7 de setembro: feriado é marcado por manifestações da direita (AFP Photo)
Colaboradora
Publicado em 7 de setembro de 2026 às 15h02.
O 7 de setembro é feriado nacional desde 1949, pela Lei nº 662, atualizada em 2002 pela Lei nº 10.607. A data celebra a independência do Brasil, mas nos últimos anos ganhou novo significado: virou termômetro de força política.
Isso porque o feriado cai bem no meio do calendário legislativo e, em anos eleitorais, funciona como um teste de rua para partidos e lideranças.
A tradição de usar o 7 de Setembro como palco de manifestações políticas se intensificou a partir de 2021, ainda no governo Jair Bolsonaro.
Naquele ano, o então presidente discursou na Avenida Paulista e criticou abertamente o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), chegando a dizer que não cumpriria mais decisões da Corte.
Desde então, a Paulista, em São Paulo, e a praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, se tornaram os principais palcos da direita bolsonarista nessa data.
Para mensurar o número de participantes nas manifestações, a cada ano, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) passaram a medir o tamanho real dessas multidões usando fotos aéreas processadas por inteligência artificial.
Em 2022, Bolsonaro ainda era presidente e disputava a reeleição contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O 7 de Setembro daquele ano funcionou como uma prévia de campanha, com atos simultâneos em São Paulo e no Rio.
Segundo o Monitor do Debate Político no Meio Digital, projeto de pesquisadores da USP e do Cebrap, o ato na Avenida Paulista reuniu 32.691 pessoas no momento de pico. Já em Copacabana, no Rio, a mesma metodologia estimou um público bem maior: 64.632 pessoas.
A contagem é feita com o método Point to Point Network (P2PNet), tecnologia de inteligência artificial que identifica cabeças em fotografias aéreas e tem margem de erro de 12%.
Foi a primeira vez que esse tipo de contagem técnica passou a ser usado de forma sistemática nos atos bolsonaristas, para além das estimativas contraditórias entre organizadores e órgãos de segurança.
Já em 2023, o cenário era outro. Bolsonaro havia perdido a eleição, ficado inelegível até 2030 por decisão do TSE e enfrentava as consequências políticas dos ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília, ocorridos em 8 de janeiro daquele ano.
Sem o ex-presidente no centro do palco, o 7 de Setembro de 2023 não teve grande mobilização da direita na Avenida Paulista.
A força de rua da direita naquele ano se concentrou em outras datas, como os atos de 26 de novembro e 10 de dezembro de 2023 na Paulista, que reuniram públicos bem menores (13,3 mil e 5,6 mil pessoas, respectivamente, segundo o mesmo Monitor da USP).
Em 2024, ano de eleições municipais, o 7 de Setembro voltou a ter grande porte. O ato foi convocado pelo pastor Silas Malafaia em conjunto com Bolsonaro, com foco no pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes.
De acordo com relatório da USP, o público de pico na Avenida Paulista foi de 45,4 mil pessoas, medido às 16h05, com margem de erro de mais ou menos 5,4 mil. Foi um dos maiores atos bolsonaristas medidos pela metodologia desde 2022.
A manifestação também teve um componente eleitoral direto: o então prefeito Ricardo Nunes (MDB) e o influenciador Pablo Marçal (PRTB), ambos candidatos à Prefeitura de São Paulo, disputaram a atenção do público durante o evento.
O 7 de Setembro de 2025 aconteceu em um momento de altíssima tensão política. A data antecedeu a retomada do julgamento de Bolsonaro pela trama golpista na 1ª Turma do STF, com sessões marcadas para os dias 9, 10 e 12 de setembro.
Pela primeira vez, Bolsonaro não pôde nem mesmo comparecer fisicamente. Desde 4 de agosto de 2025, ele cumpria prisão domiciliar por decisão do ministro Alexandre de Moraes, após violar medidas cautelares.
Mesmo assim, o ato na Avenida Paulista, novamente puxado por Silas Malafaia, reuniu 42,2 mil pessoas segundo a USP, uma queda de 7% em relação a 2024.
Poucos dias depois, em 11 de setembro de 2025, a 1ª Turma do STF condenou Bolsonaro por 4 votos a 1 a 27 anos e 3 meses de prisão em regime fechado, pelos crimes de tentativa de golpe de Estado, organização criminosa armada e outros três delitos.
Foi a primeira vez na história do país que um ex-presidente foi condenado por tentativa de golpe. Em novembro de 2025, com os recursos rejeitados pela Corte, Bolsonaro deixou a prisão domiciliar e passou à prisão preventiva.
Com Bolsonaro preso e inelegível até 2030, a disputa presidencial de 2026 passou a ter outro protagonista do clã: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), indicado pelo próprio pai como seu sucessor político e oficializado candidato à Presidência pelo PL em convenção realizada em julho de 2026.
Flávio iniciou oficialmente sua campanha em 16 de agosto de 2026, na praia de Copacabana, repetindo o roteiro de locais historicamente usados pelo pai.
E, seguindo a mesma lógica, convocou apoiadores para um novo ato na Avenida Paulista neste 7 de Setembro, com concentração marcada para as 15h.
Nas redes sociais, o senador pediu que lideranças políticas, religiosas e comunitárias gravassem vídeos de convocação e chamou o dia de "Dia de Resgate do Brasil", com o mote "Fora Lula, Fora Moraes".
A escolha da data, a um mês da primeira etapa das eleições de outubro, reforça a estratégia de usar o 7 de Setembro como demonstração de força às vésperas da disputa mais decisiva do calendário eleitoral.