Desafios na economia se estendem para 2022

O cenário turbulento na política e na economia terá implicações além de 2021

A piora da pandemia nas últimas semanas retirou qualquer expectativa de recuperação mais forte da economia este ano. Nós, na MB Associados, já há muito tempo esperávamos crescimento mais baixo esse ano pelos riscos imbuídos da pandemia com as novas cepas e a lentidão na vacinação. Os 2,6% que esperamos infelizmente parece que pode se confirmar e o mercado tem revisado seus números. É certo consenso que o crescimento este ano deverá ficar entre 2 e 3%, muito aquém do que deveríamos ter para recuperar as perdas do ano passado.

Neste primeiro semestre pouco poderá ser feito para reverter essa situação. Diferentemente do ano passado quando as pessoas ficaram de fato em casa e havia recursos fiscais e monetários, hoje a realidade é diferente. Sem esses recursos, as pessoas entram no dilema de ter que trabalhar para sobreviver e evitar se contaminar. Como já é mais do que óbvio, ajudaria a minimizar esse drama se todos usassem máscaras e praticassem o distanciamento social da melhor forma possível, algo que o exemplo de cima sempre ajuda. Neste caso, o exemplo presidencial sempre foi de confronto e negação, mas que, de repente, parece ter mudado de trajetória com o pronunciamento no dia 23 de março sobre a pandemia.

Depois de meses em negação, a expectativa de um Lula fortalecido, a carta dos economistas e o número agressivo de mortes teve o papel de fazer o presidente ceder. Entretanto, ainda está cedo para sabermos se de fato isso ocorrerá, pois o presidente tem o mau hábito de ser excessivamente espontâneo naquilo que pensa, em geral com resultados muito ruins. Não será difícil ver nas rodinhas em frente ao Planalto o presidente voltar a falar seus impropérios contra a vacinação, sem falar no kit de prevenção contra a Covid19, que nada previne, mas que não sai da cabeça presidencial.

O problema é que o elemento central para tudo se resolver, que é a vacinação, será um processo lento. Sempre considerei que o primeiro semestre seria catastrófico, mas com boas chances de um segundo semestre mais favorável por mais vacinas disponíveis, a capacidade de produção da Fiocruz e do Butantã, além da eficiência do SUS em vacinar, claro, se houver vacinas. Até a vacinação acelerar estaremos a mercê de novas cepas que podem surgir, lembrando que a atual prevalecente no país parece ser mais mortal e com maior capacidade de se espalhar.

Nota-se a dificuldade em lidar com a doença quando vemos que em alguns países desenvolvidos já se fala em uma terceira onda, o que de forma lúgubre lembra a gripe espanhola, que também teve três ondas, sendo a segunda a mais agressiva. A repetição da trágica história dessa vez tem contornos muito melhores com a vacinação.

Esse conjunto desfavorável no curto prazo continuará tendo repercussões na economia. O choque de inflação que se percebe com a desestruturação das cadeias industriais mundiais, o aumento dos preços das commodities e a depreciação cambial torna o trabalho de recuperação mais difícil. Para conter uma inflação que chegará a 7,5% no acumulado em 12 meses em maio, o Banco Central teve que subir os juros mais do que se esperava, o que, na verdade, foi positivo. Por mais que seja uma decisão que cause certo espanto à sociedade por estar sendo feito no momento de piora na atividade, o fato é que o BC faz a leitura correta de que pior do que a queda na atividade é uma inflação que pode sair de controle. Quanto mais cedo o BC evitar que as expectativas piorem, melhor. E, por isso, infelizmente a Selic terá que subir ainda mais, sendo 5,5% a taxa de juros que acredito que teremos no final do ano. No final, estamos passando por uma mini ciclo de estagflação, como alertamos em artigo no ano passado.

Esse cenário turbulento na política e na economia terá implicações além de 2021. A alta de juros vai tirar parte da recuperação do ano que vem e, por isso, revisamos nossa expectativa de crescimento de 2022 de 2,4% para 1,8%. Politicamente, o presidente terá vida muito difícil pela frente, pois ele chegará em março do ano que vem com o PIB de 2021 divulgado e as manchetes de imprensa mostrando que ele teve o segundo pior desempenho na economia nos três primeiros anos de mandato, só não sendo pior que o Collor. Não é um cenário alentador para alguém que fez esforço para entregar esse resultado ao não correr atrás da vacinação como, por exemplo, o Chile e diversos outros países fizeram.

Resta saber se politicamente o presidente estará fora de combate na eleição do ano que vem. Ainda é cedo para isso, mas a polarização esquerda-direita em que estamos desde que Lula começou o nós contra eles em seu mandato não mostrou sinais ainda de arrefecer. O populismo muitas vezes atua no diapasão mais moral do que econômico, ou seja, coloca a questão do povo contra as elites que usurpam a vontade das pessoas simples. Essa visão de se colocarem do lado do povo é a cartilha populista que tanto Lula quanto Bolsonaro sempre tiveram em seus DNAs. Por mais que a população queira outro candidato, este terá que se apresentar rapidamente, costurar alianças políticas com habilidade e tentar furar a barreira emocional que une eleitores fiéis a esses dois personagens. Que o centro democrático consiga controlar seus egos e encontre o caminho da união para 2022.

*Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 12,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 29,90/mês
  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa mensal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.