Qual é o tom de verde da sua empresa?

Em tempos em que o ESG cresce em importância, o termo tem deixado de ser um mero instrumento burocrático e ganha relevância na estratégia de negócio

Por Viviane Martins

Sempre que uma empresa é aberta, ela também cria uma razão social, termo corrente para o nome de registro junto aos órgãos do governo. Em tempos em que o ESG cresce em importância nas agendas dos CEOs e do mercado, o termo tem deixado de ser um mero instrumento burocrático e ganha relevância na estratégia de negócio com seu significado semântico: o que ela significa para a sociedade.

Com tradução livre da língua inglesa para “ambiental, social e governança”, a sigla ESG já movimenta bilhões, inclusive, nacionalmente. De acordo com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), do R$ 1,73 trilhão de saldo da carteira de crédito para empresas em 2020, R$ 376 bilhões foram utilizados em operações destinadas às atividades classificadas como Economia Verde. Isso quer dizer que, de cada cinco reais emprestados pelos bancos para clientes pessoa jurídica no ano passado, mais de um real foi direcionado para empresas relacionadas à Economia Verde.

Para se ter uma ideia de como as instituições financeiras têm participado, o Banco Itaú anunciou neste mês de junho que investirá R$ 400 bilhões na Economia Verde até 2025, o Banco BV prometeu destinar R$ 80 bilhões a operações com critérios ESG até 2030, o Bradesco direcionará R$ 250 bilhões para crédito sustentável até 2025 e o Cartão do BTG+ oferece cashback para quem investir em fundos de bitcoin e ESG. E essas são só algumas das movimentações recentes que comprovam um aumento da participação da economia verde nas carteiras de crédito dos bancos.

Pauta essencial para companhias, bancos e gestores em todo o mundo, a Economia Verde exponencia a sua importância devido a necessidade em cuidar dos recursos que ainda restam, pelas possibilidades que novas fontes de energia e integrações com o meio ambiente proporcionam e em razão das novas relações sociais que têm se estabelecido. Neste cenário de mudanças, a recente proposta da Reforma Tributária para impulsionar a Economia Verde do País por meio de isenções governamentais movimentam ainda mais o setor. Levando em conta todo o potencial brasileiro e as possibilidades, surgem inúmeros caminhos para alavancar o segmento nacionalmente.

No entanto, como mostrou a pesquisa da Febraban, nem todos os setores são contemplados da mesma maneira. De acordo com a instituição, apenas 28% dos R$ 376 bilhões concedidos para Economia Verde, foram áreas de “alta contribuição social” como ’atenção à saúde humana’, ‘transporte aquaviário’ e ‘educação’. Por outro lado, os outros 72%, equivalentes a R$ 269 bilhões, foram para categorias de contribuição moderada, sendo que mais da metade, ou R$ 147 bilhões, foram para ‘eletricidade, gás e outras utilidades’.

Ao analisar com mais atenção os dados, é perceptível que, mesmo com tantas empresas vendo o ESG como essencial para a sua reputação e futuro, muitas delas ainda não exercem atividades realmente transformadoras. Sintomática, a recorrência do greenwashing, termo que define a prática de adoção de ações de sustentabilidade que se resumem aos discursos e não têm impacto na prática, demonstra a necessidade de amadurecimento das políticas verdes que têm sido vistas com cada vez mais atenção por organizações internacionais e pelo próprio Banco Central brasileiro. Em entrevista concedida no último mês ao jornal Financial Times, Campos Salles, Presidente do Banco Central, divulgou uma agenda de sustentabilidade que inclui desde monitoramento por satélite de fazendas que recebem crédito rural até a repressão ao greenwashing. “Precisamos ter certeza de que não temos (greenwashing) porque, se o tivermos, todos sofrerão com a reputação e basicamente destruiremos o mercado antes que ele nasça”, disse o economista. Para ajudar as empresas a reduzir as possibilidades de greenwashing é importante definir métricas claras e objetivas do impacto gerado e desdobrá-las em alcances intermediários.

Este cenário e horizonte de desenvolvimento do empresariado em relação ao ESG promovem tanto desafios de gestão quanto oportunidades. Em constante atualização, a taxonomia (área da biologia responsável por identificar grupos e índices) da Febraban tem incorporado a cada nova oportunidade as mais recentes referências internacionais como a Task-Force on Climate Related Disclosures (TCFD), padrão global para análise de riscos e oportunidades climáticas, a classificação da União Europeia, além dos Climate Bonds Standards e do Social Bond Principles.

Todos estes parâmetros, debates e foco em assuntos como mudanças climáticas, por exemplo, exigem que os gestores e empresas estejam atentos. Afinal, consumidores também veem cada vez com mais atenção e consciência as formas de consumo. Com um público pouco tolerante a práticas danosas à ética, sustentabilidade e ações que não sejam verdadeiramente comprometidas, é necessário que cada gestor ligue não mais o seu alerta vermelho, mas o verde para importância que ESG gera nos âmbitos financeiro e reputacional para as suas empresas.

Há inúmeros tons de verde e a sociedade têm estado cada vez mais preocupada sobre quais as verdadeiras razões sociais das empresas e para quais causas elas têm direcionado os seus ganhos e investimentos.

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