A cartilha eleitoral de Jair Bolsonaro

Político começou tour pelos Estados Unidos para ganhar respaldo internacional e mostrar que seu projeto para 2018 é pra valer, e já começou
Por Gian KojikovskiRaphael Martins

Publicado em 07/10/2017 às 08:55.

Última atualização em 09/10/2017 às 11:34.

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) botou o pé na estrada. Neste fim de semana, o deputado, segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República nas eleições de 2018, embarca para os Estados Unidos, onde passará uma semana fazendo palestras para investidores e analistas. É a primeira viagem internacional de Bolsonaro em campanha, exatos 364 dias antes das eleições. O objetivo é ganhar respaldo internacional e mostrar que seu projeto para 2018 é pra valer, e já começou.

O ponto alto do roteiro de uma semana é uma sessão de perguntas e respostas na George Washington University, na capital americana. “É um movimento inteligente do Bolsonaro de tentar se firmar como um candidato competitivo”, diz Marcos Troyjo, professor de Relações Internacionais e diretor do BRICLab na Universidade Columbia, nos Estados Unidos. “Lula fez algo parecido durante a campanha de 2002. Além da Carta ao Povo Brasileiro, escrita para acalmar o mercado, ele também mandou o José Dirceu aos Estados Unidos para mostrar suas intenções caso chegasse ao governo”.

No Brasil, Bolsonaro acumula polêmicas ao insultar políticos de esquerda, defender a ditadura e seus torturadores, além de criticar homossexuais, tripudiar de questões raciais. Ele refuta qualquer menção de seu nome como ícone da “extrema-direita”, mesmo tendo entre seus ídolos Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel do Exército por promover tortura a presos políticos quando chefiou o DOI-Codi, e ter quadros dos presidentes militares enfeitando a parede de seu gabinete em Brasília.

Sua postura durante os dias no exterior é uma incógnita. Mas deve ser uma grande oportunidade de ver uma versão mais light de um candidato com chances cada dia mais concretas de chegar pelo menos ao segundo turno em 2018. Para Troyjo, Bolsonaro terá que se adaptar ao que o mercado quer ouvir. “Se ele quiser se vender como um candidato interessante para o mercado americano, terá que ser fiscalmente espartano e abandonar o discurso nacional-desenvolvimentista. Ele precisa dizer que vai continuar a agenda de reformas, que vai levar a cabo o processo de privatizações e concessões”, diz. “Se ele mantiver o discurso econômico que faz no Brasil, será desastroso”.

“Bolsonaro aprendeu com o sucesso de Donald Trump a ser ambíguo quando fala sobre suas posturas. Não sei em comentários públicos, mas com certeza em reuniões privadas ele vai adaptar o discurso”, afirma James Green, professor da Universidade Brown e especialista em política latino-americana e brasileira. “Ou seja, ele é contra o ajuste fiscal no Brasil, o que é puro populismo, mas vai assegurar aos investidores que não é bem assim que ele pensa”.

O estilo de Bolsonaro está causando polêmica antes mesmo de chegar ao debate na George Washington University, agendado para o próximo dia 13. O evento é visto por diversos intelectuais, políticos e acadêmicos que estudam o cenário brasileiro — lá e aqui —, como a mais importante chancela à sua candidatura à Presidência. “Ao recebê-lo na sua universidade e permitir que ele fale, sua instituição estará ajudando um extremista de direita racista, sexista e homofóbico a conseguir reconhecimento internacional e solidificar a viabilidade política de sua candidatura, colocando efetivamente as comunidades vulneráveis no Brasil em grande risco de crescente discriminação e violência”, diz a carta de um abaixo-assinado contra o evento, firmado por mais de 400 pessoas.

Para o diretor da Brazil Initiative da George Washington University e responsável pelo convite a Bolsonaro, Mark Langevin, a intenção do evento é outra. “Ele vai ser confrontado por especialistas de uma forma como não vem sendo. Bolsonaro está acostumado a falar para pessoas que já estão alinhadas com seu pensamento, tem driblado debates, e aqui ele será desafiado”, afirma.

Uma fonte próxima ao evento disse a EXAME que a participação ajuda, sim, a legitimar a candidatura de Bolsonaro, mas que o evento preocupa o staff do deputado. “O pessoal dele não se preocupa com protestos, eles até gostam porque é uma oportunidade de chamar os manifestantes de vagabundos, comunistas, mas eles estão preocupados que ele fale besteira porque será uma das poucas oportunidades de discutir com pessoas inteligentes e com perguntas detalhadas”, diz. “Vai ser um desafio grande, porque ele não está bem preparado em relação à política econômica, não conhece a Constituição e não entende o conceito de direitos adquiridos”.

No fim das contas, a discussão dos especialistas é sobre como o tour de Bolsonaro impactará suas chances no Brasil. “Ninguém queria falar com ele e a viagem teria sido vista como uma derrota, mas a George Washington deu legitimidade para isso”, diz James Green. “Agora, ele vai voltar dizendo que foi a uma grande universidade e vai dizer que quem discorda disso quer censurá-lo”.

Na quinta-feira, o deputado esteve em Belém (PA), para participar das celebrações do Círio de Nazaré. Foi recebido por uma multidão no aeroporto e partiu para as celebrações em busca do “voto religioso”, grupo em que é forte mesmo de saída do PSC – está de casamento prometido com o PEN. Bolsonaro foi ao evento para disputar público com seu novo rival, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), que chegou a Belém um dia depois. O tucano tende a disputar diretamente votos com o deputado, pois ambos têm o mesmo perfil de eleitor em termos econômicos e de instrução, segundo uma pesquisa Datafolha divulgada no último domingo. É com Doria como candidato do PSDB que Bolsonaro mais perde votos, segundo o levantamento.

A estratégia de Doria foi clareada em reportagem do último dia 3 da revista Piauí. Foram vazadas conversas de um dos principais grupos de apoio ao prefeito, o Movimento Brasil Livre, indicando o interesse em unir votos de grupos do agronegócio e partidos como DEM e PMDB com os grupos evangélicos do país. Seria, segundo o grupo, a aliança perfeita para viabilizar uma chapa Doria/ACM Neto (prefeito de Salvador, do DEM). Bolsonaro foi ao Círio em busca de ressonância com os mesmo eleitores que na teoria votaria em Doria ou em Geraldo Alckmin, o outro pré-candidato do PSDB.

Bolsonaro não concedeu entrevista a EXAME.

Bolsonaro paz e amor?

A pessoas próximas, Bolsonaro diz que “amadureceu”. Ele mantém conversas com Adilson Barroso, presidente do PEN (futuro Patriota), para uma “suavização” de imagem. Seria uma guinada e tanto. Em agosto, o Superior Tribunal de Justiça confirmou a condenação por danos morais no imbróglio do deputado federal com a colega de Câmara Maria do Rosário (PT-RS). A sentença é de 10.000 reais de indenização por dizer que não a estupraria porque ela “não merece” em Plenário. Nesta semana, foi condenado a pagar 50.000 reais a comunidades quilombolas por comentários feitos em palestra no Clube Hebraica do Rio de Janeiro. “Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada”, disse na ocasião. “Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de 1 bilhão de reais por ano é gasto com eles”.

Parar de falar atrocidades é relativamente simples. Aprofundar-se em questões importantes para um presidente, ainda mais no Brasil de hoje, como política econômica, dá muito mais trabalho. Bolsonaro repete aos quatro ventos que é um “ignorante” quando o assunto é economia, em um desinteresse que tira o sono de economistas e investidores. Empresários, industriais e banqueiros, mesmo grupo que Bolsonaro tenta conquistar com sua viagem aos Estados Unidos, é refratário às surpresas que uma gestão bolsonarista poderia trazer.

“É um cenário desastroso. Se o mercado começar a perceber uma chance real de eleição, os indicativos vão por água abaixo. Hoje, o mercado acredita que vá surgir até lá um candidato melhor”, afirma Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio da Tendências Consultoria. “Ele tem ideias radicais, base política nenhuma, não tem posição sobre política econômica e, quando se pronuncia, é autoritária e até estatizante.”

Bolsonaro é um show de contradições. Diz ser favorável à privatização da Petrobras (não para chineses). Afirma que a exploração de minérios e riquezas do país, como o nióbio (do qual o Brasil tem amplo domínio do mercado internacional), deve ser controlada e fechada às empresas estrangeiras. É contrário à reforma da Previdência, apontada por dez entre dez economistas como fundamental para a correção dos gastos públicos. Votou favoravelmente à reforma trabalhista, numa posição que confundiu seus seguidores mais atentos.

“Bolsonaro só ficaria competitivo se procurasse entender um pouco de agenda econômica e se descolar de radicalidades. Ele sabe e tenta fazer isso. Terá que andar um pouco com o centro para dialogar com outros partidos e fazer alianças”, afirma o cientista político Humberto Dantas, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. “Se for parar no Patriota, vai desaparecer na campanha e não terá como se defender de ataques dirigidos a ele, como aconteceu com Celso Russomanno (PRB) na eleição de São Paulo”.

Para Carlos Manhanelli, cientista político especialista em marketing eleitoral, o poder da máquina partidária, como se conhece hoje, é questionável em um ambiente de revolta com a política tradicional. A estratégia de Bolsonaro, portanto, é de se manter como um candidato de extrema-direita respondendo às demandas da população insatisfeita, em especial nas questões de segurança pública. “Por agora, Bolsonaro vai insistir nas pautas mais extremas, como condenar aborto, imigração e estimular o porte de armas. Vai entrar nesses temas para ter eco na sociedade e se projetar. São frases soltas, de feito e de mídia”, diz. “Primeiro se tornará conhecido para depois pedir voto e formar um programa. Só se vota em quem se conhece e as pesquisas serão fundamentais para que ele entenda a cabeça do eleitor e escolha se mantém o extremismo ou suaviza o discurso”.

Segundo essa linha de pensamento, é cedo para Bolsonaro definir se o caminho está num discurso mais suave, ou na porradaria. É no resultado das pesquisas que será definido se Bolsonaro segue a linha Donald Trump, dos Estados Unidos, e Rodrigo Duterte, das Filipinas, que não recuaram dos extremismos, ou a vertente Lula, que adotou um discurso mais palpável para se viabilizar.

Um tema que aproxima Bolsonaro de políticos como Trump e Duterte é a segurança. Violência é uma preocupação nacional, especialmente no Rio de Janeiro, seu reduto eleitoral. Tanto Trump como Duterte focaram em segurança dando ênfase a questões locais. Para o americano, o foco estava na geração de empregos e no combate à imigração. O filipino se valeu do combate ao tráfico. “A realidade desses sistemas eleitorais é diferente do brasileiro. Bater tem limite e não é todo eleitor que gosta disso. Trump só venceu porque apostou nos lugares certos, mas teve menos votos que a oponente no total. Aqui, não teria vencido”, diz Humberto Dantas.

A internet é o canal

A máquina de divulgação de ideias de Bolsonaro está primordialmente nas redes sociais. Em levantamento da consultoria Bites, o deputado é líder absoluto no Índice de Alcance Social (IAS), uma métrica que soma de forma qualificada o número de seguidores que os pré-candidatos têm no Facebook, Twitter e YouTube. Bolsonaro tem 5,6 milhões de seguidores no IAS, seguido por Marina Silva (Rede), com 4,1 milhões, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), com 3,4 milhões, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 3,2 milhões.

No Facebook, rede social mais relevante no Brasil, tem larga vantagem numérica (4,6 milhões de seguidores) e de engajamento. Desde o início de agosto, quando a Bites iniciou um monitoramento dos presidenciáveis, o deputado teve 3,4 milhões de interações e 385.000 comentários em 139 posts. Lula, que no período saiu em caravana pelo Nordeste, teve 1 milhão de interações e 238.000 comentários em 183 posts.

Pelo estudo da Bites, Bolsonaro ganha público sempre que se apresenta como “anti-Lula” e em debates polêmicos de cunho conservador. O mesmo acontece, por enquanto em menores proporções, com João Doria. O poder de Bolsonaro na rede fica evidente em eventos como a exposição interativa com um artista nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo, que gerou um salto de seguidores na página do deputado na última semana. Até aquela data, ele tinha 4.577.837. Em três dias, contabilizava 4.626.064 — quase 50.000 a mais. Reações semelhantes acontecem sempre que o deputado esbraveja contra crimes violentos, enaltece o trabalho das forças armadas e policiais militares. Até no mundo real, a importância dessa narrativa se observa. Na chegada a Belém, nesta semana, Bolsonaro mandou um abraço ao general Antonio Hamilton Mourão, que defendeu “intervenção militar”, caso o Brasil não lide com seus problemas de corrupção. Foi ovacionado.

A vantagem de ter esse público cativo nas redes ganhou ainda mais força nesta semana, com a reforma política. Será permitido agora o uso de links patrocinados no Google e posts direcionados e impulsionados no Facebook. A nova ferramenta permite, além de escolher (e forçar) um determinado público a ver os conteúdos e propostas dos candidatos, fazer uso dos chamados “dark posts”. As postagens em questão podem ficar omitidas da rede para um determinado público escolhido, dificultando a defesa aos ataques comuns às campanhas políticas.

“Será um pleito em que o fake news será levado ao limite”, diz Manoel Fernandes, diretor da Bites. “Como não vai ter dinheiro, não vai ter financiamento privado, o político vai correr para a internet. Eu tenho certeza que toda a estrutura de campanha dos candidatos terá uma estrutura fake news”.

Na internet e fora dela, candidaturas de extrema-direita brasileiras vão se estruturando, uma tendência internacional que acometeu recentemente também a Alemanha e França. Aqui, contudo, não há Angela Merkel, uma chanceler equilibrada e firme, chegando ao quarto mandato, nem Emmanuel Macron, um candidato novo e de centro, que englobou as ânsias de diferentes espectros políticos. Na frente de Bolsonaro, há Lula, que corre risco real de não disputar as eleições se confirmada sua condenação em segunda instância no processo do tríplex de Guarujá, e que deve exacerbar ainda mais a polarização. A um ano da eleição, Jair Bolsonaro é uma realidade, mas é um candidato em formação.