O dilema escocês e a libra esterlina

O Brexit, ao qual cerca de 60% dos eleitores escoceses se opuseram, está forçando o eleitorado escolher entre permanecer no Reino Unido ou na UE

BERKELEY –  As chances de a Escócia se tornar independente aumentam a cada dia. No referendo da Escócia de 2014, cerca de 45% dos eleitores foram a favor da independência. O Brexit, ao qual cerca de 60% dos eleitores escoceses se opuseram, agora está forçando o eleitorado escocês a escolher entre permanecer no Reino Unido ou permanecer na União Europeia, levando a opinião pública ainda mais na direção da independência.

As confusas negociações comerciais do primeiro-ministro Boris Johnson na UE aumentam esse dilema. Como reflexo dessas pressões, o sentimento pró-independência ultrapassou 50% em seis pesquisas realizadas este ano.

Mas se você acha que as negociações do Reino Unido com a UE são tensas, espere pelas negociações com a Escócia. A receita do petróleo do Mar do Norte deve ser distribuída em uma base per capita ou geograficamente, semelhante aos direitos de pesca? A responsabilidade pelo serviço da dívida nacional do Reino Unido deve ser atribuída em função das rendas relativas nacionais ou das populações?

Depois, há acordos monetários. Pode-se pensar que este não é um assunto para negociação internacional. Muitos presumirão que uma Escócia independente deve ter sua própria moeda, administrada por seu próprio banco central.

Mas outra pesquisa recente mostrou  40% dos escoceses se descrevendo como “menos propensos” a votar pela independência se isso significasse substituir a libra esterlina. É certo que a pesquisa foi encomendada por um lobby pró-Reino Unido, o Scotland in Union (Escócia Unida). Ainda assim, o resultado é indicativo do desconforto que muitos escoceses sentem em trocar a libra esterlina por uma incerta moeda substituta.

Dez anos atrás, os escoceses pró-independência buscaram uma união monetária com o Reino Unido. A Escócia continuaria a receber os serviços de credor de último recurso e os benefícios da reputação de sua associação com o Banco da Inglaterra. Mas o governo do Reino Unido rapidamente jogou um balde de água fria sobre essa ideia. De qualquer forma, essa possibilidade foi discutida pelo Brexit, porque uma Escócia independente que já estava em união monetária com um país fora da UE não poderia voltar a aderir à UE.

Alguns sugeriram que a Escócia deveria criar uma nova moeda e atrelá-la firmemente à libra esterlina como um comitê monetário. Esse arranjo, argumentam os defensores, garantiria a estabilidade da moeda em relação ao Reino Unido, mas também permitiria à Escócia reingressar na UE. Após um período adequado, substituiria sua moeda pelo euro.

Nesse ínterim, no entanto, a Escócia não teria nada a dizer sobre o nível das taxas de juros vigentes no país. Não possuiria nenhum credor de último recurso. E se ela poderia se qualificar para a adesão à zona do euro não está claro. Um dos critérios de convergência para a admissão é manter a moeda estável em relação ao euro por dois anos. Manter a taxa de câmbio estável em relação ao euro, ao mesmo tempo que a atrela à libra esterlina, seria uma interessante manobra.

Isso deixa apenas a opção de uma nova moeda nacional administrada por um banco central independente que define a política de acordo com um mandato para garantir a estabilidade de preços. Mas, como os últimos anos mostraram, as metas de inflação são, na melhor das hipóteses, uma obra em andamento. Com os bancos centrais errando continuamente seus objetivos, os formuladores de políticas não conseguiram convencer o público e os investidores de que suas metas sejam verdadeiras. Além disso, será difícil estabelecer a independência do banco central em um ambiente politicamente carregado, onde já há pedidos para colocar todos os tipos de interesses especiais no conselho de administração da nova entidade.

Mesmo assim, a combinação de independência do banco central e metas de inflação é a alternativa menos ruim. A experiência da Suécia mostra que consegue proporcionar estabilidade monetária a um pequeno membro da UE que não adotou o euro. Claro, isso pressupõe um alto nível de disciplina fiscal, algo que a Suécia já demonstrou efetivamente, mas a Escócia ainda não.

De qualquer forma, o que é uma condição permanente para a Suécia será provavelmente uma fase temporária para a Escócia, que dificilmente conseguirá negociar uma opção de exclusão do euro. Mas isso não deveria ser um obstáculo. Ser membro da zona do euro parece uma opção segura, dada a união bancária, o reconhecimento do Banco Central Europeu de suas responsabilidades de credor de último recurso e o progresso da UE na criação de uma capacidade fiscal comum.

O primeiro passo, estabelecer uma nova moeda escocesa, não será fácil. Será necessário não apenas a impressão das notas, como também reprogramar os computadores dos bancos e converter contas corporativas e governamentais. Os caixas automáticos e os postos de pagamento de estacionamento terão de ser reformados. Vale a pena lembrar que levou dois anos inteiros para concluir a transição das antigas moedas da Europa para o euro. Um plano confiável para a Escócia exigiria que formuladores de políticas comecem a se preparar desde já.

Nada disso significa que a independência não acontecerá. Sei por ter vivido lá (há algum tempo, admito) que a identidade escocesa é forte. Os referendos de independência envolvem mais do que apenas economia, como o próprio voto do Brexit no Reino Unido demonstra amplamente.

Mas a Escócia precisa de um plano para uma nova moeda e de um banco central independente, bem como de um plano para sua subsequente transição para o euro. Isso ajudaria muito a tranquilizar os escoceses que anseiam pela independência, mas se preocupam com o que se segue à libra esterlina.

Tradução: Anna Maria Dalle Luche, Brazil.

Barry Eichengreen é Professor de Economia na Universidade da Califórnia, Berkeley. É autor do livro: The Populist Temptation: Economic Grievance and Political Reaction in the Modern Era. (A Tentação Populista: O Ressentimento Econômico e a Era Moderna).

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