Quantas toneladas de nitrato de amônia você guarda?

A explosão em Beirute sob a perspectiva de gestão de risco (ou da falta dela)

No universo de seguros existe uma cláusula referente a “Atos de Deus” (Acts of God), ou seja, eventos fora do controle ou da atividade humana. Geralmente é um desastre natural, como uma inundação ou um terremoto. O evento em Beirute não foi um “Ato de Deus” ou um acidente.

Por mais que a explosão tenha sido atribuída a um acidente, seria impreciso e incorreto descrevê-la como tal. Acidentes são ocorrências inesperadas; e o risco estava ali, presente, crescente, inexorável.

O evento teve um longo processo de maturação desde que um cargueiro russo – contratado por uma empresa de Moçambique, em 2014, para transportar 2.750 toneladas de nitrato de amônia – ancorou no porto de Beirute, a fim de pegar uma carga de máquinas para completar os recursos necessários para pagar a travessia do Canal de Suez e seguir viagem.

Por capricho do destino, mais uma peça do desastre foi montada: o navio antigo e avariado não comportava os equipamentos. Sem a carga e os respectivos recursos, a tripulação começou seu calvário. Por não pagar as taxas portuárias, o capitão e dois oficiais foram presos e o navio impedido de deixar Beirute.

Para contratar um advogado, o capitão vendeu o combustível do navio, que já apresentava vazamentos. Após meses de prisão, os três foram soltos e retornaram para a Ucrânia em 2015.

A carga foi transferida para um dos armazéns. Nitrato de amônia em si não representa problema, mas submetido a estresse como pressão ou alta temperatura pode levar a explosões, tanto que é utilizado na fabricação de explosivos.

Ciente do risco representado por tamanha quantidade de nitrato de amônia – repito: 2.750 toneladas – o responsável pelo porto de Beirute enviou diversas solicitações à justiça pedindo autorização para doar a carga a fabricantes de explosivos ou fertilizantes.

A autorização foi negada sob o argumento de haver necessidade de um processo judicial para um leilão. O processo caiu em uma das valas da burocracia e, nesse intervalo, um outro galpão próximo foi utilizado para armazenar fogos de artifício.

Mais pedidos do responsável pelo porto e mais decisões negativas da justiça.

Do ponto de vista de gestão de risco, o responsável pelo porto tinha um evento com grande probabilidade e alto impacto caso ocorresse. Não poderia ter ficado parado à espera de uma decisão, ou que a reação em cadeia fosse iniciada.

Corta para 4 de agosto de 2020, cinco anos depois. Um acidente no carregamento de um navio provoca reações que atingem o depósito de fogos de artifício, que pega fogo e atinge o armazém onde estava o nitrato de amônia. A alta temperatura e pressão provocam a gigantesca explosão, produzem um cogumelo gigantesco e devastação.

Os danos em vidas, materiais e econômicos são imensos. Para termos uma ideia, 80% do trigo consumido no Líbano – cuja dieta é rica em pão – passa pelos silos do porto de Beirute, que foram destruídos. Como a população será alimentada é um dos grandes problemas do “day after”.

Toda essa desgraça porque os riscos foram desconsiderados quando os elementos que indicavam probabilidade de ocorrência e dimensão dos impactos estavam absolutamente claros.
Conto a história porque é mais comum do que se pensa: a negligência com que muitas pessoas lidam com riscos, que vão se acumulando até um desastre. Acontece nos órgãos públicos, nas empresas, nos condomínios, na família, na vida pessoal.

Por isso, caro leitor, pare, pense, veja se não existe em algum lugar, sob sua responsabilidade, um armazém de nitrato de amônia fermentando uma catástrofe que você possa evitar. Algo que demande uma decisão, uma ação que não é tomada ou é adiada; algo que frequente suas noites mal dormidas, mas que empurre com a barriga como se esquecesse, pois não fazer também é uma decisão.

Após a reflexão, lembre-se do mestre Saramago: “Não tenhas pressa, mas não percas tempo.”

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