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Como lidar com a solidão no home office e no futuro do trabalho híbrido

Descobrir a solidão crônica é doloroso, mas pode ser também um ensinamento e uma pista para o futuro

Três em cada dez millennials dizem que sempre ou quase sempre se sentem sós. Enquanto isso, 15% dos integrantes da Geração Baby Boomer afirmam sentir solidão com essa frequência e 20% da Geração X — os que fazem parte da Geração Y correspondem a 30%. Os nativos digitais também revelam uma falta de conexão íntima com as pessoas: 22% deles dizem não ter um amigo sequer, porcentagem maior que os 16% da Geração X e os 9% dos Baby Boomer.

Apesar do cenário triste, talvez você olhe para estes números e consiga entender um pouco da sua origem. Afinal, quem não se sentiu tomado pela solidão no último ano? Não foi, nem está sendo fácil e parece que, quanto mais nos aproximamos da possibilidade da vacina, mais ansiosos ficamos para reencontrar as pessoas — dos familiares e os amigos de longa data até aqueles colegas de trabalho com quem nem conversávamos muito, mas que agora até chamaríamos para um café.

Sim, estes dados parecem absolutamente naturais e seriam se, no entanto, não fossem anteriores à pandemia. As informações, veja bem, são de um levantamento divulgado em julho de 2019 pela empresa de pesquisa YouGov, ou seja, antes de concebermos a ideia de quarentena e de distanciamento social. O que me leva a uma pergunta: há quanto tempo nos sentimos sozinhos?

Entendo que os últimos acontecimentos potencializaram essa sensação e, de novo, sei que isso é natural dada a circunstância. Mas perceber que já caminhávamos nessa direção, que a nossa solidão já vinha se tornando crônica, pode nos levar a refletir sobre algumas questões, como o paradoxo de uma sociedade extremamente conectada, mas profundamente distante nas relações sociais.

Acho que podemos afirmar com segurança que aumentamos exponencialmente a nossa presença digital nos últimos tempos. De quantas reuniões você participa semanalmente? Em quantos webinars já se inscreveu? E em 2020, quantas lives acompanhou? Marcou presença em quantas happy hours virtuais? Tem quantos aplicativos para chamadas de vídeo no celular? Cantou parabéns online com a família, amigos e colegas de trabalho? Arrisco afirmar que, se isso fosse uma avaliação, a nota da maioria seria altíssima. Arrisco também dizer que, mesmo com uma pontuação elevada, você se sentiu sozinho em muitos momentos. Acertei?

Olha, comigo não foi muito diferente. Mesmo com uma vida digital agitada, mesmo com mais de 150 lives realizadas só em 2020, uma agenda repleta de reuniões de conselhos, no Grupo Cia de Talentos, no Bettha.com, não sei quantas horas de conversas online acumuladas, mesmo assim bate uma saudade daquele outro tipo de conexão. Do olho no olho sem uma tela entre esses olhares.

E isso não é “romantismo” da minha geração. Como a pesquisa bem mostra, a desconexão humana no mundo hiperconectado afeta a todos, inclusive com maior intensidade os mais novos. Por quê?

A resposta, claro, não é única nem simples, porém, acho que podemos encontrar uma pista na nossa relação com a tecnologia. No ano passado, depois das empresas terem se acomodado minimamente à nova realidade, lembro de surgirem conversas na linha do “viu como é possível adaptar tudo para o digital?”. Quem era contra o home office (ou o anywhere office), teve que aceitar e comprovou que, com boas práticas, pode funcionar.

Aqueles que gostam de entrar em uma sala de aula, testaram o EAD. Viagens de negócio se mostraram, em muitos casos, substituíveis por videochamadas. Os palcos dos eventos deram lugar para o Zoom, StreamYard, YouTube — e ainda foram desenvolvidos recursos para garantir a interação com o público.

Enfim, testamos e descobrimos um mar de possibilidades. Parecia que a vida digital, enfim, mostrava a que veio e solucionava nossas demandas. Só que as nossas demandas não são apenas estruturais e/ou processuais. O que quero dizer com isso?

Quando aponto a nossa relação com a tecnologia como uma das raízes para a solidão crônica (ou seja, quando a solidão deixa de ser episódios passageiros naturais na vida e persiste de forma crônica), me refiro à expectativa que depositamos nela. Uma expectativa de que o digital supra todas as nossas necessidades humanas, quando, na verdade, a proposta nunca foi essa. Será que não interpretamos mal o significado de “revolução digital”?

A tecnologia, como bem aprendemos, nos traz um mundo de possibilidades. Alternativas que podem se combinar à vida que temos e, mais ainda, às necessidades intrínsecas ao ser humano. Que ótimo que é possível repensar a estrutura do trabalho, que maravilhoso descobrir que não precisamos viver em pontes áreas, que bom poder encurtar o distanciamento social das pessoas queridas com uma tela. Mas não é suficiente porque todas essas inovações não foram feitas para serem isso, para serem suficientes.

Descobrir essa solidão crônica é doloroso, mas pode ser também um ensinamento e uma pista para o futuro. Um futuro híbrido em que as coisas não se dividem entre analógicas e digitais, mas um futuro em que, com sabedoria, saberemos combinar o melhor dos dois mundos: a ligação em vídeo para combinar o endereço onde nos encontraremos para aquele esperado abraço.

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