Risco de crise energética pode ter efeitos políticos, apontam analistas

Crise hídrica que ameaça afetar geração de energia no Brasil pode trazer mais um ponto de tensão ao governo e às discussões políticas, avalia o cientista político Murillo de Aragão no podcast EXAME Política

A preocupação com uma crise energética por causa da escassez hídrica que o Brasil enfrenta neste ano retornou à pauta, depois de quase 20 anos da crise de 2001. O tema pode trazer mais um ponto de tensão ao governo federal até o fim do ano, num momento em que o país espera que tenha início uma recuperação econômica da pandemia, avalia o cientista político e presidente da Arko Advice Murillo de Aragão.

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"Se realmente tivermos uma escassez de energia severa, isso poderá ter efeito nas perspectivas econômicas no final do ano, que são muito positivas", afirmou no último episódio do podcast EXAME Política (ouça abaixo na íntegra).

O analista afirma que caso a questão energética afete a economia, o problema pode ganhar dimensão política e respingar inclusive na eleição de 2022. "Seria um ingrediente a mais de um caldeirão de problemas que o Brasil enfrentaria na campanha eleitoral", afirma.

A avaliação é compartilhada pelo economista e fundador da empresa de pesquisa IDEIA Big Data Maurício Moura, que lembra o impacto do racionamento de energia de 2001 na opinião pública sobre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. "Ele carregou isso para o seu candidato na época, José Serra, que teve muita dificuldade de ir ao segundo turno", afirmou.

Moura ressalta, no entanto, que o impacto político dependerá das consequências da crise. "Como estamos esboçando uma reação econômica, uma notícia dessa pode ser muito ruim para o governo", afirmou.

Privatização da Eletrobras

Além do potencial efeito na popularidade do presidente, a ameaça da crise hídrica também pode recair no campo político sobre a discussão sobre a privatização da Eletrobras, defendida pelo governo e que está em tramitação no Congresso, avalia Aragão.

"Se realmente estivermos numa crise hídrica, todo o debate da privatização vai ser afetado pelo problema", afirma.

A medida provisória que autoriza a privatização da estatal está em discussão no Senado. Os parlamentares têm até o dia 22 deste mês para aprová-la antes que ela caduque.

Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou a MP com novas exigências, que têm sido consideradas "jabutis" pelo setor elétrico. Entre elas, está a obrigatoriedade de contratação prévia de 6 megawatts de termelétricas movidas a gás.

Uma estimativa apresentada nesta semana pela União pela Energia, que reúne associações do setor elétrico e industrial, em audiência pública no Senado nesta semana, prevê que as alterações devam gerar um custo extra de 41 bilhões de reais aos consumidores residenciais e industriais.

A medida está em discussão e ainda precisa de aprovação do Senado. No entanto, se a Casa retirar itens colocados pela Câmara, o texto terá de voltar para a sanção dos deputados. O curto prazo para que isso ocorra preocupa especialistas. E a crise hídrica pode ser ainda mais um empecilho para que a privatização da estatal ocorra, avalia Aragão.

"O problema é que depois o governo tem de colocar em prática várias coisas que vão desaguar na própria oferta das ações da Eletrobras. Se tivermos uma crise hídrica severa, o mundo político vai ter uma atenção, um cuidado com o debate maior do que teria se a gente não vivesse numa situação de crise", afirmou o analista.

Manifestações e polarização

As manifestações contra a gestão do governo federal na pandemia do último dia 29 de maio foram mais um fator de pressão para o presidente. Moura lembra que o movimento ocorre quando a gestão da pandemia pelo governo é aprovada por apenas 20% da população.

Apesar do momento de baixa popularidade do presidente, o analista avalia que os movimentos contrários ao governo ocorreram em um contexto inédito no país desde a redemocratização: enquanto o governo federal ainda detém uma base de apoio de 24%, como mostrou a última pesquisa EXAME/IDEIA no dia 21 de maio.

"Temos um momento interessante, porque todos os movimentos anti-presidente da República aconteceram com um grau de avaliação positivo desses governantes muito menor do que o que o presidente tem hoje", afirmou. "Nesse sentido, vivemos um cenário diferente, porque a gente tem um grande potencial de manifestações contrárias, mas temos uma base de apoio ainda muito relevante", afirma.

"Obviamente o mundo político entende isso. Conforme as pesquisas vão mostrando uma deterioração da popularidade isso respinga no mundo político e torna qualquer governabilidade muito mais complexa", avalia.

O analista avalia o momento como resultado de uma grande polarização política na sociedade. "Temos polarização, um grande contingente de desaprovação, mas temos também núcleos bem estabelecidos na sociedade que são favoráveis ao governo e estão dispostos inclusive a sair à rua para manifestar", afirma.

Na visão do especialista, movimentos como o da semana passada devem se repetir. Moura reforça que o governo depende de surpreender no ritmo de vacinação para que comece a recuperar sua popularidade.

"O governo Bolsonaro vai ter que de alguma maneira aprender a conviver com essas manifestações, porque estamos vivendo num país com grande contingente de avaliação ruim e péssima do governo federal e polarizado politicamente", projeta.

O analista aponta também que os protestos contrários ao governo no Brasil acompanham um movimento de insatisfação que percorre também outros países da América Latina que recentemente também têm tido manifestações contra a gestão federal, como o Paraguai e a Colômbia.

"Isso não tem sido uma coisa brasileira. A gente tem visto diversas manifestações de rua na América Latina durante a pandemia", ressalta. "Existe um sentimento da opinião pública em relação à percepção de má gestão da pandemia em diversos países latino-americanos e o Brasil agora parece que entrou nesse rol de países onde há manifestação nos períodos críticos da pandemia", avalia.

O podcast EXAME Política vai ao ar todas as terças-feiras. Clique aqui para seguir no Spotify, ou ouça em sua plataforma de áudio preferida, e não deixe de acompanhar os próximos programas.

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