O mais belo gol de Maradona foi um ato político

Associar o argentino a ditadores é injusto com sua essência

Em 22 de junho de 1986, Diego Maradona fez o narrador Victor Hugo Morales chorar. Nas quartas-de-final da Copa do Mundo, Argentina contra Inglaterra, o meia-atacante dominou a bola atrás do meio-de-campo. Avançou com ela até o gol adversário, enfileirando cinco ingleses antes de marcar seu segundo na partida. (O primeiro, com a mão divina, é também antológico.) Victor Hugo gritou: “De que planeta vieste?! Para deixar tantos ingleses pelo caminho!”

Os dois gols de Maradona naquela partida – um assombroso, outro sacana, engraçado – vingaram, de algum modo, os 649 argentinos mortos na Guerra das Malvinas de 1982. Durou dez semanas e foi iniciada pelos latino-americanos, à época sob ditadura militar. Jorge Luis Borges definiu-a como a briga de dois carecas por um pente.

“Perdão, estou chorando!”, gritou o narrador Victor Hugo. Citou o “punho cerrado” dos argentinos vibrando com o gol de Maradona. O jogador ficou depois conhecido pela amizade com ditadores como Fidel Castro e Hugo Chávez. Sob esses comandantes, a aquiescência obrigatória aos políticos teria menos apelo para o craque genial. Era um rebelde. Na Itália, jogou no minúsculo Napoli, com quem venceu o equivalente à Liga dos Campeões no fim dos anos oitenta.

Seu maior gol é, para muitos, o melhor da história das Copas do Mundo. Sublime e canhota, a vingança argentina.

(Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.)

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