O que significa a vitória de Biden para o Brasil?

Para o Brasil, há significados importantes que precisamos acompanhar

A eleição americana trouxe um misto de alívio e preocupação. Alívio pelo significado de que há um centro moderado que ainda vive e que consegue barrar populistas como Trump. Mas fica o sentimento crescente de tensão com a manutenção de um trumpismo revigorado, já levantado no artigo anterior. Como imaginávamos, Trump se lança como candidato em 2024 e, caso não tenha problemas legais que o impeçam, será uma grande pedra no sapato do governo democrata.

Esse conjunto significa um governo Biden com mais dificuldades de governar do que se gostaria. Um eventual Senado republicano, com Trump e suas pretensões presidenciais, barrará muitas das decisões democratas. Será um governo mais normal, mas ainda assim com dificuldades de gestão importantes, especialmente em um momento de saída da pandemia.

Para o Brasil, há significados importantes que precisamos acompanhar. Em um primeiro momento, pode haver certa volta de exportações de grãos dos EUA para a China por conta da diminuição da guerra comercial. A normalização tarifária pode fazer com que os EUA voltem a ser um player importante nessa área, voltando a competir conosco. Entretanto, essa volta não deve ser integral por algumas razões.

Primeiro, os EUA passaram a ser parceiros comerciais não-confiáveis depois do que eles fizeram com as tarifas. Na expectativa de continuidade do Trumpismo, e até a volta dele em 2024, não haveria razão estratégica para os chineses voltaram a comprar produtos agropecuários em grande quantidade do mercado americano. A tensão entre China e EUA vai permanecer porque vai além da questão comercial. É uma disputa de hegemonia, por ora regional na Ásia, mas que vai manter os conflitos na área tecnológica e geopolítica nas próximas décadas. Isso tende a manter o Brasil como parceiro confiável dos chineses.

    Vale dizer que nessa disputa os chineses saem vitoriosos no momento e tendem a fazer com que os americanos olhem os latino-americanos com mais atenção. Por conta da estratégia geopolítica, é de interesse dos EUA não entrarem em conflito aberto com o Brasil.

    Haverá pressão dos chineses para internacionalização do renmimbi, que virou praticamente uma moeda digital com custos de transações potencialmente menores do que o dólar para os próximos anos. A não ser que os EUA queiram ver a soja brasileira ser transacionada em renmimbi poderá haver um esforço diplomático de aproximação que foi abandonado durante os anos Trump. Como se sabe, a lealdade Brasil-EUA partia apenas do lado brasileiro.

    Mas isso não significa que não haverá atritos. Pelo contrário, na questão ambiental os americanos serão agressivos. O interesse em preservar a Amazônia tem como pano de fundo as mudanças climáticas, que são um imperativo, não uma questão de capricho dos países desenvolvidos. No curto prazo, pressões pontuais podem acelerar alguns processos, como a eventual saída da equipe do Ministério do Meio Ambiente.

    Por outro lado, os militares ainda olham a Amazônia como questão de soberania, o que é um ponto fora de foco do que se quer para a região, mas é o pensamento antigo da corporação sobre a região. É um ponto de apoio para o presidente contra soluções mais rápidas para a Amazônia. De qualquer maneira, o Brasil vira um pária internacional na questão ambiental e poderá até sofrer sanções econômicas por conta disso.

    Sanções essas que a literatura econômica diverge nos efeitos. Por exemplo, na África do Sul do Apartheid, as sanções parecem ter tido pouco efeito econômico, mas muito efeito político, com a queda do regime no início dos anos 90. Eventuais sanções aqui poderiam também surtir mais efeitos políticos do que econômicos. Especialmente porque nossa venda de agropecuária é em sua maior parte para países menos preocupados com essa questão ambiental e com mais necessidades domésticas que os fazem ver essas questões com muito menos preocupação.

    No geral das exportações, somos pequenos e o Brasil ainda é um país fechado com uma das menores taxas de corrente de comércio sobre o PIB do mundo. Mas se juntarmos essa pressão com a formação de um centro competitivo, o presidente Bolsonaro tenderá a reagir com mais agressividade, como tem sido nas últimas semanas.

    Isso não deixará de ser positivo para o agronegócio por um lado, que além da pressão de preços internacionais de commodities que se mantém em 2021, ainda terá uma pressão cambial crescente para ajudar nas exportações. A taxa de câmbio cada vez parece em tendência de depreciação contínua nos próximos dois anos com a piora sem solução aparente da questão fiscal.

    O Brasil virar um pária internacional na questão ambiental terá consequências de longo prazo na reputação que não será fácil de contornar. Se juntam a essa questão a provável paralisação na entrada na OCDE e o fim de acordos comerciais com a União Europeia, e eventualmente com o Reino Unido. O impacto no complience das empresas com as normas de ESG fará com que o investimento estrangeiro direto no país possa continuar caindo nos próximos anos.

    O cenário é essencialmente mais complexo do que já estava, com os agravantes fiscais aqui dentro para piorar o horizonte. Para as empresas, continuará exigindo um esforço de controle de custos, piorado ainda mais com o recente aumento da inflação, mas isso é tema para uma próxima coluna.

    *Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados

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