Adiamento do censo é mais um capítulo de Bolsonaro contra o Estado

Adiar o censo pelo segundo ano seguido é, além de tudo, uma oportunidade que Bolsonaro desperdiça para melhorar suas políticas sociais

Em abril de 2014, no fim do primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT), o IBGE foi pressionado a atrasar a divulgação dos resultados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) pelos senadores Armando Monteiro (PTB) e Gleisi Hoffmann (PT). Segundo eles, seria necessária uma “revisão metodológica” da pesquisa, que em 2013 registrara um índice de desemprego quase dois pontos percentuais mais alto do que outro levantamento do IBGE.

A evidente motivação política causou a saída de diversos chefes da instituição dos seus cargos de confiança. Para evitar um estrago pior, a coalizão governista resolveu aliviar a pressão e a PNAD foi divulgada sem mais percalços.

Lembrar desse episódio aqui não faz parte de um argumento “bolsopetista”, tornando equivalentes dois estilos distintos de governar. Serve apenas para alertar que estatísticas oficiais de governos têm, como tudo, uso estratégico.

A interferência do atual presidente no trabalho do IBGE tenta ser discreta, mas os cortes orçamentários que impossibilitam a realização do censo neste ano mostram uma face perniciosa do bolsonarismo. Os embates com burocratas não se dão apenas por motivos ideológicos, como na área da Cultura. Os assessores de Bolsonaro não o informam, provavelmente por incompetência, que as informações do censo podem ser usadas para lhe dar vantagem sobre os oponentes em 2022.

Quando o IBGE faz seu trabalho com orçamento adequado, políticos podem usar as informações públicas para aperfeiçoarem políticas sociais pelas quais serão recompensados nas urnas. Muitos analistas identificam a capacidade de produção de estatísticas sobre a população como um dos pilares para a provisão de políticas públicas nos tempos modernos.

Segundo um estudo de Thomas Brambor e co-autores, países nórdicos (Dinamarca, Suécia etc.) conseguiram implementar censos periódicos, com qualidade crescente, desde o fim do século 18. No Brasil, o primeiro censo foi em 1854 e o segundo em 1872, ainda no Império.

Nosso país está na média da América Latina quanto à produção de boas informações oficiais, que é bem mais baixa do que a dos países da Europa mais rica. (O artigo “The Lay of the Land: Information Capacity and the Modern State”, escrito por Thomas Brambor, Agustín Goenaga, Johannes Lindvall e Jan Teorell, foi publicado pela Comparative Political Studies em 2020.)

O adiamento do censo pelo segundo ano seguido terá, como a falta de escola para crianças e adolescentes, consequências ruins apenas a longo prazo. A brincadeira de John Maynard Keynes sobre isso – “a longo prazo, estaremos todos mortos” – perdeu a graça ano passado.

(O texto teve a colaboração de Felipe Lamarca, graduando da FGV CPDOC e FGV EMAP.)

(Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.)


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