No papel, o PT está mais para Dilma Rousseff do que Lula

A volta do ex-presidente ao cenário eleitoral exigirá uma atualização do programa partidário, bastante à esquerda do Lula “paz e amor”

A nova pesquisa Exame/Ideia tem uma informação curiosa. 32% dos cidadãos da classe D e E – os mais pobres do Brasil –, não ficaram sabendo da decisão de Edson Fachin, ministro do STF, que colocou Lula (PT) de volta ao cenário eleitoral. Eles serão informados ao longo dos próximos meses, o que pode diminuir a alta rejeição (42%) à possível candidatura do ex-presidente. Para comparação, Jair Bolsonaro (sem partido) é rejeitada por 38%. No segundo turno, ganharia de Lula por 44% a 37%.

O que pode animar os apoiadores do petista é algo relacionado à trajetória singular de seu partido. De todos os possíveis contendores, Lula é o único que tem um partido de massas por trás. O PT é uma organização robusta. Isso é bom porque ele terá uma rede muito bem estruturada de diretórios partidários em municípios de pequeno e médio porte para trabalhar na campanha. João Doria (PSDB) não pode dizer o mesmo. É rejeitado dentro do próprio partido. Além disso, o fraco desempenho dos tucanos em 2018 e 2020 provavelmente diminuiu sua capacidade organizacional.

Mas Lula tem uma questão a resolver dentro do partido. Em setembro do ano passado, o PT lançou o “Plano de reconstrução e transformação do Brasil”. É assinado por uma comissão da Fundação Perseu Abramo, órgão interno do partido, que inclui os ex-ministros Aloizio Mercadante, Miriam Belchior e Tereza Campello.

O documento propõe uma nova Assembleia Nacional Constituinte – algo totalmente fora de lugar no debate político contemporâneo e ignorado por Lula. Defendem que o auxílio emergencial da pandemia seja de R$ 600 – sem, é claro, apresentar qualquer cálculo sobre a viabilidade fiscal da decisão. Por que não R$ 1200, então? O plano também sugere “alterar para 100% os percentuais de descontos aplicados aos beneficiários da tarifa social de energia elétrica no período de pandemia”. A ideia tem mérito, mas fica de novo a pergunta: quem vai pagar por isso?

Em suma, o documento lembra o PT do início dos anos noventa, antes da tomada de controle da organização pelo “Campo Majoritário”, a facção interna do partido que construiu o caminho para a aliança com moderados em 2002. Esse PT é semelhante ao de Dilma Rousseff, que implementou políticas públicas mais “desenvolvimentistas” (sic) do que Lula, com o resultado econômico desastroso que se sabe. Especialmente por afirmar, no plano, que “no cenário pós-pandemia, caberá ao Estado planejar, projetar, gastar, induzir e estimular a retomada do crescimento e a geração de empregos”.

Conheço uma empresa que pode ajudar a “induzir” o crescimento, mas teve que mudar de nome depois da Operação Lava Jato. Chama-se Novonor.

(Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.)

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