A Vingança da Tecnologia

Os efeitos imprevistos da tecnologia e o futuro distópico que se aproxima a passos largos se nada for feito

Caminhamos para uma guerra civil, países divididos entre facções incapazes de estabelecer uma base mínima para diálogo, fake news – feito gasolina em fogueiras – aumentam discórdias, seres autômatos caminham para o abismo, olhos fixos em seus smartphones, fantoches de algoritmos, que influenciam e definem o que sentem, para onde vão e como vão.

O mundo próximo, refletido na tela de forma didática e chocante, revela potencial distopia; perigo imediato, virou assunto de jantares e reuniões de família. Promessas de exclusão dos perfis no Facebook e Instagram, redução de uso de whatsapp, atenção ao poder adictivo das redes sociais não param de surgir.

O documentário é primoroso no roteiro, nas escolhas dos entrevistados, na forma que costura os depoimentos, abordando conceitos de forma didática e aterrorizando a todos no final. Brilhante.

O assunto não é novo, e como descrito em artigo no blog Farnam Street, o tema foi abordado em 1997 por Edward Tenner, historiador e editor de ciência da Princeton University Press, no livro Tecnologia e a Vingança das Consequências Não-intencionais. O capítulo inicial do livro (Desde Frankenstein) dá o tom dos contínuos pesadelos do homem com suas máquinas e criações.

O autor classifica quatro tipos de efeitos da vingança; esses nos dão uma boa compreensão do que ocorre com a tecnologia, de maneira geral, e com as redes sociais especificamente. São eles:

  • Efeitos de repetição
  • Efeitos de complicação
  • Efeitos regeneradores
  • Efeitos de reorganização

Os efeitos de repetição ocorrem quando processos eficientes nos levam a fazer a mesma coisa cada vez mais vezes. Quantas vezes por hora você olhava para seu telefone há 15 anos atrás. E hoje? A métrica passa a minutos. Os algoritmos das redes sociais criaram um mecanismo tão eficiente em atrair nossa atenção que criou um vício. Pode-se argumentar que havia intenção de aumentar o apelo dos aplicativos de maneira a estimular o uso contínuo mas, talvez não se imaginasse a extensão e profundidade do ciclo vicioso criado e suas consequências.

Os efeitos de complicação acontecem quando os sistemas ficam cada vez mais complexos, demandando ações cada vez mais complexas. Os telefones eram utilizados apenas para fazer chamadas, hoje para fazer transações bancárias, assistir séries, fazer videoconferência e até controlar o sistema de iluminação de residências. O smartphone virou peça central na vida dos indivíduos, acumulando funções e se tornando vital para sua existência.

Os efeitos regeneradores acontecem quando, ao tentar resolver um problema, criamos riscos adicionais. Um bom exemplo é o uso de antibióticos que provocam a criação de novas bactérias resistentes ao tipo de remédio inicial, muito mais fortes e difíceis de debelar.

Os efeitos de reorganização ocorrem quando os custos são transferidos para outro lugar, aumentando os riscos. Acontecem com centrais de ar condicionado que resolvem o problema de temperatura em certos locais e, ao liberar calor provocam o aquecimento de outros.

A questão central é que tecnologias são implementadas e interagem com sistemas
complexos, o que torna os efeitos não intencionais difíceis de prever e evitar.
Perda de privacidade, adicção a smartphones, comportamentos narcisistas, diminuição de interação real, ansiedade, depressão, guerra cultural, erosão da verdade e potencial guerra civil são efeitos não-intencionais e vinganças da tecnologias que permitiram o surgimento do Google, Facebook, Instagram e Whatsapp e das imensas facilidades criadas.

A consciência do potencial devastador sobre os indivíduos e o tecido social são fundamentais para, como prega o documentário, iniciar um processo de mudança que leve a alguma regulação e consequente redução do descomunal poder dessas empresas e do respectivo impacto sobre pessoas e instituições.

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