A silenciosa revolução na política econômica

Em uma recente entrevista, o ex-vice-governador do Banco da Inglaterra, Paul Tucker, disse que "a política monetária agora deve ficar em segundo plano em relação à política fiscal"

LONDRES – Algo extraordinário aconteceu com a formulação das políticas macroeconômicas. Em parte, devido ao impacto do COVID-19, a velha ortodoxia transformou-se em uma nova – mas sem ninguém reconhecer as implicações da mudança, ou mesmo que houvesse algum problema com o que era convencionado anteriormente.

Em uma recente entrevista, por exemplo, o ex-vice-governador do Banco da Inglaterra (BOE), Paul Tucker, disse que "a política monetária agora deve ficar em segundo plano em relação à política fiscal". Outros banqueiros centrais, mandarins do Ministério das Finanças e funcionários da OCDE e do Fundo Monetário Internacional estão dizendo quase o mesmo.

O que nossos paladinos financeiros nunca ou raramente reconhecem é como eles estiveram errados no passado. O Financial Times chegou mais perto ao admitir que os cortes de gastos que defendeu em 2010 “podem ter tido um impacto negativo maior do que o esperado”. Isso é quase um mea culpa que podemos esperar desta cidadela do establishment financeiro, e não chega perto de capturar a magnitude da ruptura com a teoria de política macroeconômica vigente há poucos anos.

Antes do crash de 2008-09, muitos acreditavam que a estabilização macroeconômica era uma questão inteiramente para os formuladores de política monetária e deveria ser conduzida por bancos centrais independentes visando uma taxa de inflação obrigatória por meio de política de taxas de juros. Isso decorreu da crença ortodoxa de que as economias eram ciclicamente estáveis, desde que a inflação fosse controlada. A política fiscal deveria ser passiva, ou mesmo contracionista, se cortes nos gastos aumentassem a confiança do mercado.

A crença na superioridade da política monetária sobreviveu até mesmo à forte desaceleração de 2008-09. A flexibilização quantitativa (QE), ou "política monetária não convencional", como foi chamada, substituiria a ortodoxa política de taxa de juros quando a taxa de referência nominal atingisse seu "limite zero". Os bancos centrais desenvolveram todos os tipos de fantasiosos "mecanismos de transmissão" pelos quais o dinheiro extra que colocaram nas mãos dos corretores de títulos fluiria para a economia real, ignorando a possibilidade de que a maior parte dele seria usado para repor as esgotadas reservas bancárias ou permutar ativos financeiros. Enquanto isso, os governos fariam sua parte cortando os próprios gastos.

Embora a combinação de expansão monetária e contração fiscal não tenha conseguido trazer a esperada recuperação, a crença na terapia monetária ainda era forte quando a pandemia do COVID-19 atingiu o mundo em 2020. Isso impediu os governos de pensar seriamente em canalizar as centenas de bilhões do novo dinheiro da QE às partes da economia real que permaneceram abertas para negócios, em vez de conceder meses de licenças remuneradas a milhões de pessoas.

Na verdade, a característica marcante das respostas dos governos ocidentais à pandemia foi seu caráter não específico. Os legisladores preferiram bloqueios e licenças coletivas a qualquer tentativa de manter as pessoas trabalhando, implantando sistemas tecnicamente viáveis ​​de testagem em massa, sistemas de rastreamento, como fizeram muitos países do Leste Asiático.

Agora a ficha caiu. Na ausência de incentivo, espera-se que as economias pós-COVID da Europa e dos Estados Unidos atinjam em 2020 a taxa mais alta desde a Segunda Guerra Mundial, com um concomitante aumento do desemprego. Agora, os esquemas de licença vão terminar e os bancos centrais dizem que estão ficando sem munição – ou seja, significando sua capacidade de manter os detentores de títulos confiantes de que serão reembolsados.

Nessas condições, a política fiscal é o único jogo disponível. Precisamos urgentemente de um novo quadro macroeconômico, que abranja os objetivos da política fiscal ativa, as regras para a sua condução e sua coordenação com a política monetária.

Em virtude de estarmos sofrendo tanto de um choque de demanda quanto de oferta, a política de recuperação também terá que abordar questões de oferta. Em outras palavras, é inadequado o remédio keynesiano para incrementar o lado da demanda de pagar às pessoas para cavar buracos e depois preenchê-los. Embora qualquer impulso direto à demanda também impulsione indiretamente a oferta aumentando a renda nacional, uma séria defasagem na resposta da oferta pode causar inflação. Por esse motivo, senão por nenhum outro, o investimento em novas capacidades deveria ser parte importante de qualquer estímulo fiscal.

Esse imperativo, por sua vez, direcionará a atenção dos formuladores de políticas para a natureza da oferta que as economias do futuro exigirão. Tendo em vista os desafios de longo prazo da automação e das mudanças climáticas, qualquer política de recuperação pós-pandemia deve ter como objetivo garantir a sustentabilidade da economia, não apenas sua estabilidade cíclica.

A questão da política fiscal não é apenas que ela é um estabilizador macroeconômico mais poderoso (por ser mais direcionado) do que a política monetária, mas também que o governo é a única entidade além do sistema financeiro capaz de alocar capital. Se não queremos permitir que o investimento em tecnologia e infraestrutura seja moldado por uma lógica puramente financeira, torna-se inevitável a necessidade daquilo que Mariana Mazzucato chama de estratégia de investimento público “orientada para a missão” que inclua política tributária.

A segunda grande discussão que precisamos considerar é a relação entre política fiscal e monetária. No Reino Unido, a expansão da QE desde março de 2020 acompanhou exatamente o aumento do déficit orçamentário. A percepção da independência do BOE e a credibilidade de sua meta de inflação poderão sobreviver enquanto o banco central tem atuado como agente do Tesouro no ano passado?

Se o governo pretende ser o protagonista macroeconômico ativo, precisamos descobrir como ou se o banco central deve voltar ao seu papel tradicional de controlar os excessos fiscais. Mas as próprias regras fiscais deveriam ser reescritas para permitir uma política anticíclica mais ativa e um papel muito maior do governo na alocação de capital do que aquilo que está moda no momento.

A pandemia apresenta uma oportunidade para uma discussão pública aberta dessas questões. Espera-se que esse debate substitua o sistema de acenos e piscadelas e entendimentos subterrâneos que moldaram nosso destino econômico – ou infortúnio – por muito tempo.

*Robert Skidelsky, Membro da Casa Britânica dos Lordes, é Professor Emérito de Economia Política da Warwick University.

Direitos Autorais: Project Syndicate, 2021. www.project-syndicate.org

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