Hora de repensar

Em sua coluna, Sérgio Cavalcanti comenta sobre o livro 'Pense de novo' (Think again): O poder de saber o que você não sabe, de Adam Grant

Por Sérgio Cavalcanti

No excelente livro Pense de novo (Think again): O poder de saber o que você não sabe, o Professor Adam Grant, da Wharton School (Universidade da Pensilvânia), explora, com maestria, como nos apegamos ao que já sabemos e nos fechamos para o novo, para uma nova forma de ver e analisar os fenômenos a que estamos expostos.

Em uma época de guerra identitária, de nós versus eles, de certezas arraigadas que impedem qualquer pensamento mais arejado, torna-se um livro fundamental para quem acredita na importância de repensar e reavaliar conceitos, abrir estradas, conciliar, construir pontes.

Segundo o Professor Grant, inteligência é tradicionalmente vista como a habilidade de pensar e aprender. Contudo, nesse mundo turbulento, há outro conjunto de habilidades cognitivas ainda mais relevantes: as habilidades de repensar e de desaprender.

O desafio de utilizar esse outro conjunto é dificultado imensamente pelos três modos que operamos e que são ainda mais reforçados pela polarização que vivemos. São os 3P's: o Modo Pastor, o Modo Promotor e o Modo Político.

Quando estamos no Modo Pastor, nosso esforço é pregar aquilo que acreditamos, tentando converter o maior número de pessoas às nossas crenças.

No Modo Promotor, buscamos culpar aqueles que de nós discordam, desqualificando-os por simplesmente divergirem de nossas crenças.

No Modo Político, tentamos cooptar nossos adversários; é bem verdade que algumas concessões podem ser feitas, mas o objetivo é mudar para deixar tudo como está.

Os três modos de operação implicam em não escutar a outra parte, não criar as mínimas condições para que o terreno seja fertilizado e brote algo novo. Num ambiente assim, a paralisia leva ao impasse e à decadência.

O Professor Grant cita George Bernard Shaw:

"O progresso é impossível sem mudança; e aqueles que não conseguem mudar de ideia nada conseguem mudar."

Qualquer semelhança com o que vivemos atualmente não é mera coincidência. A radicalização atual impede não só qualquer possibilidade de uma nova via ser criada, mas também a construção de novas soluções para problemas antigos, que carecem de respostas urgentes, sob pena de caminharmos ainda mais rapidamente para trás.

Sugiro o exercício cívico de simplesmente ouvir atentamente aquele de quem se discorda. Vamos colocar nossos pastores, promotores e políticos de férias. Quem sabe o mero exercício traga algo de novo, uma nova perspectiva?

Uma sociedade polarizada, dividida, não consegue colaborar e resolver seus problemas e, no final, seja um Titanic vermelho, seja um TItanic verde e amarelo, continuará sendo um Titanic.

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