Faz sentido baixar a meta de inflação para 4,25%

Como esperado, ocorrerá em junho a decisão sobre a meta de inflação de 2019. Pelo que já foi apurado, deverá ser de 4,25% ao invés dos 4,5% que existe desde 2005. Há toda uma discussão se seria necessário do ponto de vista econômico baixar a taxa nesse momento e, talvez mais especificamente, se haveria condições fiscais para isso.

A crise que abateu o país em maio trouxe à baila a dificuldade que será aprovar qualquer tipo de reforma da previdência. Como se sabe, sem essa reforma não há como existir regra do teto e teremos que partir para a solução velha de guerra via aumento de impostos. Essas decisões, pelo jeito, terão que ficar para 2019. Por mais que saibamos quão grave é não aprovar agora a reforma, a política torna essa opção cada dia mais distante. Soluções paliativas como a volta do fator previdenciário no curto prazo poderá ser a única opção. Nesse caso, não é mais possível compactuar com fantasias e desejos irrealizáveis do mercado.

Com o ajuste fiscal a perigo, é válida a discussão se o Conselho Monetário Nacional (CMN) deveria optar por baixar a meta agora. É verdade que a questão fiscal é um forte senão, mas a sinalização, pequena no caso, seria importante para continuar ao menos balizando e confirmando as próprias projeções para os próximos três anos que já estão nesse patamar.

Particularmente, acredito que nos próximos anos a inflação voltará a bater acima da meta, mas abaixo do teto. Este ano tivemos uma conjunção inédita de forte queda de preços de commodities, com longa recessão e Banco Central bastante crível. São elementos que dificilmente veremos novamente à frente, especialmente quanto às commodities e obviamente à recessão, que por mais que tenha risco de continuar este ano, está próxima de seu fim.

Mas se formos trabalhar sempre com todos os riscos possíveis de pressão inflacionária, será impossível pensar em baixar a meta algum dia. Sempre haverá um argumento contra. Por exemplo, em alguns lugares surgiu a ideia de que os salários no Brasil são inflexíveis, não havendo corte nominal de salários como houve na Europa durante a crise de 2008. Por certo esse tipo de corte não existe, mas a rotatividade no mercado de trabalho é tamanha que permite a demissão de alguém com salário elevado por alguém com salário mais baixo, aliás, algo que os dados do Caged têm corroborado desde que a crise começou. Na recuperação, tal estratégia continuará sendo válida para quem quiser manter os salários baixos na empresa. É verdade que há um custo elevado de demissão, mas justamente esse elevado custo ajuda na manutenção de uma alta rotatividade que permite o ajuste nos salários e emprego, como se viu intensamente nos últimos anos.

Outro argumento que se usa é que a estrutura salarial no Brasil é fortemente baseada no setor público, que tem força de pressão para aumentos de salários. Com inflação baixa haveria pressão para aumentos reais muito maiores, pressionando o gasto público. Mas a própria reforma da previdência tem como mote desmontar os grupos de interesse do setor público que tem sido os maiores ganhadores desses aumentos nos últimos anos. Dependerá dos próximos governos sinalizarem que os aumentos terão que ser próximos da inflação média. Quem acha que isso não é possível acredita que em algum momento o ciclo de fortes aumentos reais do salário mínimo e do funcionalismo público, como se viu ao longo do governo Lula. O desarranjo fiscal estrutural naturalmente impedirá que tais pressões sejam efetivas.

Por fim, e aí sim a mais importante das razões, com uma possível crise fiscal à frente, por que baixar a meta agora? Porque entra novamente a razão de divergência dos mercados na crise de agora e na do governo Dilma. A percepção é que pelo menos até 2018 a atual política econômica permanecerá e ela tem sido francamente pró-ajuste. Pode ser que não consiga no curto prazo ser tanto via gasto tendo que ser via receita, mas a ideia é que o vitorioso em 2019 terá que manter a trajetória atual. Como temos escrito aqui em outras colunas, isso parece ser possível em apenas um grupo muito pequeno de candidatos. Entretanto, essa discussão está muito além do horizonte que o CMN teria para colocar em discussão sobre os argumentos para baixar ou não a meta. Ou seja, não se pode usar um possível fracasso da atual agenda para evitar que a queda seja sinalizada para 2019. Se eventualmente for necessário, faz-se o ajuste para cima como já se fez na transição FHC/Lula.

Os riscos obviamente não são pequenos, mas a opção por um caminho intermediário entre nada fazer e uma queda mais intensa para 4% faz todo o sentido e funciona como sinalizador de que essa agenda teria que ser mantida, mesmo com todos os riscos dela morrer na praia logo à frente.

 

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