito, com acréscimo de R$ 200 para beneficiários que conseguirem emprego. "Vamos manter, sim, com responsabilidade fiscal", disse. Segundo ele, na época dos governos do PT, "a média do benefício era de R$ 190" e "quem conseguisse emprego perdia o Bolsa Família".

Segundo o ex-presidente Lula, na gestão do PT o salário mínimo teve um aumento real de 80%. "Eu tive o prazer de governar o país e fazer a maior política de inclusão do país. Deixei o governo com 370 bilhões de reais de reservas internacionais", disse.

Reformas

Em dobradinha com o candidato Luiz Felipe D’Ávila (Novo), Bolsonaro criticou a esquerda, apontou a queda da inflação nos últimos três meses e prometeu que aprovará reformas se for reeleito. “Pode ter certeza, voltando agora, depois das eleições, vamos aprovar a reforma fiscal no Congresso”, disse.

“Apesar da pandemia, fizemos muitas reformas, e vamos continuar fazendo. Por decreto, tiramos 35% do IPI de 4 mil produtos. Com o Parlamento, reduzimos impostos estaduais”, disse Bolsonaro. “Fizemos tudo isso dentro da responsabilidade. Hoje temos uma das gasolinas mais baratas do mundo.”

Agronegócio

No bloco temático, Lula e Tebet abordaram o tema do meio ambiente. O ex-presidente disse que é possível ter um equilíbrio entre o agronegócio e a proteção do meio ambiente.

"Desde a COP15, o Brasil no nosso governo se transformou no país que mais combateu o desmatamento, reduzindo praticamente em 87%. Assumimos o compromisso de reduzir a emissão de carbono. Vamos proibir qualquer garimpo ilegal. Não há necessidade de invadir o pantanal para fazer plantação", afirmou o candidato do PT.

Simone Tebet disse que vai "devolver os órgãos de fiscalização e controle" e promover "o desmatamento ilegal zero" caso seja eleita. A candidata disse também que o agronegócio "põe comida na mesa do brasileiro", enfatizando que é preciso "cuidar também do meio ambiente".

Perguntado sobre o assunto, Bolsonaro disse que o pantanal “periodicamente pega fogo”. Segundo ele, “dois terços das nossas florestas estão preservadas, da mesma maneira que quando Pedro Álvares Cabral aqui chegou”. “A falta de chuva é responsabilidade minha, parabéns”, ironizou.

Bolsonaro também disse que foi à Rússia negociar fertilizantes para o agronegócio e que garantiu “a segurança alimentar do povo brasileiro” em momento de dificuldade. “Levei paz para o campo, titulando terras. Acabou o trabalho do MST. Por isso que o agronegócio tanto me ama e não ama a senhora”, disse a Tebet.

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