O relacionamento entre as empresas na UTI

Quando muitas empresas estão na "UTI", é ainda mais essencial um equilíbrio no relacionamento cliente-fornecedor para atravessar este momento inédito.

Estamos quase completando dois meses desde o início das quarentenas pelo Brasil e da “instalação oficial” da crise econômica e, pessoalmente, a única certeza que tenho é a de que não tenho certeza de nada. Creio que a maioria de nós nunca passou por um momento de crise tão abrangente como este, portanto, é até difícil ter referências para as tomadas de decisões. Assim, muitas decisões que hoje tomamos talvez se mostrem equivocadas em algum momento, talvez outras não. Mas é fato de que todos temos que fazer escolhas difíceis agora e que refletirão no nosso futuro, mesmo se a escolha for não fazer escolha nenhuma.

E, trazendo isso para o meio corporativo, todas as empresas também estão fazendo escolhas, afinal, todas estão sendo impactadas de alguma forma e para a esmagadora maioria o impacto é negativo. Infelizmente, o coronavírus atacou também a saúde de empresas grandes e pequenas e está mandando muitas delas para a UTI, sendo que outras, nem nisso conseguirão chegar. Consequências de diversos fatores que nem vale a pena abordar aqui.

Mas a reflexão que quero trazer hoje é sobre como conseguiremos manter um equilíbrio sustentável na relação entre as empresas (cliente-fornecedor) neste momento, se é que isso é possível, para que juntos consigamos todos passar por toda esta tribulação.

MIND THE GAP – Se você conhece esta expressão, sabe o que significa. Também a uso no livro que escrevi, juntamente com o Leonardo Barci e o Marcelo Moreira, e que dá  título a este blog. Basicamente se refere à atenção que devemos ter na distância entre o que uma empresa comunica através do seu marketing e o que ela realmente entrega no seu dia a dia. Ou seja, a sua prática real no relacionamento com seus clientes.

Convido, então, a todos os empresários, empreendedores e executivos para que realmente olhem com sinceridade para as atitudes, motivações e escolhas que estão fazendo agora nesta crise e que se refletem diretamente nas outras empresas com as quais a sua se relaciona de alguma forma na sua cadeia produtiva.

Muitas grandes empresas, por exemplo, estão usando este momento para divulgar de alguma forma, seja em matérias ou lives dos seus CEOs, as suas visões da crise, dicas e ideias de caminhos para superarmos os problemas ou mesmo mostrando ações ou doações financeiras da sua empresa.

Entendo que buscam assim também mostrar como suas empresas estão fazendo diferença para a sociedade nesta crise e apoio totalmente isso. De fato, ajudam dando referências para seguirmos.

Mas, para estas mesmas empresas, peço que lembrem-se de que qualquer decisão dura que tomam, traz consequências em cascata e sempre de maneira ampliada. Por exemplo: uma grande empresa que utiliza-se de serviços de diversos fornecedores pequenos, quando decide, agora, reduzir drasticamente custos de maneiras lineares, impondo cortes de despesas com estes fornecedores olhando apenas internamente para manter-se minimamente rentável ou mesmo para preservar reservas, deve compreender que muitas vezes o pequeno prestador de serviços que ela cortou pode não ter reservas para se manter. Em outras palavras, para uma grande empresa onde uma crise como esta pode representar uma redução momentânea de receitas, para um fornecedor dela pode representar o fechamento das portas.

E, se cortes são inevitáveis, a forma de se fazer pode atenuar. Um momento como este exige empatia, respeito e solidariedade, mesmo quando as notícias que você tiver que dar ao seu fornecedor, por exemplo, forem ruins. Deixo aqui uma referência do que foi feito pelo Airbnb para explicar o corte de funcionários. Sim, a relação é diferente, mas a atitude é muito inspiradora.

Em outras palavras, não adianta aparecer na mídia como uma empresa preocupada com a crise, querendo mostrar as boas atitudes e doações de milhões que estão fazendo para apoiar a sociedade se, por trás disso tudo, estão aproveitando a mesma crise para impor cortes de maneira opressiva e sem respeito aos seus fornecedores menores.

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