Para 47%, o encontro entre Flavio Bolsonaro e Trump foi responsável pelo tarifaço imposto ao Brasil (Reprodução)
Repórter especial em Brasília
Publicado em 7 de julho de 2026 às 13h44.
Última atualização em 7 de julho de 2026 às 14h55.
A participação do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na audiência pública promovida nesta terça-feira, 7, pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre as tarifas propostas contra produtos brasileiros evidencia o delicado equilíbrio político que o parlamentar busca manter. Ao mesmo tempo em que busca afastar a narrativa de que sua família estimulou o endurecimento comercial americano contra o Brasil, Flávio procura apresentar-se como interlocutor capaz de evitar a adoção dessas medidas. A estratégia, contudo, o expõe a um risco considerável: caso as tarifas sejam mantidas, ficará mais difícil sustentar o discurso de influência sobre o governo americano; caso sejam suspensas, terá de dividir os créditos com a atuação diplomática do governo Lula.
Desde que o USTR recomendou, em 2 de junho, a aplicação de uma tarifa de 25% sobre as importações brasileiras — posteriormente acompanhada da proposta de uma sobretaxa adicional de 12,5% sob alegações relacionadas ao combate ao trabalho forçado —, Flávio Bolsonaro tem procurado dissociar sua imagem da medida.
O esforço tornou-se necessário porque o anúncio ocorreu apenas uma semana após uma viagem aos Estados Unidos, na qual o senador se reuniu com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com o presidente Donald Trump. A coincidência cronológica foi explorada politicamente pelo Palácio do Planalto e por aliados de Lula como indício de alinhamento entre a família Bolsonaro e a pressão comercial dos EUA.
Na tentativa de neutralizar essa narrativa, Flávio enviou uma carta a Rubio criticando o governo Lula, mas pedindo que as tarifas não fossem implementadas. Mais de vinte dias depois, recebeu uma resposta do secretário de Estado reiterando críticas ao governo brasileiro, mas reconhecendo o pleito do senador. Nos bastidores do governo federal, a troca de correspondências foi interpretada como uma jogada ensaiada que buscaria legitimar Flávio como interlocutor do tema junto à administração americana.
O senador aprofundou essa estratégia ao protocolar no USTR um documento de 86 páginas pedindo que as tarifas fossem suspensas pelo menos até a realização das eleições brasileiras e ao se inscrever para participar de uma audiência pública voltada a empresários e à sociedade civil.
A proposta de Flávio não defende o abandono definitivo das barreiras comerciais e limita-se a sugerir seu adiamento, argumento que tem sido explorado por Lula e aliados como uma posição casuística e eleitoreira. Afinal, se as tarifas fossem efetivamente prejudiciais à economia brasileira, seria difícil justificar por que deveriam apenas ser postergadas e não definitivamente descartadas.
Há ainda uma contradição política relevante: embora Flávio sustente que o governo Lula estaria interessado em usar o tarifaço para capitalizar eleitoralmente, seus próprios argumentos econômicos convergem, em vários pontos, com os utilizados pelo Itamaraty e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) nas negociações oficiais.
Em seu discurso de cinco minutos na audiência pública desta terça-feira, por exemplo, Flávio defendeu o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, afirmando que "o PIX não é um problema a ser corrigido. É uma solução". Segundo sua pré-campanha, o senador argumentou que o sistema ampliou a inclusão financeira sem prejudicar as empresas americanas de meios de pagamento, já que as bandeiras de cartão dos Estados Unidos continuaram expandindo seus negócios no Brasil. Trata-se, essencialmente, da mesma linha adotada pelos negociadores brasileiros, que têm procurado demonstrar ao governo americano que o PIX não constitui prática discriminatória nem representa obstáculo à concorrência internacional.
Reservadamente, integrantes do governo afirmam que as conversas com representantes americanos pouco avançaram na discussão de soluções concretas para evitar as tarifas. Segundo esses relatos, Washington não apresentou demandas objetivas nem indicou quais mudanças poderiam levar à revisão da medida. A percepção entre diplomatas brasileiros é de que as justificativas comerciais funcionam mais como fundamento formal para uma decisão predominantemente política.
Flávio também usou argumentos políticos em sua fala. De acordo com sua equipe, o senador afirmou que as tarifas impostas ao Brasil em 2025 fortaleceram politicamente Lula, em vez de enfraquecê-lo, e advertiu que uma nova rodada de sobretaxas produziria efeito semelhante ao de penalizar a população brasileira sem atingir diretamente os responsáveis pelas decisões do governo.
O argumento do fenômeno rally around the flag, segundo o qual conflitos externos produzem um efeito de coesão nacional em torno do governo de turno, já ocorreu em 2025 e representa novamente um risco para a pré-campanha bolsonarista. Após o primeiro pacote tarifário, Flávio e família foram associados à sanção econômica e pesquisas de opinião registraram melhora na avaliação do presidente Lula, enquanto o governo explorou politicamente o discurso de defesa da soberania nacional.
A aposta de Flávio envolve uma equação política delicada. Se Washington recuar, o senador poderá reivindicar parte do mérito e reforçar a narrativa de que possui canais privilegiados junto ao governo Trump. Ainda assim, não monopolizará os créditos, já que o governo Lula também mobilizou sua estrutura diplomática, intensificou os contatos com autoridades americanas e mobilizou o apoio de empresários e exportadores para tentar evitar o tarifaço.
Se, por outro lado, as tarifas forem efetivamente implementadas (hipótese considerada mais provável por integrantes do governo brasileiro hoje), Flávio corre o risco de ser associado não apenas à incapacidade de influenciar a decisão americana, mas também à narrativa construída pelo Planalto de que a oposição atuou em favor de uma medida prejudicial à economia nacional. Nesse cenário, sua tentativa de assumir protagonismo nas negociações poderá transformar um ativo político em um passivo eleitoral.
Em última análise, ao buscar ocupar simultaneamente os papéis de crítico do governo Lula, interlocutor junto à administração Trump e defensor dos interesses econômicos brasileiros, Flávio Bolsonaro busca ampliar sua visibilidade, mas também concentra sobre si os custos políticos de um processo cujo desfecho depende, em grande medida, de decisões tomadas fora de seu alcance.