O trumpismo veio para ficar

Mesmo com a esperada vitória de Biden, Trump fará o que for possível para não sair do poder

A vitória de Biden, como esperado, não deve trazer estabilidade ao cenário até a posse em janeiro. Trump fará o que for possível para não sair do poder. Para os próximos anos já há apostas para todos os lados. Desde ele ser preso pelas diversas possíveis condenações que ele pode ter nos processos abertos na Justiça, até voltar triunfante daqui quatro anos, especialmente se Biden de fato não tentar a reeleição pela idade.

De qualquer maneira, ter um ex-presidente como Trump nessas condições nos faz lembrar aqui da América Latina em que presidentes que saem do poder não entram apenas para a história, mas mantém impacto na sociedade como se ainda fossem presidentes.

A sina de ser eventualmente condenado é algo que se viu no Brasil, Peru, Colômbia e tantos outros países. Tentar voltar daqui quatro anos é algo que mesmo países como Chile já vimos acontecer na volta de dois presidentes recentemente.

Ao seguir esse caminho Trump nos faz crer que os limites da América Latina poderiam estar caminhando para o Canadá. Parece radical dizer isso, mas o tipo de populismo que Trump tem incentivado, como salientei no último artigo, parece ter vindo mesmo para ficar.

A justificativa disso vai além das idiossincrasias do presidente e resvala no que tem sido a economia americana ao longo das últimas décadas. Desde os anos 70, os EUA deixaram de conseguir imprimir crescimento rápido dos salários da classe média em comparação com a classe mais alta.

Consequentemente, a desigualdade de renda segue crescente não parece ter sinais de reversão. Houve de certa forma uma captura de lobbies empresariais no Congresso e no Executivo, já muito bem levantado do ponto de vista político por Francis Fukuyama e da economia por Luigi Zingales e Raghuram Rajan.

Além disso, os cortes de impostos na classe mais alta iniciados no governo Reagan têm sido um dos componentes importantes de aumento dessa desigualdade, como muito bem avaliado por Emmanuel Saez e Gabriel Zucman em “The Triumph of Injustice”. Rajan também identificou um incentivo crescente ao crédito desde os anos 70 quando já se via que os salários não cresciam mais no ritmo de antes.

Essa demanda reprimida acabou por diminuir a repressão financeira comum nos EUA do pós-guerra, mas também abriu as portas para lobbies do sistema financeiro conseguir, por exemplo, a revogação do Glass Steagall Act em 1999, que permitiu que a separação entre bancos comerciais e de investimentos acabasse.

A junção dessas duas esferas acabou por aumentar os riscos sobre os bancos comerciais que permeou a crise de 2008 e alimentou a crise financeira para níveis parecidos com a da Grande Depressão. Crise financeira essa que afetou severamente a classe média americana, mas sem o mesmo sinal de responsabilidade pela crise ter acometido o sistema financeiro. Nesse sentido, o Brasil parecia mais avançado na regulação bancária que os EUA.

As empresas de tecnologia talvez tenham sido as que mais se beneficiam dessa capacidade de influência em Washington. E cada vez mais fica claro que o elevado grau de monopólio no setor tem sido responsável por preços de serviços de tecnologia nos EUA maiores do que, por exemplo, a França, uma país não muito conhecido pela competitividade.

Mas a proteção política nesses mercados tem sido responsável por perdas de bem estar e de renda disponível para os americanos, o que foi muito bem documentado pelo recente e necessário livro de Thomas Philippon, “The Great Reversal”. Será difícil não haver uma busca por maior competitividade no setor de tecnologia que não passe pela quebra de monopólios no setor.

Além disso, atrelado a esse problema no setor tecnológico, o processo de inovação nos EUA também tem sofrido capturas preocupantes nas últimas décadas. Segundo B. Zorina Khan em seu livro “Inventing Ideas”, os EUA se diferenciaram da Europa em inovação no século XIX por permitir um sistema de patentes que de fato protegia a invenção de qualquer um e não empresas ou famílias já estabelecidas.

A quebra de monopólios permite que a livre transmissão de ideias inovadoras não fique estagnada nas mãos de poucas empresas, algo também identificado no estudo de Philippon. Esse tipo de concentração e controle de lobbies é algo que na América Latina é mais do que conhecido e tem o nome já clássico de crony capitalism, ou capitalismo de compadrio.

Mas talvez o que mais começa a fazer os EUA lembrar a América Latina é o que nos traz o livro de Angus Deaton e Anne Case, “Deaths of Despair”. A expectativa de vida dos americanos está caindo e passa por uma perda de qualidade de vida que afeta especialmente a população em idade produtiva que tem acesso a um sistema de saúde proibitivo.

A cobrança de um sistema fortemente meritório coloca pressão em cima de uma sociedade em que mais da metade não tem o ensino superior e ela que maios sofre. Segundo os cálculos dos autores, são 38% da população americana que está sofrendo e morrendo em taxas crescentes de suicídio e consumo excessivo de álcool e opioides.

Esse certo ar de decadência de uma sociedade desprotegida que se vê morrendo com um sistema impagável de saúde e com custos crescentes que comprimem ainda mais sua renda só poderia levar ao elevado grau de polarização que se percebe. Há um descontentamento crescente que leva a fenômenos como Trump e o Trumpismo existirem.

Para piorar a sensação de pressão sobre o americano médio, a China, com Taiwan e Hong Kong, surge no horizonte como um competidor que, por exemplo, está prestes a dominar a capacidade de inovação em semicondutores em cima da Intel, algo inédito. O descaso republicano histórico com ciência básica que não vem de Trump apenas ajuda a explicar a possibilidade de a China dominar a ciência nessa década que se inicia.

São muitas preocupações que dependeriam de um trabalho conjunto dos partidos democrata e republicano para serem resolvidos. Mas, com certa clareza, isso não vai acontecer e devemos ver os americanos se sentindo estressados e frustrados por não terem mais o que tiveram no passado. Ou seja, não parece que o trumpismo irá embora tão cedo.

*Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados

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