Com reabertura, Brasil está apostando em receita desastrosa, diz Pasternak

Acúmulo de atrasos na chegada de insumo para vacinas e relaxamento de restrições com número ainda alto de mortes levam o país a situação grave, avalia a microbiologista no podcast EXAME/Política

A média móvel de mortes diárias por coronavírus, que na terça, 18, esteve próxima de 2 mil no Brasil, apesar de menor do que durante o pico registrado em abril, não deve ser comemorada, pois ainda mostra um momento crítico da pandemia no país, avalia a microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência Natália Pasternak. Segundo ela, o país recorre no momento a uma "receita desastrosa" na condução do enfrentamento à covid-19.

"É um número muito alto e que não deve ser normalizado nem comemorado. A queda deve ser vista como um incentivo para que esse número caia ainda mais, não para ser comemorada com reaberturas indevidas, em tempos errados", afirmou. A pesquisadora foi a convidada do último episódio do podcast EXAME Política (ouça abaixo na íntegra).

Em sua avaliação, o país passa por um momento grave na medida em que, enquanto relaxa medidas de restrição de circulação com contaminações e internações ainda em alta, sofre com a escassez de insumos para a produção de vacinas.

Após o atraso no envio de ingrediente farmacêutico ativo (IFA) pela China no início do mês, tanto ao Instituto Butantan, quanto à Fiocruz, as previsões de produção de imunizantes contra a covid-19 em maio foram reduzidas pelos dois centros. Na última sexta-feira, 14, o Instituto Butantan paralisou a fabricação da Coronavac no aguardo do material, que só deve chegar nesta quarta, 19. A Fiocruz também anunciou que, apesar da previsão dada para a chegada dos insumos para o dia 24, a partir do dia 20 ficará sem matéria-prima para seguir produzindo o imunizante da Astrazeneca.

"É um problema muito grave e que nos coloca numa situação de confiar plenamente e unicamente nas estratégias não farmacológicas que a gente nunca foi muito feliz em usar no Brasil", avalia a cientista.

Pasternak aponta que a contenção da pandemia em países que tiveram sucesso nas políticas ocorreu por uma combinação entre a vacinação e lockdowns, diferentemente do que o país vem fazendo. "O Brasil está apostando só em uma vacinação que ainda não existe em número suficiente para ter impacto. É uma receita bastante desastrosa", afirma.

Segundo ela, a estratégia que teria o potencial de conter a pandemia enquanto o Brasil não tem capacidade de vacinar a população em massa seria uma comunicação mais efetiva das autoridades sobre a necessidade de seguir protocolos e o isolamento, o que tem sido uma das principais falhas na condução da pandemia no país, em sua avaliação.

"Depende da nossa capacidade de implementar com sucesso as medidas de prevenção e com sucesso quer dizer que têm que ser implementadas e praticadas pela população de forma voluntária", ressalta. "O desejável é que se consiga informar a população de forma adequada para que ela voluntariamente colabore para mitigar a pandemia e entenda que sua colaboração é essencial", afirma.

Vacinas e os grupos prioritários

A pesquisadora analisa que o estabelecimento de grupos prioritários para a vacinação foi feito corretamente no início do programa nacional de imunização (PNI) ao considerar as pessoas com maior risco de exposição e morte com a doença. Porém a seleção de categorias da sociedade para receber o imunizante antes deve se limitar a esses grupos e ser reduzido ao mínimo possível, apenas enquanto não há doses suficientes para uma vacinação em massa.

"Os grupos prioritários só existem por causa da escassez de vacinas. Mas eles conferem uma lentidão ao processo, não tem como escapar disso", afirma. "O que não pode é começar a desviar para que todo mundo seja grupo prioritário. Ficar mudando de cidade para cidade, ou de acordo com o lobby de um grupo ou de outro que quer ser contemplado e infelizmente tem poder para pleitear isso, como por exemplo a inclusão de caminhoneiros atrapalha muito o andamento da vacinação", afirma.

Sputnik V

Diante das especulações sobre as motivações da negativa da Anvisa em aprovar a importação da vacina russa, no fim de abril, Pasternak afirma entender que a decisão teve caráter técnico. Segundo ela, os dados fornecidos pelo Instituto Gamaleya, responsável pelo imunizante, não permitem uma aprovação no momento.

"É uma vacina que desde o começo sofre muito com problemas de transparência de dados. Mesmo as publicações científicas têm sido contestadas na comunidade científica por falta de acesso aos dados brutos que o Instituto Gamaleya não quer apresentar", afirma. 

O podcast EXAME Política vai ao ar todas as terças-feiras. Clique aqui para seguir no Spotify, ou ouça em sua plataforma de áudio preferida, e não deixe de acompanhar os próximos programas.

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