O nacional-populismo veio para ficar?

A polarização inclemente na política mundial nos faz pensar sobre o que fazer para sairmos desse círculo viciosos de nacionalismo e populismo

A eleição americana se aproxima e promete ser a mais tensa em muitas décadas, provavelmente de toda a história. O presidente Trump tem sinalizado que não facilitará a vida de Biden caso ele vença, indicando que além da esperada judicialização, convocará seus apoiadores para a rua, o que pode incitar uma violência inédita até a posse em janeiro.

Essa polarização inclemente na política mundial, que tem afligido diversos países, nos faz pensar sobre o que fazer para sairmos desse círculo viciosos de nacionalismo e populismo. A tarefa certamente não é fácil e alguns pesquisadores consideram que talvez não haja muito o que fazer, pois o nacional-populismo veio para ficar. Em livro recente de Roger Eatwell e Matthew Goodwin, chamado “Nacional-populismo: a revolta contra a democracia liberal”, os autores consideram que as demandas da população não têm sido atendidas, causando o elevado grau de desconforto que faz com que elas aceitem promessas que, na nossa visão podem ser demagógicas, mas que fazem sentido para o eleitor mediano.

Se é verdade que o nacional-populismo tende a ser mais permanente do que gostaríamos, figuras midiáticas como Trump, Boris Johnson na Inglaterra e Bolsonaro podem ter mais sobrevida do que se imaginaria. A história americana é repleta desses candidatos com aspirações populistas, mas que em geral eram barrados pelos partidos democrata e republicano. A virada na eleição de 1968, que permitiu que os eleitores tivessem mais força nas primárias, foi dando espaço para que populistas completos como Trump conseguissem passar pelo crivo do partido. De qualquer maneira, essas demandas acabavam sendo incorporadas pelo establishment, mas sem de fato o poder presidencial ter sido dado para esses populistas, como mostra Barry Eichengreen em The populist temptation. É notório o exemplo do maior populista americano no final do século XIX, William Jennings Bryan, ter virado Secretário de Estado de Woodrow Wilson a partir de 1913.

É verdade que há também um caminho mais agressivo à direita percorrido pelo partido republicano desde os anos 80. A questão identitária levantada em livros recentes de Francis Fukuyama e Mark Lilla podem ter uma ponta importante de explicação nessa virada à direita extrema do partido, mas a verdade é que a conjunção dessa população que se sentiu abandonada com um partido relevante extremista permitiu o fenômeno Trump. Segundo Eatwell e Goodwin, cerca de 26% dos democratas têm inclinação para as ideias republicanas, muito mais do que o contrário. Sendo assim, discussões sobre imigração e minorias poderiam levar mais democratas para apoiar os republicanos nesse mundo nacional-populista. Estes autores creem que, passada a turbulência maior, pode sobrevir um nacional-populismo mais leve. Talvez a figura de Trump tão conflituosa pode levar a certa normalidade em termos de nomes de futuros candidatos.

Isso será importante para sabermos o quão abalada a democracia americana possa ter ficado se de fato Trump perder a eleição este ano. Adam Przeworski em seu livro recente, Crises of Democracy, mostra como pequenos detalhes institucionais podem permitir que figuras como Hitler consigam o poder que conseguiram. Ao mesmo tempo, ele mostra a relevância do papel do líder. Assim como Hitler foi o líder nefasto que foi, Charles de Gaulle foi instado diversas vezes a iniciar uma ditadura na França da década de 60, mas seu caráter democrático impediu que acontecesse. Przeworski chega a considerar que a sobrevivência da democracia na França possa ter sido um mero acidente histórico, assim como ela não conseguiu sobreviver na Alemanha nazista.

Se as lideranças são importantes para evitar que brechas institucionais avancem para o terreno pantanoso de, no mínimo, uma democracia iliberal, qual o papel da população nessa história?

Talvez um sopro de esperança para o leitor possa vir do novo livro de Larry Diamond, Ill Winds: saving democracy from russian rage, chinese ambition and american complacency. Como o título diz, o desafio não é simples e os primeiros dois terços do livro deixam um sabor pessimista para o futuro. Entretanto, o final traz diversos exemplos do papel que a sociedade civil pode ter em evitar que a democracia perca seu vigor nas mãos de lideranças de partido e presidentes. Ele cita um belo exemplo do Maine, estado americano, em que a população forçou por duas vezes um plebiscito para que se aceitasse o voto por ranking nas eleições estaduais. O primeiro plebiscito foi revogado pelo governador e a Assembleia estadual, mas uma pressão adicional e mais forte da sociedade levou a novo plebiscito com resultado ainda maior do que o primeiro.

É verdade que o sistema eleitoral americano é por demais tortuoso, com divisões de distritos feitos com claros objetivos políticos, sem falar no antiquado colégio eleitoral. Também é verdade que as redes sociais e os ciberataques são fatores crescentes de polarização. Mas o fato é que uma sociedade passiva permite que lideranças muito ineficazes como Trump ganhem terreno. Não é simples imaginar que a sociedade seja cada vez mais vocal, mas não há saída esperada que não passe por ela.

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