A Economia nos aplicativos de relacionamento

Solidão, distanciamento e cidades grandes impulsionam os apps de relacionamento, mas a busca por um companheiro segue os princípios de mercado?

Um mercado (ou marketplace) é um local (ou plataforma) no qual pessoas se encontram para vender e comprar produtos (ou serviços). Nesse sentido amplo, um app de relacionamento é sim um mercado em que pessoas buscam e se oferecem a um relacionamento, encontro, entretenimento, acerto contratual ou até cumplicidade em transgressões matrimoniais.

Explico: a partir de uma necessidade – a busca por alguém – empresas se especializaram em plataformas que atendem a segmentos específicos. Quem procura sexo casual normalmente utiliza TINDER; INNER CIRCLE atende a pessoas que dizem estar interessadas em relacionamentos; ASHLEY é específico para pessoas comprometidas; MEU PATROCÍNIO é para homens maduros dispostos a, digamos, patrocinar mulheres jovens; e as segmentações não param aqui.

Atribuir conceitos de mercados a relacionamentos não é algo novo. O economista Gary Becker (Prêmio Nobel) atribuiu princípios econômicos a casamentos e índices de divórcio na década de 70.

Na Índia existem pessoas qualificadas para buscar noivos e noivas para famílias abastadas, assim como em comunidades ortodoxas judaicas existe o Shadchan. Esses indivíduos são remunerados pelo qualificado trabalho.

Aqui no ocidente, primeiro foram os sites de relacionamento, recentemente os aplicativos que, com agilidade e funcionalidade, podem definir o raio geográfico da busca e as características pessoais (altura, idade, hábitos, escolaridade, filhos, interesses etc.). O algoritmo precisa de indivíduos devidamente catalogados e segregados de acordo com suas particularidades de maneira a atender aos critérios de busca. Eu disse catalogados? Isso remete a compras online, a utilização de um catálogo de produtos do qual sairá uma escolha? Pois é o que acontece. Tanto que o pesquisador Logan Ury criou o termo “Relationshopping”. E como fomos de “relationships” a “relationshopping”?

O crescimento dos centros urbanos trouxe grandes populações, inúmeras possibilidades, mas também uma vida moderna com pouco tempo disponível e uma valorização do espaço individual. Resultado: a solidão parece ser um mal crônico do século XXI.

Como explicar o paradoxo de tanta gente só e tanta gente querendo companhia? Sociólogos, antropólogos e psicólogos se debruçam sobre o tema, mas os capitalistas de plantão enxergaram uma oportunidade de ganhar dinheiro ao resolver um problema ao invés de explicá-lo. Eles cobram mensalidade dos membros e as centenas de milhares de pagantes garantem a prosperidade…, mas nem sempre foi assim.

Os sites de relacionamento surgiram há mais de vinte anos, contudo havia preconceito em atuar neles e admitir a participação. Os anos voaram, a dificuldade em conhecer potenciais parceiros/companheiros aumentou, com isso as pessoas se renderam aos aplicativos, especialmente quando histórias de sucesso começaram a aparecer, e passou a ser culturalmente normal encontrar alguém através de um deles.

Convenhamos que conhecer alguém numa fila de cinema acontece numa música do Frejat, mas vai se tornando difícil com a idade. A conveniência dos filtros simplifica a busca e torna o processo mais eficiente.

Sob a ótica capitalista, o mercado ajusta oferta e demanda e, salvo haja alguma imperfeição como oligopólios, existirão trocas justas. Talvez a analogia comece a perder força quando levamos em conta as potenciais surpresas – boas e más – que existem em menor quantidade nos mercados de produtos. Na busca por um liquidificador, o sujeito não espera que o eletrodoméstico venha com Spotify ou que ele ligue para o seu telefone às 3 da manhã.

Talvez a analogia correta seja a de uma loteria, do encontro do bilhete premiado, da sorte que bate à porta do indivíduo. Mesmo nesse caso, é preciso comprar bilhetes até acertar. Sai bem mais barata a assinatura de um aplicativo.

* Esse texto teve, entre referências bibliográficas sobre o tema,  artigos no The Atlantic, Reuters e HBR.

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