Flávio Bolsonaro: candidato aposta em funk e dança para viralizar nas redes (Redes sociais/Reprodução)
Repórter de Brasil e Economia
Publicado em 19 de agosto de 2026 às 17h42.
O candidato sobe ao palco para discursar, mas parte da campanha está interessada no que acontece antes ou depois da coreografia. Pode ser um passo de dança, um refrão ou um gesto que caiba em poucos segundos de vídeo.
Nas eleições de 2026, candidatos recorrem à música e à performance para disputar atenção nas redes sociais — mas transformar visualizações em votos é uma tarefa mais difícil.
Um dos exemplos é o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato da oposição mais competitivo na disputa presidencial nesse início da corrida eleitoral. Ainda na pré-campanha, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) adotou o “Funk do 01” e passou a aparecer em eventos com movimentos inspirados no passinho.
Segundo integrantes da campanha, a estratégia foi pensada para ampliar sua presença no TikTok, plataforma de vídeos curtos, e alcançar jovens e moradores das periferias. A iniciativa também provocou resistência entre aliados.
Após o início da campanha, o senador e aliados também dançaram e dublaram a música "Baile da VJ", do cantor Eduardinho dos Teclados, hit nas redes sociais.
Sem dançar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escolheu um rap que reforça a narrativa política e a trajetória pessoal do petista. Durante a pré-campanha de 2022, o petista fez uma "sarrada no ar", um passo famoso do funk carioca, durante um encontro com jovens na Bahia.
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Para Cila Schuman, presidente do Instituto de pesquisa Ideia, a dança mostra, antes de tudo, uma adaptação das campanhas à forma como parte do eleitorado consome conteúdo.
“Dancinha não elege candidato, só mostra que a campanha entendeu como as pessoas consomem conteúdo hoje, especialmente no TikTok. Se tiver uma música e um gestual específicos, também pode aproximar o candidato do eleitor, gerando participação, ou então tentar rejuvenescê-lo", afirma.
Na avaliação de Cila, portanto, o ganho de atenção não deve ser confundido com apoio eleitoral.“Mas atenção não é voto. Se não houver uma candidatura consistente por trás, a dancinha vira só mais um vídeo que as pessoas esquecem no dia seguinte", diz.
Para Marcelo Vitorino, consultor e professor de marketing político, as coreografias também precisam ser entendidas como parte da produção dos eventos de campanha. Isso não significa, segundo ele, que todo gesto seja necessariamente falso.
“Espontâneo, no sentido de improvisado, quase nada é. Mas isso não faz da cena uma mentira, e é aí que muita gente se confunde. O que o profissional faz é montar a situação em que aquilo pode acontecer. Escolhe a música, a hora do evento, quem fica do lado do candidato, onde o celular vai estar. O gesto pode ser verdadeiro. Produzida é a cena.”
Essa preparação, segundo Vitorino, responde a uma mudança na própria função do evento político.
“Hoje se produz para o corte, sem meio-termo. O evento virou matéria-prima do vídeo, e não o contrário.”
O caso de André Fernandes (PL), na eleição municipal de Fortaleza em 2024, ajuda a dimensionar o potencial de alcance desse formato. Monitoramento do Gruppocom, grupo de pesquisa da Universidade Federal do Ceará, apontou conteúdo predominantemente baseado em danças e jingles no perfil do candidato. Em um dos períodos analisados, Fernandes chegou a 18 milhões de visualizações.
Outro levantamento, da FGV Comunicação Rio, mostrou que Fernandes concentrou 40,6% das interações no TikTok entre os candidatos analisados. Jingles de ataque e resposta chegaram a superar 12 milhões de visualizações.
O dado demonstra capacidade de geração de alcance e engajamento, mas, isoladamente, não permite atribuir votos à estratégia. Fernandes terminou aquela eleição derrotado por Evandro Leitão (PT).
O histórico de Fortaleza ilustra justamente a diferença apontada por Cila: milhões de visualizações podem demonstrar capacidade de circulação de uma campanha, mas não provam conversão equivalente em votos.Nesse ano, candidato a deputado federal, Fernandes está apostando nas dancinhas para ampliar seu alcance e também apoiar a candidatura de Ciro Gomes (PSDB).
Nas eleições de 2026, a estratégia também aparece nas disputas estaduais. Na Bahia, ACM Neto (União Brasil) recorreu à música e à dança em sua comunicação eleitoral, em uma continuidade de uma prática já presente em campanhas anteriores no estado. A música "Dale" tem o ritmo do pagodão baiano.
O atual governador, Jerônimo Rodrigues (PT), também apostou em uma música conhecida para disputar a atenção do eleitor. A música "Baiano tem o molho" do cantor Kannalha, hit do carnaval deste ano, se transformou em "o Jerô tem o molho".
Para Vitorino, a escolha do gênero musical não deve ser vista apenas como trilha sonora. Ela também pode funcionar como uma forma de identificar o público que a campanha pretende alcançar.
“Funk mira juventude e periferia, sertanejo mira o interior, e o eleitor capta esse recado sem precisar de tradução. É declaração de público, não trilha sonora", diz.
Para Vitorino, há ainda uma tentativa de transmitir características que campanhas têm dificuldade de comunicar por meio de propostas.
“Leveza, principalmente. É uma das coisas mais difíceis de comunicar numa campanha, porque não cabe em programa de governo e não cabe em debate", afirma.
Nem toda tentativa de combinar política e entretenimento passa pela dança. Renan Santos (Missão) levou a estratégia para outra categoria nas eleições de 2026: a apresentação musical.
No primeiro ato oficial de campanha, realizado no Largo São Francisco, em São Paulo, Renan encerrou o evento com uma performance musical inspirada no estilo de Bob Dylan.
Renan já mantém relação pessoal com a música, elemento que permite associar a performance à discussão feita por Vitorino sobre coerência entre a ação e a imagem construída pelo candidato.
“Quando não existe nenhuma verdade do candidato dentro da cena, o eleitor sente. Ele não vai escrever um artigo explicando por quê. Ele só passa o dedo", afirma.
Fora do Brasil, o presidente americano Donald Trump transformou seus movimentos ao som de “Y.M.C.A.” em uma marca de campanha nos Estados Unidos. O gesto passou dos comícios para vídeos de apoiadores e comemorações de atletas.
A mistura de música, coreografia e campanha não nasceu nas plataformas digitais. As próprias regras eleitorais ajudam a contextualizar a transformação dos eventos. Desde 2006, a legislação proíbe showmícios, eventos com apresentações de artistas destinados à promoção de candidatos. A vedação foi introduzida pela Lei 11.300 e permanece na Lei das Eleições.
Vitorino relaciona essa mudança ao surgimento de outras formas de entretenimento dentro dos atos políticos.
“Desde 2006, quando a lei proibiu o showmício, o evento político ficou sem trilha e sem artista, dependendo só do discurso para segurar a plateia. A dança é uma das saídas que apareceram para levantar a moral do ato com o que sobrou", afirma.
Nas redes, a coreografia ganhou ainda outra função, segundo o consultor: permitir que apoiadores reproduzam a mensagem.
“A questão nunca foi dançar bem. É criar um gesto simples, que o apoiador consiga reproduzir sem ensaio, no bar ou no aniversário do sobrinho. Quando o eleitor imita, é ele quem distribui a campanha, de graça. É o velho jingle, com a diferença de que agora quem canta é o eleitor e a rádio é o celular dele", diz.
Para Vitorino, o risco aumenta quando o recurso deixa de complementar a campanha e passa a ocupar o centro dela.
“Quando vira o eixo, o candidato deixa de ser projeto e vira personagem, e personagem diverte, mas não governa". “Dança é complemento, nunca âncora”, afirma Vitorino.