Veículos chineses aguardam para serem exportados do porto de Suzhou, em abril de 2026 (CN-STR/AFP)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 7 de julho de 2026 às 06h00.
A Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) publicou no último sábado, 4, os critérios de distribuição da nova cota que zera o imposto de importação sobre veículos elétricos desmontados (CKD) e semidemontados (SKD) até dezembro. A norma privilegia as montadoras que mais importaram veículos entre 2023 e maio deste ano para a distribuição do benefício comercial, entre as quais estão a BYD e a GWM.
A cota para a importação desses veículos passou a valer no dia 1º de julho, mas, como a EXAME noticiou, ainda não podia ser usada porque estava pendente a regulamentação sobre como os US$ 463 milhões (cerca de R$ 2,38 bilhões) em valores FOB (que não incluem frete e seguro) seriam distribuídos entre as montadoras.
As montadoras tradicionais, o setor de autopeças e sindicatos ligados à indústria automotiva já instalada no Brasil criticaram a publicação da nova cota, aprovada pelo Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Camex), mesmo sem ter sido solicitada oficialmente por nenhuma empresa, nem discutida previamente com elas. O benefício, segundo executivos do setor automotivo e integrantes do governo Lula, foi proposto pela Casa Civil e atenderia aos interesses comerciais da BYD, principal importadora de SKDs e CDKs no país.
Pelo critério da portaria, 40% da cota serão distribuídos na proporção das importações anteriores realizadas entre janeiro de 2023 e maio de 2026. Outros 35% serão distribuídos proporcionalmente aos licenciamentos veiculares de cada marca nesse período.
Uma outra parcela, de 15%, será distribuída de maneira igualitária às montadoras que importaram nesse intervalo de tempo.
Os 10% restantes da cota não serão distribuídos previamente e serão concedidos por ordem de chegada de pedidos feitos à Camex por empresas que não tenham recebido uma parcela na distribuição inicial ou que já tenham consumido a parte que lhes cabia. Esse saldo remanescente será distribuído a partir de 1 de novembro deste ano.
O novo critério foi uma espécie de solução de meio-termo do MDIC. As montadoras tradicionais pleiteavam que o MDIC considerasse, na distribuição, apenas o desempenho exportador dos últimos seis meses, quando já havia montadoras estabelecidas no país que concorriam com a BYD, líder de mercado no segmento.
Havia no mercado um temor de que a nova cota repetisse a formulação de um benefício anterior similar, também de US$ 463 milhões de isenção, que foi anunciado pelo governo no ano passado e que valeu entre julho e dezembro de 2025. O critério de distribuição da isenção anterior era a performance importadora registrada em 2023, o que, na prática, fez com que a BYD tivesse a maior parte da cota.
Desta vez, o benefício tem como critério um período de três anos e quatro meses, até maio deste ano. Reservadamente, montadoras tradicionais ainda veem a distribuição de forma crítica, porque a gigante chinesa seguirá com uma parcela importante da cota de isenção. A GWM, outra pioneira na importação, também poderá ter participação relevante. Novos entrantes, como Leapmotor e Geely, devem ficar com uma fatia menor da distribuição.
À época, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) pedia a antecipação do cronograma de recomposição do imposto de importação de veículos elétricos e a BYD pedia uma cota de isenção. As montadoras tradicionais argumentam que a isenção desincentiva investimentos na industrialização do país, ao passo que os chineses afirmam que têm um cronograma de aportes em sua fábrica em Camaçari, na Bahia, e que a isenção é temporária.
"Os dois lados têm pontos importantes, mas, do ponto de vista da política industrial, vale ressaltar que o desenho da cota não exigiu nenhum compromisso de que a isenção de imposto tenha contrapartida em preço menor ao consumidor, por exemplo. Isso pode virar margem de lucro dos importadores", ressalta Vito Villar, coordenador de Comércio Internacional na consultoria BMJ.
A cota de 2025 foi uma contrapartida à antecipação, em um ano e meio, do cronograma de recomposição do imposto de importação de veículos elétricos para 35% em janeiro de 2027.