Trump está matando a economia americana por rancor

O revanchismo de Trump vem se tornado uma grande preocupação à medida que se aproxima a eleição presidencial americana

No ano passado o presidente Trump chamou Nancy Pelosi, presidente democrata da Câmara dos Representantes, de “pessoa maldosa, vingativa e horrível”. Ela não é, na verdade, – mas ele sim.

O revanchismo de Trump vem se tornado uma grande preocupação à medida que se aproxima a eleição presidencial americana. Ele já sinalizou que não irá aceitar os resultados caso perca, o que parece cada vez mais provável, embora não esteja garantido. Ninguém sabe que tipo de caos, inclusive violência, Trump pode estimular se a eleição não terminar como ele quer.

Mesmo sem essa preocupação, porém, um Trump derrotado ainda seria presidente durante dois meses e meio. Será que ele passaria esse tempo agindo de modo destrutivo, na prática buscando se vingar da América que o rejeitou?

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Bem, nós tivemos uma prévia do que uma presidência capenga de Trump pode vir a ser em 6 de outubro. Trump ainda não havia perdido, mas encerrou abruptamente as discussões sobre um pacote de auxílio econômico do qual milhões de americanos necessitam desesperadamente (embora em 8 de outubro tenha dado sinais de que iria recuar). E o motivo parece ter sido puro rancor.

Por que nós precisamos de auxílio econômico? Apesar de vários meses de grandes ganhos nos números de vagas, a América se recuperou apenas parcialmente das horrendas perdas de empregos nos meses iniciais da pandemia – e o ritmo da retomada está desacelerando até um relativo arrastar. Todos os sinais são de que a economia americana permanecerá fraca durante muitos meses, talvez até mesmo por anos.

Levando-se em conta esta realidade sinistra, o governo federal deveria continuar a oferecer o tipo de auxílio que ofereceu nos primeiros meses da crise: ajuda generosa aos desempregados e empréstimos que ajudem a manter pequenas empresas funcionando. Do contrário, logo nós estaríamos vendo milhões de famílias incapazes de pagar aluguel, e centenas de milhares de empresas quebrando.

Além disso, governos estaduais e municipais – que, ao contrário do governo federal, em geral têm de equilibrar seus orçamentos – estão à beira do precipício fiscal, porque o tombo pandêmico vem reduzindo drasticamente as receitas deles. Eles precisam de muita ajuda, e rápido, ou serão forçados a fazer grandes cortes de empregos e serviços. Nós já perdemos cerca 900 mil empregos em educação estadual e local.

Ou seja, há um argumento humanitário válido a favor de grandes gastos em auxílio: A menos que o governo federal entre em cena, haverá enorme sofrimento desnecessário. Há também um argumento macroeconômico: Se as famílias forem forçadas a cortar o consumo, se as empresas forem forçadas a fechar e se os governos estaduais e municipais forem forçados a cortes de gastos extremos, o crescimento da economia irá desacelerar e pode ser que nós deslizemos de volta a uma recessão.

Eu sei, eu sei, os suspeitos de sempre vão dizer que os pedidos de auxílio econômico são só mais liberalismo do governo. Porém, os alertas sobre os riscos de fracassar em oferecer mais auxílio não têm vindo apenas dos democratas progressistas; eles têm vindo de analistas de Wall Street e de Jerome Powell, presidente do Conselho do Federal Reserve.

No entanto, as negociações sobre o auxílio têm estado paradas há meses, mesmo que o auxílio especial aos desempregados e a pequenas empresas tenha expirado. O principal entrave, eu diria, tem sido a recusa taxativa dos republicanos do Senado em considerar auxílio aos governos estaduais e municipais; os democratas talvez concordassem com um acordo que incluísse auxílio significativo, ainda que isso tivesse ajudado Trump politicamente.

Porém, os republicanos vêm insistindo – falsamente – que a questão é socorrer os Estados mal administrados cujos eleitores predominantemente elegem democratas, conhecidos como Estados azuis. E Trump fez eco a essa mentira enquanto desligava os aparelhos em 6 de outubro, afirmando que as propostas de Pelosi não são nada além de um socorro dos “Estados democratas com criminalidade alta e porcamente administrados”. (Não que os fatos façam diferença, mas os Estados democratas na prática têm índices de criminalidade menores, na média, do que os Estados republicanos, ou “vermelhos”.)

A pergunta é: por que Trump escolheu rejeitar sequer a possibilidade de um acordo a menos de um mês da eleição? É verdade que já é tarde demais para uma lei fazer muita diferença quanto ao estado da economia em 3 de novembro, embora um acordo talvez pudesse evitar algumas demissões em empresas. Mas certamente seria do interesse político de Trump ao menos fingir que está tentando ajudar os americanos em dificuldades. Por que Trump escolheria este momento, entre todos os outros, para dinamitar a política econômica?

Até onde eu consigo ver, ninguém ofereceu um motivo político plausível, ou alguma maneira pela qual se recusar até mesmo a salvar a economia ajudaria as perspectivas de Trump. O que isso parece, em vez disso, é revanchismo.

Não sei se Trump espera perder a eleição. Mas ele já está agindo como um homem profundamente amargurado, atacando pessoas que ele considera que o trataram injustamente, o que inclui basicamente todo mundo. E como sempre ele guarda um ódio especial de mulheres espertas e firmes: na terça ele chamou Kamala Harris, candidata a vice-presidente democrata, de “monstro”.

No entanto, conseguir um acordo de auxílio teria exigido fazer concessões àquela mulher “maldosa” que é Nancy Pelosi. E parece que Trump preferiria deixar a economia pegar fogo.

A questão é que, se ele está se comportando deste modo agora, quando ainda tem alguma chance de ganhar, como irá se comportar se perder?

A preocupação mais imediata é que ele não vá aceitar os resultados da eleição. Mas nós também deveríamos estar preocupados com o que irá acontecer se ele for forçado a aceitar a vontade do povo, mas ainda estiver governando o país. Trump sempre foi vingativo; o que irá fazer se e quando não tiver nada além de rancor?

 (Paul Krugman/Exame)

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