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De protagonista a coadjuvante: a queda do PSDB em números

Partido teve pior desempenho eleitoral de sua história. Sem acesso a recursos, futuro é desafiador

 (Orlando Brito / PSDB/Divulgação)

(Orlando Brito / PSDB/Divulgação)

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Alessandra Azevedo

Publicado em 21 de outubro de 2022, 11h27.

Última atualização em 21 de outubro de 2022, 11h52.

As brigas internas, a falta de renovação dos quadros e a ascensão de uma “nova direita” no país tiraram o PSDB do lugar de destaque que costumava ter entre o eleitorado até 2014. Depois de décadas como um dos principais protagonistas da política brasileira, o partido se tornou coadjuvante em disputas estratégicas nos últimos anos. 

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Em 2022, pela primeira vez desde a redemocratização, nenhum tucano se candidatou à Presidência da República. Mergulhado em atritos que expuseram a fragilidade da legenda e sem nomes com grande projeção nas pesquisas eleitorais, o PSDB ficou restrito ao posto de vice na chapa de Simone Tebet (MDB), que foi ocupado pela senadora Mara Gabrilli, de São Paulo.

Os tucanos nunca tiveram um resultado tão ruim como o deste ano nas eleições para o Congresso Nacional. A bancada na Câmara dos Deputados, que já vinha em trajetória de queda, foi reduzida a menos da metade da atual (veja abaixo). A sigla não elegeu nenhum novo senador em 2022. Restam os quatro eleitos em 2018, que têm mandatos até 2026. 

As perdas também são vistas nas Assembleias Legislativas. Depois de ter eleito 97 deputados estaduais e distritais em 2014, o número caiu para 73, em 2018, e para 54, em 2022. Não haverá nenhum tucano na Câmara Legislativa do Distrito Federal a partir de 2023, por exemplo.

O declínio do partido, apesar de ter ficado mais evidente no último dia 2 de outubro, não começou em 2022. A situação piorou neste ano, mas o desgaste já era observado pelo menos desde as eleições de 2018 e se agravou em 2020, quando a legenda perdeu dezenas de prefeituras e de cadeiras nas Câmaras Municipais (veja abaixo)

O fim da era tucana em São Paulo

A derrota mais significativa foi o fim da hegemonia do PSDB em São Paulo. Depois de 28 anos no comando do Palácio dos Bandeirantes, o partido não chegou ao segundo turno da disputa este ano. “O PSDB perdeu sua grande vitrine nacional”, diz o cientista político Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice. 

O atual governador de SP, Rodrigo Garcia (PSDB), teve 4,3 milhões de votos válidos no primeiro turno e terminou a eleição em terceiro lugar, atrás do candidato bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos) e de Fernando Haddad (PT), que somaram 18,2 milhões de votos.

Os números no estado já preocupavam os tucanos desde 2018, apesar da vitória de João Doria (PSDB) naquele ano, no segundo turno, com quase 11 milhões de votos. No primeiro, ele teve 6,4 milhões. Alckmin, em comparação, foi eleito governador no primeiro turno em 2014, com 12,2 milhões de votos, e em 2010, com 11,5 milhões. 

Os problemas do PSDB não se limitam a São Paulo. O partido não elegeu nenhum governador em 2 de outubro de 2022, embora tenha levado concorrentes ao segundo turno em quatro estados: Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Paraíba e Pernambuco. Em nenhum deles, porém, o candidato tucano terminou o primeiro turno na liderança. 

Do ponto de vista dos governos estaduais, o cenário mais otimista para o PSDB é se, neste ano, houver uma estagnação em relação às eleições passadas, o que só vai acontecer se todos os nomes do partido vencerem no dia 30. O PSDB elegeu quatro governadores em 2018 e cinco em 2014. Nas eleições de 2010, a sigla garantiu o comando de oito estados.

PSDB perde relevância no Congresso

A representatividade na Câmara também passou a diminuir drasticamente a partir de 2018, quando o partido elegeu 29 deputados federais, 25 a menos do que em 2014 e em 2010. De terceira maior bancada da Casa, foi para nona. “A partir daquele momento, já era possível ver como o PSDB começava a definhar”, lembra Noronha.

Neste ano, o número caiu para 13. Com os cinco deputados federais eleitos pelo Cidadania, partido que formou uma federação com o PSDB, a bancada contará com 18 representantes a partir de 2023. Ou seja, a legenda terá ainda menos influência do que tem hoje na Câmara, com poucas chances de conseguir a presidência de alguma comissão importante, por exemplo.

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Os resultados das urnas nos últimos anos mostram que o PSDB “tem perdido o lugar tradicional de principal partido de direita, porque o eleitorado está migrando para a extrema-direita”, considera Jonas Nobile, sócio sênior da Radar Governamental, consultoria especializada em relações governamentais.

Segundo Nobile, não é por acaso que, ao mesmo tempo que o PSDB cai, crescem os partidos ligados a Jair Bolsonaro. Depois de um desempenho recorde do PSL nas eleições de 2018, sigla que o lançou à Presidência naquele ano, o destaque de 2022 foi o PL, legenda à qual Bolsonaro se filiou em 2021 para tentar a reeleição.

O mesmo aconteceu no Senado. Enquanto o PSDB não conseguiu eleger nenhum dos cinco candidatos às 27 vagas em disputa este ano, o PL emplacou oito e terá a maior bancada da Casa a partir de 2023. Em 2014, quando também houve renovação de um terço da Casa, o PSDB elegeu quatro dos oito candidatos e garantiu uma bancada de dez senadores.

A conclusão de Nobile é que “a onda bolsonarista continua e beneficia muitos aliados do presidente, independentemente do partido em que eles estejam”. O fato de o PL ser a sigla de maior projeção agora “é um acaso”, afirma. “Os votos foram no bolsonarismo, não no PL, em si. É um movimento que continua tirando votos do PSDB”, avalia.

Sem espaço no Palácio do Planalto

A observação vale não só para o Congresso, mas também para a Presidência da República. A decisão do PSDB de não lançar candidato ao Palácio do Planalto neste ano veio depois de um dos maiores fracassos do partido, em 2018, quando teve o pior desempenho da história em uma corrida presidencial

O cenário já era de ascensão do bolsonarismo e de divergências internas entre os tucanos nos estados. Geraldo Alckmin, então candidato do PSDB, acabou em quarto lugar, com 5 milhões de votos, 4,76% do eleitorado. Um número muito abaixo do registrado ao longo das duas décadas anteriores, quando o PSDB ainda era o principal opositor do PT. 

Na disputa contra Dilma Rousseff (PT), em 2014, Aécio Neves (PSDB-MG) teve 51 milhões de votos no segundo turno, após conseguir 34,9 milhões no primeiro. Depois disso, os tucanos começaram a ser escanteados, “não necessariamente por uma rejeição ao partido”, mas pela migração para o bolsonarismo, ressalta Nobile.

O desgaste também foi influenciado por denúncias de corrupção envolvendo Aécio a partir de 2017, acredita Noronha, da Arko Advice. “Rapidamente, os eleitores buscaram uma outra opção, materializada no Bolsonaro”, afirma.

O descontentamento ficou claro nas urnas. Depois de oito anos como senador, eleito com mais de 1 milhão de votos em 2010, Aécio teve pouco mais de 100 mil votos para deputado federal, em 2018, e renovou o mandato com 85 mil, em 2022. 

Recursos escassos

Como os recursos e o tempo de propaganda dos partidos são calculados com base nas bancadas eleitas na Câmara, o PSDB terá menos espaço nas próximas eleições. A legenda, que teve acesso a pouco mais de R$ 300 milhões de fundo eleitoral em 2022, pode ver esse montante cair pela metade, se forem considerados os mesmos valores distribuídos neste ano, pelos cálculos da Radar Governamental.

Além disso, se o PSDB continuar a trajetória de queda, corre o risco de não conseguir cumprir os requisitos para acessar o fundo partidário em 2026. Para atingir a chamada cláusula de barreira em 2022, as legendas tiveram que eleger, no mínimo, 11 deputados federais, distribuídos em pelo menos nove estados, ou obter 2% dos votos válidos para a Câmara em nove unidades federativas.

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Daqui a quatro anos, a regra será mais rígida. O número mínimo de parlamentares eleitos passará para 13, e os votos válidos para a Câmara, para 2,5%. “Ou seja, caso o PSDB saia sem federação e tenha os mesmos resultados individuais deste ano, pode ficar fora da cláusula de barreira e sem acesso ao fundo partidário”, aponta Nobile.

Falta de liderança nacional

Além de recursos e cadeiras no Congresso, o PSDB perdeu quadros importantes nos últimos meses. O último foi João Doria, que anunciou a desfiliação em 19 de outubro, depois de mais de 20 anos na sigla. Em dezembro de 2021, Alckmin, que ajudou a fundar o partido, migrou para o PSB para ser vice na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência.

Falta ao PSDB, segundo Noronha, uma liderança forte no cenário nacional. “Quando Doria e Eduardo Leite (governador do Rio Grande do Sul) começaram a se destacar, eles entraram em movimento suicida, abriram disputa interna, e o partido saiu absolutamente dividido”, lembra.

Em novembro de 2021, Doria venceu as prévias e foi escolhido pré-candidato da sigla à Presidência. Leite perdeu por uma diferença pequena e continuou sendo visto como a melhor opção por uma ala insatisfeita. No fim das contas, o partido não lançou nenhum dos dois e resolveu entrar na chapa de Tebet. A Executiva Nacional do PSDB liberou os filiados para que votem como preferirem no segundo turno. 

Rodrigo Garcia anunciou apoio a Bolsonaro. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o senador Tasso Jereissati (CE) declararam voto em Lula. Leite se mantém neutro. A falta de consenso mostra que o principal desafio do PSDB é "se reconectar com a sociedade", diz Noronha. "As eleições municipais de 2024 serão o teste para ver se o partido consegue recuperar um pouco desse terreno perdido", diz.

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