Lula será candidato à Presidência pela sétima vez neste ano (Reprodução)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 2 de agosto de 2026 às 20h00.
Aos 80 anos e rumo à sua sétima eleição presidencial, Lula chega ao pleito deste ano como favorito diante do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas está longe de ter um caminho tranquilo para garantir a reeleição.
A disputa tende a ser apertada, mesmo diante de uma candidatura bolsonarista enredada em crises. A convenção nacional do PT, que reuniu cerca de 3 mil pessoas em São Paulo neste domingo, 2, serviu para demonstrar a união da esquerda e da centro-esquerda em torno de Lula e evidenciar as principais estratégias de sua campanha.
Para ampliar a vantagem sobre Flávio, o presidente pretende se apresentar como o candidato da defesa da soberania nacional e consolidar sua preferência entre as mulheres. Ao mesmo tempo, sua equipe se prepara para responder à exploração de suspeitas envolvendo seus familiares.
A pesquisa mais recente do Datafolha, publicada em 25 de julho, mostra Lula com 48% das intenções de voto em um eventual segundo turno, contra 43% de Flávio.
Apesar da dianteira, aliados do presidente e integrantes da campanha não esperam que a diferença de cinco pontos percentuais necessariamente se mantenha até a eleição.
Uma das principais preocupações é a exploração, pelos presidenciáveis da direita, sobretudo por Flávio, das suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Ele é investigado pela Polícia Federal pela suposta prática de tráfico de influência.
Apoiadores de Lula consideram, porém, que a declaração do presidente de que o filho terá de responder caso seja considerado culpado funciona, até agora, como uma espécie de vacina contra os ataques.
Na avaliação de integrantes da campanha, essa posição permite a Lula estabelecer um contraste com a postura adotada por Jair Bolsonaro diante das suspeitas e investigações que envolveram seus filhos.
A reunião ministerial na qual o então presidente manifestou a intenção de interferir em órgãos de segurança para evitar que familiares fossem prejudicados por investigações, por exemplo, deverá ser explorada durante a campanha.
Os aliados de Lula também pretendem destacar fragilidades de Flávio nessa área, entre elas suas relações com Daniel Vorcaro e Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário. A expectativa é que esses vínculos ganhem espaço quando o debate eleitoral avançar sobre as suspeitas relacionadas às famílias dos candidatos.
A dificuldade de Flávio para reunir grandes partidos do Centrão é vista como outra vantagem para Lula. A ausência de apoios como o da federação formada por PP e União Brasil tende a favorecer o petista na distribuição do horário eleitoral gratuito.
Com isso, o presidente poderá ter mais tempo de televisão e maior exposição na mídia do que o adversário bolsonarista.
Apesar da expectativa de que os casos envolvendo familiares sejam explorados, integrantes da campanha consideram que a discussão sobre eventuais tentativas, explícitas ou não, do governo dos Estados Unidos de influenciar a eleição poderá ter maior peso na disputa.
Trata-se de um componente inédito, pelo menos desde a redemocratização brasileira, e que deverá ocupar posição central no discurso eleitoral de Lula.
A estratégia do presidente, até agora bem-sucedida, será preservar o sentimento de união nacional contra atitudes intervencionistas.
O fenômeno conhecido como rally around the flag, expressão que pode ser traduzida como união em torno da bandeira, já beneficiou Lula após o primeiro tarifaço de Trump, em 2025.
Pesquisas indicam que as novas barreiras tarifárias têm produzido efeito semelhante. Flávio, por sua vez, terá a difícil tarefa de convencer o eleitor indeciso de que sua eleição não representaria uma carta branca para Donald Trump no Brasil.
O tarifaço, contudo, não deverá ser o único elemento do discurso de defesa da soberania. No governo e no PT, a declaração virulenta do presidente da Argentina, Javier Milei, durante a convenção nacional do PL, em 25 de julho, foi interpretada como um preâmbulo do que está por vir. Na ocasião, Milei chamou Lula de “presidiário” e “socialista com vocação autoritária”.
Lula e seus aliados esperam tentativas mais explícitas de intervenção externa, especialmente por parte do governo Trump. Cassações de vistos, sanções econômicas contra autoridades brasileiras e relatórios que questionem o sistema eleitoral do país estão entre as ações previstas pela campanha.
Nesse cenário, as reações de Lula, do governo e da campanha deverão ocorrer em duas frentes. No campo institucional, o governo pretende defender as instituições brasileiras e denunciar o caráter político de eventuais sanções.
No plano eleitoral, o presidente e seus aliados deverão reforçar o discurso de defesa da soberania, que até o momento tem lhe rendido dividendos políticos.
A declaração de que não pretende repetir a linha “paz e amor” da campanha de 2002, mas adotar uma versão “porreta”, indica que Lula poderá endurecer o discurso em resposta a eventuais ataques estrangeiros.
Embora nenhuma autoridade tenha mencionado explicitamente Trump ou Milei durante a convenção nacional do PT, o presidente da sigla, Edinho Silva, afirmou que uma vitória de Lula teria repercussões internacionais.
Segundo um integrante do governo com amplo acesso ao presidente, a eleição será acompanhada de perto por representantes de outros países interessados em saber se e como a gestão de Trump poderá tentar influenciar o resultado.
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) também reforçou essa estratégia ao afirmar que “a descrença nas urnas é cheiro de derrota” e que a urna eletrônica brasileira “é tão competente que não aceita voto de argentino e americano”.
A tentativa de consolidar Lula como o candidato preferido das mulheres será outro eixo crucial da campanha. A pesquisa mais recente do Datafolha mostra que 50% das eleitoras declaram voto no petista em um eventual segundo turno, enquanto 40% preferem Flávio.
Neste domingo, Lula iniciou seu discurso de 50 minutos reclamando da falta de espaço para as mulheres entre as falas que o antecederam e chamou a primeira-dama, Janja, para discursar.
Imediatamente antes do presidente, falaram à militância Edinho Silva, o ex-ministro Fernando Haddad e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Benedita da Silva (PT-RJ), Marina Silva (Rede-SP) e Simone Tebet (PSB-SP), contudo, também haviam discursado ao longo do evento.
Em seu pronunciamento, Lula voltou a fazer acenos ao público feminino ao afirmar que não quer o voto de homens que agridem mulheres e defender o amplo acesso a métodos contraceptivos pelo Sistema Único de Saúde.
A campanha pretende ampliar a vantagem nesse segmento do eleitorado, aproveitando a elevada rejeição de Flávio entre as mulheres.
A dificuldade do senador com esse público se tornou mais evidente após Michelle Bolsonaro - agora formalmente candidata do PL ao Senado pelo Distrito Federal - expor os problemas na relação com o enteado. Também contribuiu para esse desgaste a demora de Flávio em criticar o aliado Paulo Figueiredo, que declarou ser contrário ao voto feminino.