Fachada da Casa Branca, em Washington (Saul Loeb/AFP)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 16 de julho de 2026 às 00h07.
Última atualização em 16 de julho de 2026 às 09h04.
Apesar das cinco reuniões de negociação que tiveram lugar nas últimas seis semanas com a equipe de negociadores do governo Lula, um oficial do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) afirma, reservadamente, que não houve empenho por parte dos brasileiros para evitar ou mitigar as razões do tarifaço.
Apesar dessa afirmação, o representante comercial americano, Jamieson Greer afirmou que a relação com os negociadores brasileiros é boa e que ainda há espaço para uma renegociação do tarifaço de 25%, que entra em vigor em 22 de julho. "Nós permanecemos abertos a continuar as negociações com o Brasil para promover mudanças há muito necessárias em relação aos problemas identificados nesta investigação", disse Greer em comunicado oficial divulgado pelo USTR.
Os Estados Unidos anunciaram, na noite desta quarta-feira, 15, a imposição de uma tarifa de 25% sobre as importações brasileiras, com exceções para setores como o aeroespacial, além de carne, café e outras commodities.
As reuniões entre as equipes dos governos dos EUA e do Brasil ocorreram após pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante visita à Casa Branca em maio. Desde então, houve cinco encontros, o último deles na véspera do tarifaço anunciado nesta quarta-feira. Pelo lado brasileiro, as conversas foram lideradas pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, com participação do Itamaraty.
O oficial americano ouvido pela EXAME afirma que os americanos esperavam que a equipe brasileira fosse mais construtiva quanto aos elementos apontados como principais problemas na investigação aberta pelo USTR, a exemplo da tarifa imposta ao etanol americano pelo Brasil e do tratamento supostamente privilegiado dado ao Pix em relação a outros meios de pagamento.
Do lado brasileiro, no entanto, integrantes do governo Lula familiarizados com as negociações têm a visão contrária. A percepção dos brasileiros é de que os argumentos técnicos do governo Lula não foram levados em conta pelo USTR e que os EUA não apresentam demandas comerciais claras e factíveis de serem atendidas.
No início deste mes, o governo brasileiro apresentou ao USTR o que o ministro Márcio Elias Rosa chama de "mapa do caminho": um documento no qual o Brasil dá garantias sobre ações que pode adotar em seis áreas contempladas na investigação aberta pelo órgão americano com base na Seção 301 - comércio digital e meios de pagamento, proteção ao meio ambiente, à propriedade intelectual, tarifas preferenciais, combate à corrupção e tratamento dado ao etanol americano.
A avaliação do governo Lula é de que não houve avanço nas tratativas e que a motivação da investigação e de eventuais tarifas é política: apoiar o pré-candidato Flávio Bolsonaro nas eleições brasileiras.
Um integrante do governo afirma, reservadamente, que o Brasil não saiu da mesa de negociação até o último minuto, mas que a equipe brasileira sinalizou desde o início que há pontos inegociáveis, como concessões relativas ao sistema de pagamentos do Pix. O modelo brasileiro é criticado pelo USTR, que o vê como uma concorrência desleal aos meios de pagamento americanos, como as bandeiras de cartão Visa e Mastercard.