Incompetência na vacinação une, por enquanto, ricos e pobres

A ansiedade é grande porque, desta vez, não há solução que prejudique mais quem tem menor renda

“Você não precisa receber o Bolsa Família, não. Você só tem um filho, tá nova e pode ainda trabalhar. E aqui, minha filha, tem muita gente que sofre para conseguir o Bolsa, viu?”, disse uma assistente social para a mulher que solicitava o auxílio. É a dupla face do Estado brasileiro. Há ajuda aos pobres, mas ela é mediada por políticos e burocratas que nem sempre são empáticos e competentes. O Sistema Único de Saúde (SUS) funciona melhor do que se poderia esperar, mas se a médica for ruim e o enfermeiro grosseiro, não há o que fazer. Essa citação está em “Repertórios morais e estratégias individuais de beneficiários e cadastradores do Bolsa Família”, artigo publicado por Mani Tebet Marins na revista Sociologia & Antropologia em 2014.

A tragédia do coronavírus está, de certo modo, trazendo o que há de pior no Estado brasileiro à classe média e aos ricos. Por enquanto, não há vacina para ninguém. Sua renda não importa – você não será vacinado enquanto houver incerteza sobre a eficácia da Coronavac, a que será produzida em São Paulo. O governador João Doria (PSDB) promete o resultado para 23 de dezembro.

Se tudo der certo, no mês que vem as primeiras vacinas estarão disponíveis para profissionais da saúde e integrantes de grupos de risco. Não adianta perguntar nas clínicas privadas se você pode pagar uns R$ 500 para ter acesso antecipado. Segundo Geraldo Barbosa, presidente da Associação Brasileira das Clínicas de Vacinas (Abcvac), só em 2022 elas estarão disponíveis no mercado. Antes disso, a distribuição será feita exclusivamente pelo governo.

Sofreremos todos com a limitada competência de Jair Bolsonaro (sem partido), Eduardo Pazuello e governadores.

(Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.)

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