Como vencer a guerra contra a covid-19

Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, falou sobre a retomada das economias ao Project Syndicate

Kenneth Rogoff fala mais…

Project Syndicate: O atual descompasso entre as valorizações da Bolsa e a economia real, você explicou recentemente, vem do fato de que”pequenas empresas e proprietários de negócios individuais”, em vez de empresas de capital aberto, estão sofrendo a maior parte do impacto da crise da covid-19. Você também notou que, à medida que o suporte do governo expira, muitas “empresas viáveis em condições outrora normais” vão quebrar, “deixando as empresas grandes negociadas na Bolsa com uma posição de mercado ainda mais robusta.” No enquanto, quando o presidente Donald Trump anunciou que havia encerrado negociações com o Congresso a respeito de uma nova proposta de incentivo, o mercado imediatamente estremeceu. Isso foi um soluço, provocado talvez pela compreensão de que as grandes empresas, do mesmo modo que as companhias aéreas, não seriam socorridas em nenhum momento no futuro próximo? Ou isso sugere que Wall Street e a Main Street não estão tão desconectadas, no fim das contas?

Kenneth Rogoff: Sem dúvida, grande parte do incentivo oferecido hoje é melhor descrito como um auxílio de emergência (bastante necessário). Programas públicos, como um auxílio-desemprego ampliado e transferências diretas de dinheiro, estão ajudando pessoas comuns, mas isso não significa que sejam maus para a Bolsa.

No entanto, as ações têm se beneficiado de vários outros fatores, em especial a taxa de juro zero e programas por meio dos quais o Tesouro mericano e o Federal Reserve vêm abastecendo títulos municipais e de empresas de maneira inédita. Se a contenção da covid-19 se provar mais difícil do que se imagina hoje, contudo, podemos ver uma série de concordatas, o que desafiaria a crença da Bolsa na disposição do governo em assumir grandes prejuízos para levantá-la.

PS: Presume-se que um novo pacote de incentivos virá, mesmo que isso não aconteça após a eleição presidencial da semana que vem. Que tipos de incentivos fiscais para as famílias e empresas escorariam de modo mais eficiente a economia real?Um novo pacote de incentivos deveria simplesmente ampliar as medidas que expiraram no início de agosto?

KR: No meio de junho, meu colega Jason Furman (ao lado de Tim Geithner, Glenn Hubbard e Melissa Kearney) apresentou um plano cujos elementos-chave – auxílio aos desempregados, benefícios trabalhistas para trabalhadores de baixa renda, socorro às pequenas empresas e ajuda aos governos estaduais e municipais, que têm sofrido restrições para empréstimos – continuam relevantes. Eu acrescentaria a esta lista elementos que mirassem ainda mais adiante, como gastos maiores em infraestrutura e educação (inclusive educação online para adultos).

Embora eu discorde veementemente dos que afirmam que a dívida é praticamente um almoço grátis, uma crise desta magnitude pede uma resposta gigantesca. Uma segunda onda de infecções está varrendo a Europa, e a crise continua a crescer nos EUA, que está passando por sua terceira alta de casos – e ainda não é nem inverno. Dificilmente esta é a hora para os governos aliviarem o auxílio, quanto mais mudar de rumo.

PS: Você admite que a persistência das baixas taxas de juros pode estar contribuindo para a efervescência da Bolsa. As empresas de tecnologia, você lembrou, estão se beneficiando de modo desproporcional, o que poderia em breve torná-las alvos da “fúria populista”. Como as taxas de juros profundamente negativas, que há tempos você vem defendendo, afetam estas tendências? Existem medidas – como as que você defende para prevenir “o acúmulo de dinheiro em larga escala” pelas empresas do setor financeiro – que impediriam as grandes de tecnologia de obter ganhos desproporcionais? Isso é necessário?

KR: O que importa mais para a Bolsa são as taxas de juros corrigidas pela inflação e, no longo prazo, os bancos centrais têm muito menos a ver com o nível destas taxas do que a maioria das pessoas parece imaginar. Quando a inflação está abaixo da meta (tipicamente, em torno de 2%) e a produção está fraca, os bancos centrais têm poucos motivos para resistir às pressões do mercado que vêm puxando para baixo as taxas de juros.

Na verdade, se não houvesse um limite inferior na taxa de juros nomimal, a maioria dos bancos centrais teria adotado taxas de juros muito além de zero a essa altura. (Como eu argumento no meu livro The Curse of Cash [A Maldição do Dinheiro, na edição em português], existem modos simples de remover este limite.)

De qualquer forma, embora seja verdade que a tendência de taxas de juros em baixa, em especial desde 2008, esteja beneficiando de modo desproporcional as empresas de tecnologia, isso não é motivo para mudar a política monetária. O que é necessário, em vez disso, são políticas antitruste mais incisivas, a começar pelas restrições quanto à aquisição de rivais em potencial.

PS: Uma maneira de facilitar tal mudança de política econômica, você escreveu em agosto, seria implementar uma sociedade “desendinheirada”, o que poderia significar adotar as moedas digitais, como a que a China vem tentando fazer. Embora esta abordagem “possa atrapalhar a habilidade da América de alavancar a fé em seu câmbio para perseguir seu interesse nacional mais amplo”, você argumentou que seria improvável “minar o predomínio geral do dólar no comércio e nas finanças mundiais” de modo significativo. A crise da covid-19 está desde então enfraquecendo o valor do dólar americano – e a fé na governança e nas instituições americanas – de maneira considerável. É verdade que hoje não há alternativa viável ao dólar como principal moeda global. Mas como o progresso nas moedas digitais em outros países poderia afetar a posição do dinheiro americano?

KR: Na verdade, o dólar mal se mexeu de onde estava no começo da pandemia. De 5 de março a 5 de outubro, o índice do dólar amplo do Fed diminuiu só um pouco – de 117 para 116.

Ethan Ilzetski, Carmen Reinhart e eu escrevemenos recentemente um artigo para a Brookings (organização sem fins lucrativos voltada ao estudo de políticas públicas) sobre a surpreendente estabilidade das principais taxas de juros durante a covid-19. Como nós e muitos outros temos mostrado, a posição do dólar americano nas finanças mundiais é mais robusta do que nunca.

No entanto, muitos países, inclusive nossos aliados europeus, guardam profundo ressentimento e desconfiança quanto ao controle que isso dá às autoridades americanas sobre o fluxo de informação dos pagamentos e transações mundiais. Na visão deles, desenvolver novos mecanismos digitais de pagamento poderia permitir a eles se esquivar disso algum dia.

Por sinal…

PS: Em um artigo de 2017 que você tuitou, John Lanchester usou sacadas d’A Maldição do Dinheiro para ajudar a explicar a tão discutida desmonetização da Índia em 2016. Apesar do caso inicial, Lanchester sugeriu que o experimento poderia levar “a um resultado que pareceria valer a dor de cabeça”. Quatro anos depois, value a pena? Falando em termos mais gerais, que lições a desmonetização da Índia pode dar para uma mudança rumo a uma sociedade desendinheirada em outros países?

KR: Meu livro de 2016 sugere que, em geral, economias desenvolvidas deveriam ser as primeiras a migrar para uma “sociedade desendinheirada” porque elas, sim, chegaram aos níveis mais elevados de inclusão financeira e possuem sistemas de pagamento digital mais consolidados que economias emergentes como a Índia. Eu também faço um alerta importante sobre mudanças súbitas, como as que a Índia promoveu. Dito isso, a Índia merece crédito por ter desenvolvido um sistema de identificação biométrica formidável que hoje inclui a maioria de seus 1,4 bilhão de habitantes, permitindo o fornecimento de contas básicas de débito gratuitas para centenas de milhões de pessoas.

Ainda no tema da mudança para uma sociedade desendinheirada, vale notar que, na maioria das economias desenvolvidas, a demanda cambial (principalmente no caso das moedas de valor mais alto) explodiu durante a pandemia. Isto parece ter mais a ver com um comportamento de acumulação, já que a pandemia em outros sentidos acelerou a participação do dinheiro em espécie no valor dos pagamentos. Aqueles que veem a explosão cambial como uma bênção para governos com fome de dinheiro deviam se lembrar que a capacidade de usar papel-moeda conta muito pouco num ambiente em que as taxas de juros sobre os empréstimos do Tesouro já estão em zero ou negativas. Além disso, não há dúvida de que as cédulas de dinheiro facilitam a evasão fiscal.

PS: Embora você historicamente tenha destacado os riscos do endividamento público excessivo, você também enfatizou que a crise da covid-19, do mesmo modo que uma guerra, exige gastos sem limite por parte dos governos. Porém, em linhas gerais, fica aparente quando alguém “ganhou uma guerra”, enquanto o fim de uma crise pode não ser tão claro. Em que momento – em termos de crescimento do PIB, desemprego ou outro(s) indicador(es) – a dívida pode se tornar mais nociva do que útil?

KR: A capacidade de emprestar de modo robusto para combater recessões, guerras e pandemias é, sem dúvida, algo muito bom e, em geral, que vale muito fazer. Porém, em condições normais, endividamento público não é um almoço grátis, e a maioria dos estudos acadêmicos recentes tem apontado uma relação entre um endividamento público muito elevado e uma tendência menor de crescimento.

Meu trabalho com Reinhart sobre dívidas (que tem sido respaldado e refinado por vários estudos acadêmicos atuais) não tem um limiar claro além do qual o endividamente público se torna “excessiva”. Os riscos podem variar de acordo com as circunstâncias de um país. Como nós notamos, um aumento na dívida de 89% para 90% do PIB não sinaliza uma queda drástica imediata no crescimento no longo prazo mais do que uma alta no colesterol de 199 para 200 marca o início iminente de uma doença cardíaca.

Há quem diga que os riscos associados ao endividamento público não são mais relevantes, porque as economias desenvolvidas podem emprestar com taxas de juros menores que seus índices de crescimento. Mas isso não é novidade para ninguém. Ao longo dos últimos dois séculos, os índices de empréstimos públicos têm estado muito abaixo das tendências de crescimento mais da metade das vezes, e isso dificilmente manteve os problemas longe.

PS: Segundo o ranking mantido pela Research Papers in Economics (lista coletiva mantida por voluntários para ampliar a disseminação de pesquisas econômicas), você está entre os 10 maiores economistas em termos de citações em trabalhos acadêmicos. Nos seus próprios textos, que trabalhos costuma citar com frequência?

KR: Há tanta pesquisa importante e interessante na economia hoje, e eu cito vários autores excelentes em meu trabalho. Tenho dificuldade de escolher um. Certamente eu sofri forte influência do orientador da minha tese, o falecido Rudi Dornbusch, a quem eu – e muitos outros – cito consideravelmente.

PS: Você se tornou um grão-mestre enxadrista em 1978, dois anos antes de obter seu PhD em economia no MIT. Como acha que o jogo – ou sua experiência jogando-o – afetou sua trajetória acadêmica?

KR: Provavelmente eu teria de escrever um livro inteiro para responder essa pergunta direito; um acadêmico mais produtivo sem dúvida já o teria feito. Como metáfora das crises econômicas, é surpreendente com que frequência uma posição aparentemente quieta e previsível de xadrez consegue às vezes fazer o tabuleiro explodir com mudanças inesperadas. E aqueles que acham que o progresso tecnológico está fadado a murchar pouco a pouco deveriam olhar para os avanços formidáveis do xadrez nos últimos 30 anos – um jogo que, ao longo dos séculos, já foi declarado virtualmente “resolvido” e, portanto, sem vida.

Rogoff indica

Deaths of Despair and the Future of Capitalism (Mortes por Desespero e o Futuro do Capitalismo, em tradução livre do inglês)

Por Anne Case e Angus Deaton

A partir dos estudos incrivelmente influentes de Case e Deaton sobre a mortalidade resultante da trágica epidemia de opioides nos Estados Unidos, este livro examina três causas de mortes – overdose de drogas, suicídios e doenças hepáticas ligadas a álcool – que vêm aumentando rapidamente desde meados da década de 90. É  extraordinariamente bem escrito – devastador, ainda que breve. E embora tenha sido publicado antes da crise da covid-19, a crítica à abordagem americana do sistema de saúde e à desigualdade é notavelmente profética.

The Great Demographic Reversal: Ageing Societies, Waning Inequality, and an Inflation Revival (A Grande Reviravolta Demográfica: Sociedades Envelhecidas, Desigualdade Minguante e uma Volta da Inflação, em tradução livre do inglês)

Por Charles Goodhart e Manoj Pradhan

Com certeza, quando os historiadores olharem para esta época, a extraordinária ascensão da Ásia – especialmente da China – será vista como o avanço econômico ímpar por definição (além da destruição ambiental e do aquecimento global). E, como venho dizendo desde 2003, a ascensão da China – além da integração do Leste Europeu à economia mundial – provavelmente explica as pressões inflacionárias incrivelmente baixas dos últimos 25 anos. Porém, quando se olha para as tendências demográficas, argumentam Goodhart e Pradhan, a mão de obra mundial está prestes a encolher, enquanto a proporção de idosos dependentes deve começar a crescer. Essas tendências são um presságio das pressões inflacionárias benignas de hoje.

And Then They Stopped Talking to Me: Making Sense of Middle School (Foi aí que Todo Mundo Parou de Falar Comigo: Entendendo o Ensino Médio)

Por Judith Warner

O ensino médio não é a primeira coisa que vem à cabeça de muita gente quando se fala em ensinar alunos de faculdade. Mas a exclusão social e o isolamento que Warner descreve de modo tão eloquente infelizmente se estendem à “cultura do cancelamento” que vem minando discussões intelectuais sérias atualmente.

Dos arquivos do PS

De 2018

Rogoff teme que o fracasso dos legisladores americanos em conter as cinco maiores empresas esteja barrando a inovação. Leia mais.

De 2017

Rogoff antecipa uma queda no preço do bitcoin no longo prazo, mas um futuro brilhante para a tecnologia que a estrutura. Leia mais.

Na internet

Rogoff, Reinhart e Ilzetski avaliam se a queda secular da taxa de juros e a volatilidade da inflação vão sobreviver à covid-19. Leia o artigo.

Em entrevista recente, Rogoff explica por que a crise da covid-19 é de fato diferente. Leia a transcrição.

Tradução por Fabrício Calado Moreira

Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, é professor de economia e políticas públicas na universidade de Harvard.

Direitos Autorais: Project Syndicate, 2020. www.project-syndicate.org

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